Como não escrever um livro

Eu digo que sou a autora do livro que ainda não escrevi, para fazer poesia ou piada sem graça da minha insegurança. Ou da preguiça. Talvez eu esteja zombando de ambas e de mim, juntas e alternadas, ao dizer que eu o escrevo todos os dias (“só falta organizar”) e, ao mesmo tempo, não fazê-lo jamais. Culpo-as, junto com o tombar cada vez mais rápido das horas, o aquecimento global, o resfriamento das pontas dos meus dedos, a contagem interminável das bolhas da água com gás e a má qualidade dos sacos de lixo, de me separar do que há quase dois anos já tem até nome: Do que eu falo quando eu falo de comida.

Naquele tempo, pensei que se desse logo a ele o nome, mesmo que fosse assim, roubado do título que já existe (troque comida por corrida, comida é a minha corrida), a coisa ganharia um contorno e até quem sabe uma certa fluidez. Uma rotina. Umas horas largas respeitadas, por incrível que possa parecer, pela minha vida flutuante. Os trabalhos avulsos, os apaixonantes, as atividades outras, as tarefas. Tem nome o livro, eu disse. Contudo ainda lhe falta existir.

O cotidiano de quem “escolhe” conviver com a frustração é repleto de sinais a lembrar das consequências do não-gesto. São os clichês motivacionais que atravessam as linhas (as tortas, a do tempo e a da vida, na palma da mão). São as entrelinhas preenchidas por comandos (senta e escreve) e sussurrantes desconfianças (há algo a dizer? Alguém vai ler? Esquece).

Existem ainda (todavia, entretanto e frequentemente) os choques de realidade. Brutais e potentes em seus efeitos de significados muitas vezes dúbios. São as realizações dos outros todos e em qualquer lugar do mundo e que ao mesmo tempo em que nos enchem de desejos e motivos, também nos lembram de que estamos com os braços amarrados pelas desculpas. E pelo medo. Nos falta competência para encontrar coragem. É. Preguiça. Também acho.

Livros são escritos, afinal. Bares são abertos. Histórias são contadas. Pessoas aprendem a tocar piano depois de velhas, e a dançar a qualquer tempo. Fazem filho, pão, pizza e sonho (de comer). Se jogam de uma pedra na água gelada. Bordam, trançam tapete voador (e voam neles, sabia?) e juntam pecinhas de fuxico (de pano, o outro eu sei). E o seu livro… ah, o seu livro é um não. Um não-livro.

Acabo de recorrer a este que é, em sua totalidade, um enorme nariz de cera – jargão que se refere basicamente à enrolação. Preliminar que, fora de contexto, é superestimada. É tão enorme, esse nariz, que ele não acaba, feito um tudo constante, uma queda no pôster de “Um corpo que cai”: vai girando em si pra sempre, ocupando o sem fim. Na verdade, acho que eu esqueci do que eu ia falar. Ou talvez eu não devesse, simplesmente, escrever. Quero dizer, antes que você concorde publicamente comigo, ao menos não escrever nesse estado em que me encontro agora, com muita, muita, muita fome.

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