Questão de percepção (e realidade)

Quando eu descobri que estava grávida (calma, não foi hoje, tem pouco mais de cinco anos), era setembro, como agora. Eu estava na cidade de Pirenópolis acompanhando um festival internacional de cinema e alimentação. Foi a primeira e bonita edição do Slow Filme, semana que vem começa a sexta. Lembro que na noite inicial comemos um autêntico empadão goiano.

Nos primeiros dois dias tudo correu bem. Me alimentei vorazmente de outras receitas típicas, acompanhei os filmes, coletamos histórias. Só que aos poucos os trajetos de carro que fazíamos foram ficando turvos. Eu, mareada. Tenho certa labirintite em vida por padrão, então achei que era nada. Só que fui ficando enjoada acima do normal. E passei a atribuir horror absoluto a tudo que fosse comida do cerrado goiano. Houve uma tarde em que uma cozinheira depois da sessão de fotos nos ofereceu o empadão que tinha acabado de assar, fora todo o sofrimento que a condição ainda desconhecida me dava (viver era sofrer e não compreender), a ideia de tê-lo ao meu lado no carro já me transtornava por dentro. Quase morte. Tivemos de passar adiante o pacote de comida. Fiz um teste de farmácia, havia uma menina a caminho  – eu não sabia que era uma menina, claro, mas eu sempre soube que sabia o que eu na verdade não sabia. Entende?

Tudo isso para dizer que até hoje eu ainda sinto enjoo geográfico de comidas do cerrado, reais e escritas. Brasília e Pirenópolis eu voltei a ler ou ouvir falar sem tantos calafrios. Na semana passada um ouvinte mencionou gabiroba durante o Questão de Gosto e eu rapidamente me inverti, só que consegui voltar ao normal sem vexames maiores. Ao entrar em contato com o tema ainda sinto a água se juntar na boca. Um estranho estado de não poder com isso.

Escrevo este post depois de tomar umas gotas de digesan e por precaução deixei uma caixinha de flanax ao lado da garrafinha de água com gás. As sensações vão e voltam.

Há uma menina a caminho novamente (a mesma, na verdade). Vai chegar daqui a pouco reconvertendo a casa em casa e não mais em lugar de escrever. Escritório.

Se gostar do meu molho de tomate vai elogiar e lamber o prato. Se estiver mexida por outras questões da vida, talvez diga que o sugo está “com gosto de talher”.

***

As experiências nos transformam e nos colocam em lugares diferentes um dia depois do outro. Talvez meu cérebro nunca se cure do enjoo geográfico. Talvez sim.

No Questão de Gosto de hoje nós falamos um pouco sobre o sabor contido das comidas: ele não está lá. Ou melhor, só existe de fato quando nosso cérebro o interpreta. O gosto é uma coisa da nossa cabeça. O desgosto também. Conversamos ainda sobre a fascinante sinestesia, que em casos extremos tem contorno de superpoder. A sinestesia é um trem de cores. A canção trem das cores é sinestésica. Se não deu para ouvir, leia. Se não der para ler, ouça. E não perca o vagão das crianças cor de romã. Entre antes que desabe a nuvem de oliva ou deixe desabar. Ninguém aqui é feito de açúcar.

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