Não se esqueça de lembrar

A transmissão de conhecimento entre gerações e por meio de receitas sopradas ao pé do ouvido, nas conversas à beira do fogão com nossas “avós”, alimenta o repertório da memória afetiva. Falei sobre isso na rádio, hoje. Até pensei que talvez você estivesse querendo bocejar ao ouvir expressões como “memória afetiva” e “comida de avó”, da mesma forma que já bocejou ou dormiu de vez na cara da gourmetização da vida. Aguenta mais um pouco, por favor. É verdade que as duas e suas variações estão saltitando por aí em discursos para vender produtos alimentícios, fazer propaganda e na conversa do dia a dia entre pessoas normais e anormais, como nós dois. Claro. Elas também agitam meus dedos aqui e no lindo projeto de memória e comida Lembraria.com. Há um risco de banalização? Sim. Briguemos com ele.

Como diz o locutor do meu programa musical preferido na Rádio Vozes, o Daniel Daibem, é importante vasculhar o passado para entender o futuro. Clica com o direito, abre em nova janela e ouve there will never be another you enquanto encara essas minhas viagens.

A gente meio que sente saudade o tempo todo, saudade de não sei o quê, e a memória afetiva nos assuntos de comida (e em qualquer outro) É do tempo todo. Vive em construção e em tese não termina de se erguer nem quando a gente vai embora ou morre. Extraída das experiências, é um lugar de conexões e de relações. Não somos muita coisa se não nos relacionamos com o outro. Somos? Em tempos de cabeças baixas, grudadas nas telas, e mãos usadas para falar por meio de mensageiros eletrônicos, quase me esqueço.

A propósito, se não puder me ouvir, escrevo: eu sempre fiz bolinho de chuva do mesmo jeito, só que diferente. Desde que minha mãe me autorizou a usar o fogão, ainda garota, eu ficava com vontade de bolinho de chuva no meio da tarde de folga e ligava para a minha avó Odete. Ela, que me chamava de Viva, dizia: “Ah, Viva, ‘naturar’… Coloca um copo de leite, dois de farinha, ovo, um pouco de açúcar, mistura, frita. Joga o fósforo para ver se o óleo está quente, cuidado…”

Ora ela esquecia o fermento, ora mudava a quantidade de ovos. Me dava uma receita sem medida e que no fim das contas eu fazia do meu jeito e alterava até obter bolinhos perfeitinhos. O detalhe é que tenho convicção de que eu jamais teria conseguido fazer nada sem esse papo de “Viva e Vó” ao telefone. É a minha raiz de bolinho de chuva. Inspiração. A avó já se foi, mas é no repertório das nossas lembranças que eu vou buscar referência quando minha filha me pergunta: “mamãe, como faz? Posso ajudar?” Imediatamente recorro ao modo da vó Odete cantar a receita e a imagino alisar o vestido enquanto as gotinhas douravam no óleo quente. Aquelas mãos que hoje eu enxergo nas minhas.

Minha avó não escrevia em papel. Era redatora de oralidades, na voz, na conversa. Ao ouvir e ao observar seus movimentos populávamos caderninhos de receita imaginários.

Estou falando tudo isso, porque eu acho que andamos tão preocupados em não errar que estamos esquecendo da força dessas delicadezas. Ouvir. Olhar. Lembrar.

Eu sinto duas coisas: uma é que se por um lado estamos deixando o baú das memórias se esvaziar (e nesse vácuo o marketing nada de braçada e a nossa carência também), por outro ainda corremos  o risco de, na falta de cuidado, permitir que a memória afetiva caia na banalização.

No futuro, do que será que nossos filhos vão se lembrar? Em que costumes “antigos” irão buscar referências e significados para inventar moda?

Não precisamos de muito esforço para vestir a carapuça do que diz a minha amiga Vivi Aguiar. Abre aspas: Talvez nas grandes cidades não paremos para ouvir, com atenção, a língua das receitas, do dia a dia da cozinha de casa, da mesa posta para muitos. Talvez seja por isso mesmo que experimentamos hoje, uma saudade coletiva da “cozinha de avó”, da simplicidade, do almoço e do jantar ao redor da mesa. Sentimos falta de ouvir e de entender as receitas como quem entende um idioma nativo. Fecha aspas.

Vivi e eu pudemos assistir, há algumas noites, aqui em São Paulo, um debate sobre mulheres na cozinha e a oralidade (a transmissão do conhecimento pela palavra falada e pelos gestos, até no silêncio). Foi no restaurante Obá, na Rua Melo Alves, e o encontro fazia parte de uma programação especial. Um festival de cozinha mexicana que termina no domingo, 31 de julho. A convidada especial era/é uma cozinheira mexicana, uma mayora. Seu nome é Guillermina Ordoñez.

Veja: mayora é um termo mexicano usado para ser referir às mulheres que são guardiãs de ingredientes, gestos e preparos da culinária tradicional de seu país. Elas em geral não frequentaram nenhuma escola formal para aprender a cozinhar. Tudo o que sabem é absorvido do fazer, na prática, e na convivência com as mulheres da família e de outras mayoras. De ouvido, observação e estudo em campo, elas sabem como se comportam os ingredientes, conhecem suas reações quando combinados. Se ocupam não só de cozinhar, e abrir o avocado para o guacamole com absoluto respeito, mas de transmitir conhecimento pelo dizer “como se faz” e, também, por meio de movimentos e olhares. Como a minha avó. Como a avó real ou “imaginada” por muita gente. Vivi chegou a escrever que, sem perceber, há uma certa sabedoria no rebolado que empurra a gaveta com os quadris quando estamos com as duas mãos ocupadas. Uma joga uma pitada de sal aqui, a outra mexe a colher ali. E há.

Dias depois do evento sobre oralidade, Guillermina eu nos encontramos novamente e foi quando ela me falou de sua trajetória. Hoje eu estou aqui às voltas com a transcrição da entrevista, a edição dos áudios para compor o que vai ser um podcast da série O Começo dos Dias (!).

Feito luz em meu ouvido, Guillermina habla em espanhol coisas sobre a cozinha no interior do México, onde diz ter crescido sob a observação do amor dos pais e na companhia de onze irmãos. Havia fartura do pomar, quilos e quilos de milho para processar todos os dias. Comoveu-se ao recordar os pratos que sua mãe preparava, os preferidos da “filha predileta”. Aquela vida ajudou a delinear seu perfil de cozinheira (…). Falamos, claro, sobre o potente desayuno no campo e na cidade do México (mais adiante trataremos dos detalhes, mas, olha que curioso, em uma cultura de ovos, feijões, tortilhas de milho e molhos apimentados no café da manhã, para ter fome outra vez só depois das duas da tarde, uma das memórias afetivas de lanchinho da Guillermina é tomar um copo de café coado com um biscoito, tipo bolacha de maisena ou maria. Frugal. Nisso, somos cúmplices. Também acho uma delícia. A qualquer hora.

Uél, aproveita que você leu até aqui sem adormecer e vamos alimentar nosso baú de depoimentos de memória afetiva lá no Lembraria. Conte sua história nesta pesquisa.

Obrigada, beijo, tudo de bom e até logo menos,

Vivi

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