Questão de gosto: sal

Imagine uma porção de camarões salteados na frigideira em azeite e alho, finalizados com ervas frescas. Talvez eles, os camarões, tenham sido flambados em um bom vinho branco. No ponto certo, estalam na boca e fazem a felicidade de quem come, contando uma história que vai do alho dourado sem excesso ao sumo que se desprende, pelo calor, da carne dos crustáceos. Eles não ficaram no fogo por mais de dois ou três minutos.

Dificilmente, dificilmente mesmo, camarões nessas condições vão instigar um debate à mesa sobre a quantidade de sal que você colocou ali, temperando na intuição. Ninguém lembra do sal quando a gente acerta. Aliás, as pessoas falam menos e agem mais. Elas mordem, sentem o gosto e quase que com toda a certeza desejam por fim um pedaço de pão para passar no prato e absorver o suco em que se misturam, perfeitamente, os temperos e o sabor essencial, que escapa do camarão.

E o que eu aprendi cozinhando com alguma regularidade nos últimos cinco anos é que o sal, mesmo ausente, nos ensina a conhecer o verdadeiro gosto das coisas.

Falei sobre isso no Questão de Gosto de hoje. Ouça o comentário, faça (e coma) os camarões, leia o livro e lembre-se de uma recomendação popular destacada do livro de locuções do sociólogo Luis da Câmara Cascudo: “Não encontra defeito no namorado ou na namorada? Coma sal com ele ou com ela. O conhecimento será o resultado da convivência. Viver juntos, refeição em companhia, provando o mesmo sal, é a melhor escola para a revelação dos temperamentos. A intimidade consagra ou decepciona. Não há meio termo.”

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