Palavra de café (da manhã)

Língua, gosto, palavra (foto do Pexel)

Língua, gosto, palavra

Peguei um hábito. Assim, como se pega um amor, um vírus, uma bronca e um afeto (às vezes todos juntos e da mesma fonte conflitante, não é mesmo?). Pois eu fiz isso. Eu botei as mãos sobre o teclado, escrevi e peguei. É o seguinte: de uns tempos para cá, quase todos os dias eu entro no Forvo para ouvir pronúncias em tudo quanto é idioma. Poderia dizer que no princípio era o trabalho – um frila de locução aqui, uma checagem para a coluna na CBN toda sexta, uma provocação de “não é assim que se diz tal coisa”. Na realidade, porém, nem sempre eu preciso saber que açafrão, em russo, se escreve assim: шафран e se fala mais ou menos assim: chafran (perdoem a russa que vive tão deslocada e perdida dentro de mim, feito Vicenzo na casa de Mia Wallace em Pulp Fiction, coisa que escrevo só para me exibir um pouco, porque eu acabei de rever e ainda lembro o nome dos personagens; nome de personagem desaparece da minha mente de um jeito instantâneo. Sorte).

Enfim, para eu recorrer ao Forvo basta um esbarrão distrativo do tipo gosto, língua e palavra e fico logo entretida na ludoterapia solitária, ainda que repleta de vozes de homens e mulheres, esses voluntários que em algum momento decidem soprar um modo de dizer em seu sotaque. É fascinante, na minha opinião de convertida.

Hoje passei um tempão por lá. Adoro que em romeno e turco uma palavra seja, praticamente…, palavra. Mot, em francês, certo? Essa por sinal em sueco quer dizer “contra”…

Fui parar ali, porque estava imaginando o que é de costume comer no pequeno almoço português, a propósito das minhas pesquisas sobre o que se come pela manhã no mundo. Eu me lembrei de um primo pasto della giornata particolare. Quero dizer, de uma primeira colazione italiana, há muitos anos quando eu, ainda sob o efeito do trem sacolejante, da ondulação mais ou menos discreta do vaporetto e mal e mal recuperada do espanto que pode acometer quem vê a cidade e seus canais pela primeira vez na vida, amanheci hospedada com uma amiga em um convento veneziano (meu primeiro hotel na Itália, aos vinte e poucos, foi um convento veneziano). Lição de vida: convento não é hotel. A cama, porém, era ótima.

Foi num tempo em que se chegava à estação de trem sem celular na mão. Fuçamos em um catálogo de informação encardido, largado ali no posto abandonado para turistas, achamos o número, rezamos – digo, telefonamos – e pedimos duas camas. Deu certo.

O chuveiro do casarão já tinha sido bastante difícil de decifrar, como se sugerisse que eu me lavasse de joelhos (ah, a imaginação de uma descrente que mal sabe o que é viver sem pecado, culpa, dívida e dúvida…). Mas no fim consegui tomar banhos “normais”. Agora, voltando à prima colazione oferecida pelas freiras, as irmãs de uma ordem misteriosa (esqueci)… Ela era em quase tudo distante daquilo que a minha barriga, profundamente vazia, oca, fazendo eco, desejava. Foi basicamente um buongiorno seguido de café com leite e torrada de pão duro. Manteiga. Depois até me acostumei com a santa avareza. No segundo dia descobri um chocolate quente gostoso. Só precisei me confessar para ganhar um vale (essa parte é mentira).

letras

Mistura de letras no trivial variado

Eu sempre acordo com fome de café coado, puro, e pão com manteiga. Todos os dias, a não ser que esteja doente e de ressaca moral (ou física). Se penso na possibilidade de um desjejum à base de pão e vinho? Sim, concordo, claro. Um cálice logo cedo seria ótimo, mas dizem que é impróprio, inadequado, ongepast (em holandês). Para o desjejum tardio, de feriado e fim de semana verdadeiros ou inventados, tudo bem. Desjejum tardio quer ser almuerzo e combina com ovo quente, suco de laranja, espumante, água com gás, bacon e o que mais você quiser. Uma pastilha de antiácido, talvez? Ou basta prevenir fazendo uma edição levemente refinada. Defumada.

Incluiria alguns embutidos sem nenhum pavor. Carnes. Aliás, de uma breve temporada a trabalho no Recife, o que mais gosto de lembrar fora o vento encanado que lambe a gente na calçada, à noite, em frente ao bar Central, é do pastel de carne polvilhado de açúcar e, principalmente, do prato farto de cuscuz cremoso acompanhado de linguiça acebolada, este no café da manhã. Eu me dava isso todos os dias. Faço em casa o cuscuz com um toque de leite de coco. Nota mental: nunca mais “esquecer” das linguiças bem chapeadas.

Pão? Eu adoro pão. Caseiro da minha mãe, feito à mão ou na máquina. Francês, de queijo, croissant, baguete, tostex, tapioca, na chapa. Torradas. Italiano, de campanha, escuro com uva passa (sim, se você odeia uva passa, pode me dar as suas). E aquele croissant de chocolate? Ai.

Frutas: pratos de fruta com aveia sempre surgem à minha frente mesmo sem eu pedir. Eles se preparam sozinhos, fazer o que? Comer. É um cuidado, suponho. Banana, mamão, abacate eu acho que são boas frutas de café da manhã. Figo? Como logo uns dez e acabou a caixa. Jabuticaba eu não classifico assim. Não me parece ser fruta de café da manhã, mas de depois do almoço. Jabuticaba tem o poder de ressuscitar as horas mortas. Uma coisa realmente extraordinária. Sou capaz de suportar a acidez de um morango pela manhã, mas não me venham com abacaxi. Está doce feito mel? É bom. Eu sei, eu gosto. Mas não, obrigada. Abacaxi no café da manhã me irrita (é… “profundamente”). Na casa de uma família inglesa em que me hospedei por uns tempos em Hastings sempre tinha grapefruit pela manhã e comentários azedos na hora do jantar se por acaso eu não tivesse comido a minha inteira –  o mesmo tom usado para falar que era espantoso eu tomar dois banhos por dia (…). Humpf.

***

O Forvo me diz que em russo e em búlgaro, café da manhã é завтрак (zakuska?!). No francês, le petit déjeuner. Tem o húngaro reggeli, o norueguês frokost. Na Polônia, o que se houve é, algo assim: “menina, não vá para a escola sem o śniadanie!” Morgenmad é dinamarquês. Desayuno em espanhol. Chinês: 早餐. Japonês: 朝食. Holandês: ontbijt. Acho que é isso. Se errei, me perdoa.

Demorei tanto para terminar essa minha divagação que já se foi até o almoço. Patinho moído e refogado, arroz, abobrinha na manteiga com bastante pimenta triturada na hora. Fatiei banana prata (que fruta, a banana, nem precisa fritar para ser incrível junto de um arroz branquinho e brilhante banhado no azeite cru, perfumado. Banana só melhora a vida do trivial variado). Ah, fui procurar trivial variado no Forvo. Não tem.

***

Por um instante, agora, imagino as vozes em seus idiomas percorrendo a casa, entrando e saindo dos cômodos, um balé que cruza a rua, atravessa e contorna outros prédios, carregadas por esse vento ensurdecedor de frente fria que não chega nunca. O vento não pára de uivar tão alto que eu mal consigo ouvir meus pensamentos (desculpe, aliás, a minha dificuldade em parar. Tenho um problema ao tentar parar de acentuar pára).

Estou ouvindo o uivo há tantas horas… Temo pelo que vai acontecer quando de fato cessar. Mas, enfim, como eu poderia perguntar ao Forvo uma coisa dessas, sobre vento de frente fria em inverno estranho uivando pela casa? Tentei, admito, só não deu muito certo. Vejo aqui que em lituano aparece ventos regioninis parkas quando a gente busca morro dos ventos uivantes. Um parque regional de vento?! Chega.

Vou voltar agora ao trabalho das colações matinais. Palavra de café muito quente.

 

2 pensamentos sobre “Palavra de café (da manhã)

  1. Pingback: Café da manhã (Jacques Prévert) – Lembraria

  2. Pingback: Café da manhã: o começo dos dias na Croácia – Lembraria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s