Conversa de elevador


Muito me intriga – para não dizer que irrita e tenho vontade de voar no pescoço, mas isso não é bonito de escrever ou falar publicamente, então eu não o direi. Muito me intriga, como ia escrevendo, o costume que algumas pessoas têm de se alimentar dentro do elevador. Saem de suas casas com comida na mão e vão para o mundo mastigando desde o ascensor. Escovaram os dentes? Vão escovar no destino? No carro? Danem-se os dentes? Por que não acordaram mais cedo?

Trabalhei por muitos anos numa editora em que era comum, em especial depois do almoço, encontrar colegas, no elevador, devorando chocolates. O barulho do papel sendo desembrulhado me dá arrepios até hoje – uma lástima, porque barulho de abrir bombom é ótimo em outras circunstâncias. Para piorar, só faltava ser daquela categoria especial que não se dá ao trabalho de desarmar a mochila antes de entrar, e entra de ré, praticamente um caminhão baú nas costas a oprimir quem estivesse atrás. Tudo isso mastigando um bis como se fosse o último quando sabemos que NUNCA o é. O excesso de urgência e a falta de noção – não suporto esperar para comer esse doce em um lugar menos claustrofóbico – demonstram uma certa indiferença com o mundo. É a suposta liberdade de ser (me falta agora um adjetivo para completar a sentença, use o que você achar mais adequado).

Uma amiga me conta que há uma passageira frequente do metrô, alguém que pega o trem com ela no mesmo horário, que sempre come uma espécie de miojo, logo cedo. Abre a bolsa, tira um pote, o vapor sobe e a névoa se espalha pelo vagão. Termina, tampa, pega outro. Comendo lámen em uma espécie de elevador que se move na horizontal. Hum. Nada contra o cardápio, mas talvez ela também pudesse ter acordado mais cedo. Me julguem, estou julgando.

Em um prédio em que morei, um garoto de seus quinze anos fazia isso (comer no elevador) no fim da tarde. No apagar das luzes  desligar das máquinas em meu escritório doméstico, eu corria para um compromisso lá fora quando ainda faltavam uns dez minutos para as seis, mas a cada três dias, de dois, eu lembrava que tinha esquecido a chave do carro ou sentia um frio estranho subindo pelo corpo e percebia, tarde demais, que estava só de meias, ainda que vestida (é que em casa, no sentido literal, ou exclusivamente nele, posso dizer que tenho esse hábito de manter os pés no chão). Ao voltar, eu já sabia que ia encontrá-lo e até tentava adivinhar o que ele iria trazer. Viajávamos juntos por vários andares.

Em geral a criatura estava acompanhada do pai. Os dois com ares de muito atraso discutiam as desculpas que iam dar naquele dia para o professor de matemática. Eu, invisível para eles e totalmente consciente de mim naquele desconforto, acabava sempre no meio da confusão e nunca em um canto isolado.

Atarefados, faladeiros, olhos grudados cada qual em um telefone – cheguei a imaginar que se escreviam pelo aplicativo de conversas que vocês adoram, de modo que os assuntos me atravessassem. Mas não era só isso. Eles falavam em voz alta. O homem mais jovem, de boca cheia, porque afinal não há tempo para se ser educado. E aqui estou eu falando de tempo outra vez. Pois bem, com uma das mãos ele segurava a comida. Na outra era o celular engordurado (só os aparelhos deles pareciam funcionar naquele bunker).

Lembro da primeira vez. O rapaz trazia um pacote de palitos salgados de trigo, aqueles assados e salpicados de sal grosso. Ainda existem, não sabia. Os livros debaixo do braço esquerdo. Vestia um agasalho azul-marinho já exausto de se debater à máquina de lavar. As migalhas caíam sobre o colo coberto por uma camiseta branca e depois eram sopradas ao chão que Francisco, o prestativo e metódico zelador, varria todos os dias.

Quando comeu um pudim de pão, ao menos não fez tanto barulho e os pedacinhos que lhe escapavam da boca, ao explicar para o pai que, calma, antes de sair tinha lembrado de telefonar e avisar que “estavam a caminho”, recebiam outro destino que não era a roupa ou o piso, e sim o tupperware esvaziado no percurso. Teve pão de queijo, sanduíche de ricota, bolinho de arroz. Nunca um frango assado ou uma marmita de macarronada.

Se a pessoa sai de casa assim, como é que volta? Ah, bobagem. É apenas uma gente que vive em andar alto demais para os próprios compromissos, você me diz. Talvez. Me abisma a capacidade de se sentir tão à vontade para comer no meio de estranhos dentro de uma diminuta caixa fechada em que supostamente cabem oito pessoas, de ânimos apertados. Todas loucas para fazer exatamente a mesma coisa: sair dali o mais rapidamente possível.

Me abisma ainda mais o desprezo por si mesmo. Jogar o prazer  ainda que mínimo, para o fosso.

Noto que nem a mais fingida educação jamais o fez oferecer um pedacinho. Eu diria, não, obrigada, porque tenho claro em mim alguns princípios. Eu gosto de comer. E gosto da cerimônia particular contida nesse gesto. Se não há condições de executar um ritual mínimo, prefiro segurar a fome até uma próxima oportunidade.

***

Nos tempos em que cheguei a passar um mínimo de onze horas em uma redação, fechamento puxado, eu comi sanduíche ordinário de cara para o computador. É aborrecido e pouco digno.

O fato é que em condições normais e anormais eu não consigo (ou tenho uma dificuldade enorme de) sair de casa sem tomar meu café da manhã. Deixar a mesa pronta até a chaleira apitar. Coar o pó enquanto aqueço o pão. Arrumar uma cestinha de pães variados mesmo que seja só para mim. Eu preciso de rituais como esses para acreditar que ainda controlo alguma coisa – o tempo, claro, eu duvido. O prazer de comer, talvez.

Se me atraso, prefiro partir de barriga vazia do que mastigar pelo caminho. A cabeça vai doer, mas melhora depois de um comprimido e/ou um cochilo e então quando sinto que não corro mais perigo de vida eu abro uma garrafa de vinho, sento no chão, leio um pouco do meu livro.

Elevador, equipamento em função do estresse social, só serve para me conduzir para dentro ou para fora para cima ou para baixo. E, não posso ser injusta, dividir a atenção do público com a maravilhosa Jeanne Moreau em Ascensor para o Cadafalso (1958), suspense de Louis Malle, com trilha sonora de Miles Davis. No mais, é tráfego de tensão desde os primeiros anos de vida e até à jornada no escritório de Mad Men ou no lugar em que você trabalha. Não é lugar de comer.

Come-se no chão, à mesa, no sofá, na poltrona, aonde a gente quiser, mas com um pingo de respeito pelos nervos e pela intimidade (seus e do outro, porque sim, somos capazes de violar e violentar nossa própria intimidade e isso vai muito além da voluntária foto no espelho). Come-se de preferência sem mastigar e respirar perto demais de quem a gente mal conhece.

Melhor, muito melhor, a fazer dentro de uma dessas cápsulas é não dizer absolutamente nada. Viajar sem despencar no lugar comum de um comentário a respeito da insanidade climática. Comer, de qualquer maneira, não.

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