O camembert que virou relógio

Ciranda da bailiarina na cozinha: saiba que quase todo mundo chora cortando cebola (foto do banco de imagens Pexel)

Ciranda da bailarina na cozinha: quase todo mundo chora cortando cebola (foto do banco de imagens Pexel)

Tenho um livro que considero demais e vive ao meu alcance. Grande, forte. bonito. Já falei dele. Da Companhia das Letras, organizado por Shaun Usher, leva o título de Cartas Extraordinárias e reúne correspondências entre “pessoas notáveis” na história do mundo. A primeira é de 1960. Foi escrita à mão pela rainha da Inglaterra, Elizabeth II, ao então presidente norte-americano Dwight Eisenhower. Sabe o que tinha na carta? Uma receita de scone, pãozinho que não costuma faltar no tradicional chá das cinco. Eles (a rainha e o presidente) haviam se encontrado um tempo antes e de repente ela se lembrou do gosto dele por scones. Feito comadre querida que conversa no portão antes de gritar para o filho entrar logo que vai pegar friagem, mandou a receita. Fica com essa receitinha e depois me diz se deu certo, vou lá dentro ver se o menino Charles escovou os dentes antes de dormir (ahã…).

Eu adoro a vida normal em sua anormalidade, pensar que gente “extraordinária” em seu métier e na história também tem/teve rotina doméstica, chora cortando cebola, bate um bolo, lambe os dedos, guarda um segredinho para não desandar o “genteli” (é como minha filha chama o chantilly e eu acho lindo, me perdoe). Essas pessoas cozinham. São gente como a gente (ou mais ou menos isso, né?). Não foi à toa, anyway, que eu fiquei mexida quando vi uma notinha em um jornal sobre um outro livro, esse chamado Let’s Bake Art *, da jornalista italiana Mariapia Bruno. Precisava saber mais. Pedi para conversar, conhecer a história. Ela generosamente mandou o livro para eu ver e nos falamos em seguida. Hoje contei sobre esse projeto no Questão de Gosto, da rádio CBN.

Parêntesis: quase todo mundo que costuma acompanhar cinema, publicações e o diz que diz do mundo da comida conhece a história de Julie Powell, a norte-americana que no início dos anos 2000 estava frustrada em sua baia de trabalho de escritório e criou um diário em blog, um projeto, em que durante 365 dias executaria em sua cozinha uma série de receitas de Julia Child. Julia Child, por sua vez, foi/é uma famosa culinarista norte-americana, uma cozinheira incrível que escreveu livros e fez muito, muito sucesso na televisão no século 20. Bon appettit, ela dizia quando estava tudo pronto… A história da Julie virou livro que virou filme de Norah Ephron, com Amy Adams e Meryl Streep (Julie e Julia). Julie escreveria outras memórias. Em Destrinchando, relata meio que sem pudores a vida depois de ficar “conhecida”. Teve um amante, virou açougueira, e por aí foi.

Mariapia se meteu em um desafio parecido: também reproduziu receitas de outros na cozinha de sua casa. Escolheu os pratos preferidos, adaptados, reinventados ao modo de grandes artistas, como Pablo Picasso e Salvador Dalí, Claude Monet e Cézanne, Van Gogh, Frida Kahlo, Geogia O’Keeffe. São 42 nomes e 79 receitas. O namorado ajudou.

a persistência da memória (salvador dalí)

O tempo que escapa: Salvador Dalí inspirou-se no camembert derretido para pintar os relógios

A ideia é bárbara. Depois de navegar pelo site e pelo livro fiquei até com uma leve sensação de que ela sabe mais do que colocou “no papel”. Restou na ponta dos dedos um gostinho de quero mais bastidores culinários, ou uma certa espontaneidade que talvez tenha ficado mais evidente, em minha opinião, em algumas das entradas do blog. Não sei. Um bom jeito de explorar o livro é usar junto o site… De qualquer maneira, Mariapia investiu à beça (esforço, tempo, braços) no assunto. Fez do jeito que queria, selecionou as receitas que mais lhe apeteceram e os personagens e a histórias também. O resultado de modo geral é positivo. Exige do leitor que não domina italiano e não esteja tão afiado em inglês algum esforço de tradução e interpretação de medidas e preparos. Sem trauma.

Das pitadas interessantes, algumas podem já ser do seu conhecimento, como a história de que Dali fez a obra prima A Persistência da Memória a partir da visão de uma fatia de camembert derretido (os relógios, o tempo que nos escapa…) – um trabalho executado em poucas horas em um dia quente de agosto no verão de 1931 e inspirado nos vestígios de uma refeição que passou.

Nas descrições dos ingredientes das receitas de Frida Kahlo, a autora achou a pista de que a pintora sabia preparar comida para muitas pessoas de uma vez. Entre panquecas de milho apimentadas e outros acepipes típicos da cozinha do México, surge no menu de Frida uma sobremesa que é zabaione com gelatina (zabaione é o italiano creme de ovos batidos com açúcar e vinho doce Marsala). Tudo em grandes quantidades. Para vinte apetites.

E por aí vamos, descobrindo que Georgia O’Keeffe gostava de espinafre, encontrando o croissant de Roy Lichtenstein para seu filho Mitchell e aprendendo a fazer as tortilhas do Pablo Picasso (fritada de ovos, batata e cebola, uma espécie de omelete espanhola). Também desse último, há uma sobremesa chamada charlote de chocolate. Ao rum, uma massa de chocolate amargo, ovos, manteiga e creme de leite batido é colocada sobre uma base de biscoitos savoiardi (biscoito savoiardi é mais ou menos como o que conhecemos aqui com o nome de biscoito champanhe; ladyfingers em inglês, pelo que pude apurar, mas jamais entender que lady teria um finger daquela largura…). Picasso tinha aquele temperamento tempestuoso e apaixonado. Você deve lembrar que existe até um filme com esse nome, Os Amores de Picasso, de James Ivory, com Anthony Hopkins. Gosto. Assisto sempre que estou zapeando e ele surge na tevê. Mas dessa eu não sabia: o Guinness Book situa Picasso como o mais prolífico dos artistas. Ele tinha pavor de pobreza e trabalhava loucamente para não ficar sem dinheiro (…).

Monet, Van Gogh, O’Keeffe – Let’s Bake Art teve início há uns dois anos, quando Mariapia encontrou em uma livraria um caderno de culinária de Claude Monet – ele tinha por hábito organizar as receitas da família.  A partir dessa peça, o projeto começou a tomar forma e a ser construído por meio de levantamentos de histórias, execuções de receitas e da captação de imagens em vídeo e foto para o site e um canal no Youtube. Ela olhou para a vida doméstica, os gostos e as biografias. Conversou com biógrafos, parentes, assessores e pintores e designers.

O livro, vale reforçar, foi totalmente produzido, editado e bancado pelo bolso e pelo desejo de sua autora, que pesquisou, cozinhou – mais de uma vez e até “acertar” –, fotografou, escreveu, editou, imprimiu, primeiro em italiano e agora também em inglês, para Kindle. Não tem editora.

Mariapia gostaria que o livro inspirasse as pessoas a cozinhar e motivasse estudantes de história da arte a ampliar suas explorações. Queria também que os pais mostrassem aos filhos pequenos que, muito além dos girassóis, havia um Van Gogh que apreciava ensopado de tamboril (peixe-sapo), mexilhões e vegetais.

Especializada em reportagens de cultura e artes plásticas, a cozinheira-jornalista adora culinária e aprendeu por prazer e na rotina da casa, desde cedo, junto à mãe. É de família. A diferença é que uma prefere preparos mais rápidos e a outra não hesita em se demorar na confecção de um trabalhoso croissant…

É isso. Aproveite o fim da semana para fazer como a Mariapia Bruno, o Shaun Usher e a Julie Powell. Tropece em uma epifania ou desengavete aquele seu plano de dominar o mundo. Algo assim.

* Para saber mais: Let’s Bake Art é o livro da jornalista italiana Mariapia Bruno, uma seleção de 79 receitas de 42 artistas plásticos (conteúdo avulso em texto, vídeo e no site. Clique aqui. A íntegra está disponível em e-book para Kindle). Em tempo: nenhum brasileiro na lista, infelizmente. Quem sabe uma nova edição com ainda mais notas de canapé… A ver :)

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