Questão de deixa chorar

Como água para chocolate

Choram as cebolas e chora Tita, dentro da barriga da mãe

Na primeira cena do filme mexicano Como Água para Chocolate (1972), uma moça corta cebolas enquanto vira as páginas de um caderno de receitas da família. Entre lágrimas, começa a nos contar a história de sua tia-avó Tita, uma pessoa à flor da pele desde antes de nascer. Imagine que, ainda dentro da barriga, chorava copiosamente quando lá fora sua mãe cortava… cebolas. O parto ocorreu ali mesmo, na cozinha, porque em Tita tudo era demais e junto com ela trouxe uma enxurrada de lágrimas que inundou a área e a arrancou para a vida. O líquido evaporou. Em seu lugar ficaram os cristais de sal (sal que choveria sobre as panelas daquela casa durante muito tempo). Drama de Alfonso Arau, roteiro extraído do romance da escritora Laura Esquivel; tradições de um México profundo, Rio Grande no fim do século 19; comidas, realismo mágico. Você deve saber.

Revi há pouco, antes de entrar no ar com um comentário sobre a cebola “fancy” que promete o fim das lágrimas e que, no Japão, já fez o maior sucesso a 4,30 dólares o par em uma temporada experimental (!).Descrito na reportagem da revista Munchies como uma cebola que não cheira como cebola e tem gosto de maçã (!), o produto demorou vinte anos para ficar pronto e recebeu o nome de “bola de sorriso”. Sorriso não tem valor, cantaria o Paulinho da Viola, mas não vamos comprar a briga que não é nossa. Pelo menos não ainda.

A cebola é um ponto de partida. Em nosso cotidiano ordinário, quase todos os pratos caseiros começam com ela que também desencadeia inúmeras histórias de cozinha, na cozinha. Mesmo que antes você derreta a banha de porco, para depois fritar cebola naquela gordura eloquente, os cubinhos todos você picou faz tempo, sabe? Nas preliminares. Grosseiros, miudinhos, malelmá cortou. Sempre tem alguém “chorando” em algum lugar a fim de preparar uma comida.

Ela só é hostil se você mexer com ela. E você mexe. Mexemos, há milênios. Ela mostra quem é e assim vamos. Seu sistema de defesa só é acionado quando sofre o trauma – das coisas mais fascinantes. Ao cortar ou morder a cebola, ela libera “compostos químicos” que se convertem no gás lacrimogêneo que irrita os olhos e as vias nasais. Sem pedágio, a não ser que você use máscara de mergulho ou prenda (dizem que dá certo) um gole de água sob a língua.

Ela chora, a gente chora.

Uma cebola que não reage ao atrito da faca pode melhorar a vida do cozinheiro, do cortador na cozinha industrial? Sim. Acho que em parte é essa a intenção dos cientistas: chegar a um “produto” que não perca suas qualidades, mas pare de “ofender” os sentidos de quem o manipula; por mais mãos cheirando a palmolive e não a alho e cebola. Carinhas de nojo para cá e para lá. Bocejo. E já peço desculpas se exalam dessas letras a transpiração desnorteante do molho de alho e tomate que eu fiz ontem e quase bebi no copo de tão gostoso que ficou. Passa.

Enquanto eu escrevo aqui e falo ali há alguém em algum laboratório fazendo avanços nesse sentido. Para deixar tudo cheirosinho e todo mundo antitranspirante e rápido e de roupas impecáveis depois de (não) se ralar inteiro no preparo de um festim. Diabólico. Avanços que vão desde alho sem cheiro até o sacrilégio de engarrafar um limão espremido – boa parte das “invenções” e pesquisas a favor de uma suposta conveniência. Minha questão de gosto hoje era/é essa: será que a cozinha sem as provocações não ficaria, digamos, insensível? Sem os desafios da dor e dos cheiros, a poesia não se desfaz? Chorar, se sujar, cortar, queimar?

Entendo que para muitas pessoas a cebola sem choro é só uma boa ideia. Vai ser melhor, suponho, quando conseguirem chegar a uma equação equilibrada entre a incapacidade de fazer chorar e o sabor (que não tenha gosto de maçã, por favor). Para quem já aderiu, como padrão, ao pote de cebola picada vendido no supermercado, imagino que tanto faz. Aos que gostam de pensar na vida enquanto cozinham, preparar a base de um caldo poderá ser menos distrativo.

Eu às vezes parto a cebola no meio e jogo no caldeirão. Tenho preguiça – e não é de lacrimejar, que o que arde cura e o que aperta segura. É de ser mesmo. Mas só às vezes. No fundo, porém, penso que a cebola contida, proibida de chorar, talvez esteja sofrendo calada. E prefiro deixar ela se expressar em sua essência, e até quem sabe desencadear no cozinheiro um desabafo. Um choro de choro, porque às vezes a gente simplesmente precisa.

Esses embates de dores e cheiros fazem parte do jogo quando escapam das panelas, nos corredores dos condomínios, nas casinhas apertadas e resistentes da vila, perto do meio-dia, no começo da noite… e fora de hora. E fora de hora? Como explicar? Quem faz isso que me desperta, me distrai dos boletos e das mensagens não respondidas? É um modo de contar a passagem do tempo, também. Estamos aqui, logo vamos comer.

Há uma citação, uma afirmação, sobre a cebola e o alho, atribuída ao escritor Raduan Nassar, o autor de Lavoura Arcaica e vencedor recente do prêmio Camões. Em uma entrevista para um jornal há muitos anos, ele teria dito que foi na cozinha que fez algumas das descobertas mais importantes de sua vida – ele, que quando menino detestava cebola, virou devoto.

“Quando você joga o alho esmagado em cima da cebola dourada, que já estava sendo refogada, só então é que sobe da panela aquele cheiro estonteante de vida. Foi isso, aliás, que me levou a desconfiar que os melhores escritores se encontram anonimamente enfiados na cozinha do mundo, cheirando a alho e cebola, escrevendo com uma outra linguagem.”

Se ele disse realmente isso, eu não sei. Não encontrei no Folio da Folha de S. Paulo a entrevista original. O trecho surge em citações de trabalhos acadêmicos e nos cantos escuros da internet, como esse em que me meto agora. Se alguém puder jogar uma luz, agradeço.

No mais, fica com essa letra que só me ocorre com o Paulinho da Viola, mas que hoje descobri que foi gravada por Nat King Cole e Wilson Simonal. Deixemos as cebolas realmente em paz, que elas querem chorar e se não podem vivem a implorar. Repare só.

Quero chorar
Não tenho lágrimas
Que me rolem nas faces
Pra me socorrer

Se eu chorasse
Talvez desabafasse
O que sinto no peito
E não posso dizer

Só porque não sei chorar
Eu vivo triste a sofrer

(…)

 

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