Questão de jabuticaba (e paciência)

É tempo de jabuticaba. O que isso significa, além da oportunidade maravilhosa de ir à feira e voltar com os braços carregados delas, que explodem na boca e nos levam a um quintal sombreado? O espanto pelo achado é agradável (eu gosto de jabuticaba), e também significa que talvez estejamos mimados pela conveniência, desaprendendo a esperar a época “certa” das coisas. As bancas forradas com a frutinha preta durante poucos meses estão aí para alertar, ao menos uma vez por ano, que na vertiginosa passagem dos dias estamos impacientes demais, querendo praticidade demais – tem quem compra, por isso existe uma fábrica a espremer limão e colocar na garrafinha e VENDER isso nas lojas. A gente anda esquecendo – e esquece parado, também – do “tempo bom para”. E que quanto menos ele for ofendido, melhor.

Comida de verdade, alimentos que compramos no atacado ou no varejo – frutas, legumes, verduras, hortaliças, ervas etc., o que vem da terra, entende? Do mar também. E dos bichos. O que não se apressa. Tua mãe já dizia: é como o primeiro beijo e a primeira noite na rua, eles têm seu tempo, embora o playground do supermercado pareça nos dizer que nada é impossível. Banana prata a qualquer hora, figo o ano todo. Precisa ver, porque em parte a tecnologia aumenta a sobrevida, mas a passagem dos dias esvazia o frescor. Tem laranja, mas tá sem suco. Tem figo, mas não tem gosto. Não é?

As principais vantagens de encarar a realidade, sentar e esperar a próxima temporada – você suportou a ausência de house of cards, foi fiel a breaking bad, namorou don draper por tantos anos, então aguenta, que eu sei -, é que ao comprar o produto na chamada alta ele estará mais “bonito”. Mais bonito não quer dizer perfeito esteticamente, e sim saudável (aliás, podemos muitas vezes desconfiar de tomates todos enfileirados e em igual proporção de boniteza, sem irregularidade, há algum filtro ali). Também será resultado de um ciclo espontâneo (ou quase), terá crescido a seu tempo, com menos interferência (agrotóxico, alterações de cultivo e manejo etc., praticamente nenhuma interferência no caso específico dos orgânicos); o preço é mais vantajoso, porque a oferta é abundante.

No site Hortiescolha, serviço altamente distrativo da Ceagesp, que ajuda a pautar as decisões de compra pela oferta mais abundante dos produtos no mercado, a ferramenta de pesquisa sobre isso é bem bacana.

Depois, enquanto você estiver saboreando o pote de jabuticaba, uma atrás da outra (com mais sorte, estará ao lado de um pé carregado de…), ouça Paciência do Lenine. Pautar as escolhas pelo que está bom é melhor do que parar de enxergar que as estações (ainda) mudam. Até agosto acabou. Jabuticaba acaba também e não faz mal, porque no ano que vem tem mais.

(escuta o questão de gosto toda sexta, no rádio do carro ao vivo às 16h03 – somos ímpar – ou a qualquer tempo no site da rádio.)

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