Preste atenção no que eu não disse

Questões de gênero mal resolvidas, ideias pré-concebidas e repetidas à exaustão. Para quem tem dificuldade de ouvir e refletir, sem logo tacar uma pedra verbal, a “implicância” contida no tema pode soar aborrecida. No entanto, pequenas afirmações que vamos entreouvindo e às vezes reproduzindo na travessia cotidiana (rosa é de menina; salada é para a mulher; se a mulher estiver menstruada o bolo não cresce; voracidade não combina com a mulher à mesa, se comporta!) podem até roubar um pouco do apetite. É verdade que essa ausência não vai perdurar, porque somos, os homens e as mulheres vorazes em seus sentidos, pessoas que gostam de comida e do que nos faz sempre mais humanos. E não vamos nos deixar encaixar no padrão apertado. Espero. Chutemos para lá, portanto, justamente esses tais padrões que limitam a nossa experiência e a movimentação na cozinha e nas escolhas. São irritantes.

No capítulo de ontem do Questão de Gosto, na rádio CBN, eu levei essa reflexão para o estúdio. Me chamaram para uma dessas participações que se transmite ao vivo pelo Facebook – não tenho o menor problema com as entradas ao vivo por telefone. Amo fazer, como o Jiro (abaixo) ama fazer sushi. Mas, sabe como é, a exposição é o gatilho da nossa timidez. Na próxima me expressarei melhor, prometo. De todo modo, escrevi sobre o tema para concatenar melhor as ideias.

Mas, afinal, o que é que eu NÃO estou dizendo?

Sushi do "primeiro movimento" no restaurante de Jiro: para as mulheres, uma peça menor

Sushi do “primeiro movimento” no restaurante de Jiro: para as mulheres, uma peça menor

O Sushi dos Sonhos de Jiro documentário obra-prima dos filmes de comida, dirigido por David Gelb (o mesmo da série Chef’s Table), conta a história do sushiman japonês Jiro Ono e mostra no detalhe os bastidores de seu restaurante. Jiro tem mais de 90 anos e é considerado o melhor e mais velho shushiman em atividade no mundo. Seu restaurante em Tóquio tem apenas dez lugares e o preço por pessoa de uma refeição sai por mais ou menos 1 000 reais. É um percurso unicamente composto de sushis. Barack Obama esteve lá e gostou. O principal crítico gastronômico do Japão diz que é a melhor refeição que ele já fez na vida, ainda que se sinta um tanto apreensivo a cada vez que consegue ir.

O cliente senta no balcão depois de uma espera de um mês (reserva obrigatória) e o sushiman vai colocando diante dele, um a um, os sushis preparados na hora. Bolinho, uma quantidade exata de wasabi, uma fatia de pescado, uma pincelada de molho de soja.

Jiro trabalha sem parar há 70 anos. Disciplinado e obstinado. Para ele uma refeição tem de ser cada vez melhor do que a anterior, todos os dias. Ele não tira férias e não fica feliz na véspera do fim de semana. Prefere trabalhar. “Não cheguei perto da perfeição, mas me sinto extasiado todos os dias. Amo fazer sushi.”

No restaurante de Jiro só trabalham homens e a eles ele impõe a mesma disciplina e rigor que impõe a si mesmo todos os dias (colocar a vida no que faz).

Jiro diz que as peças de sushi são menores para as mulheres. “Eu faço sushis de tamanhos diferentes para homens e mulheres para que as pessoas terminem de comer ao mesmo tempo.” Achei que fosse brincadeira (assista e me diga se foi piada, por favor, eu quero mesmo saber). Recortei essa fala do momento em que se diz que Jiro sabe exatamente do tempo e das reações dos clientes em uma função, por anos de observação. E assim dá o ritmo do “concerto”. Observei as mulheres em cena, sorrindo, e já esperando a próxima etapa enquanto os homens ainda mastigavam ou erguiam seus hashis em direção à boca. Fiquei pensando se eu sairia com fome de um desses jantares. E se um homem de apetite mais tranquilo do que eu ficaria desconfortável na linha de alimentação. Quando eu for rica e viajar para o Japão, quem sabe eu saberei.

Na época do lançamento do filme, o Wall Street Journal perguntou ao filho mais velho de Jiro, a pessoa que deve assumir seu lugar quando ele parar de trabalhar (para quem assistiu, não é o mais legal, aquele que destemido saiu para abrir o próprio restaurante. É o outro): por que não há mulheres na cozinha do filme, por que não trabalham mulheres no restaurante de seu pai? Ele respondeu que “para ser profissional” é preciso ter um paladar estável. “O  ciclo menstrual da mulher torna o paladar dela instável. Por isso elas não podem fazer sushi.” (já ouvi outras teorias a respeito: alguns atribuem a perturbação do olfato e do paladar a coisas como perfume, maquiagem e temperatura do corpo, que pode estragar o peixe cru.)

Eu comecei a pensar nisso e a ler sobre no mundo contemporâneo e na história da alimentação quando uma amiga me disse que cansou de sentir o peso do olhar que julga ao pedir uma dose de cachaça na mesa do bar. Ao me mostrar em textos de estudiosos da história e da sociologia como a herança do pecado original ainda prevalece, me ajudou a enxergar com algum realce esses sinais no dia a dia. A gente às vezes não repara, releva, vai falar de outra coisa. Mas lá estão. Chatos.

Quando alguém diz que há menos mulheres do que homens na cozinha profissional, outro vem com a “certeza” de que é porque é um trabalho mais pesado para elas. Claro. Tanques e tanques de roupas lavadas, montes de camas feitas, duplas jornadas e pães assados e vida para cuidar estão aí para provar que a nossa estrutura delicada não suportaria. Mas a verdade é que (ainda) há premiações que separam em categoria chef homem e chef mulher e (ainda) flagramos situações que parecem nada, mas são o que são, um retrato do momento: em seu livro Cozinha a Nu (ótimo!), o admirado chef catalão Santi Santamaria, conhecido que foi/é pela defensa da culinária tradicional, dos alimentos limpos de agrotóxico e usados a seu tempo certo, da transformação mais natural e tranquila possível dentro das panelas, da sintonia com o slow food etc. etc. etc., reserva um capítulo para percorrer os cozinheiros que o inspiraram ao longo da vida. Não há nenhuma mulher nas referências e a presença delas no índice onomástico também é pequena.

Por outro lado, as mulheres são tidas como as feiticeiras dos bastidores no dia a dia. As donas da felicidade do lar (e da economia doméstica, o que dá certo e o que dá errado… bem…). Outras questões: elas saíram para trabalhar. Pronto, a cozinha foi abandonada. Estamos comendo pior, porque na disputa desconfortável e reativa para ver quem NÃO vai cozinhar a indústria tomou o lugar e foi logo dizendo “calma gente, eu faço para vocês”. Ok. A culpa é delas, a culpa é da Eva que comeu a maçã no pecado original, a culpa é das feministas que empurraram mulheres para fora da cozinha. (é justamente o que os historiadores acabam descobrindo, uma herança de padrões e culpas e discursos de instabilidade, tentação, fraqueza atribuídos a elas e, a eles, de racionalidade, merecimento, compensação e restauração de músculos fortes. Põe mais comida nesse prato, menino, para aguentar o tranco.)

A boa cozinheira “agarra o marido” pelo estômago? Bruxa, né?

Babette enfeitiçou os convidados do banquete francês que ofereceu a suas patroas em A Festa de Babette, porque a comida era extraordinariamente boa. Mas não foi poção mágica.

Jiro Ono enche de alegria seus clientes por razões bastante parecidas. São pessoas, antes de ser mulher e homem. Tanto faz, na verdade, se mulher ou homem.

Mas os homens fazem o churrasco! Sei, isso quer dizer “folga para elas”? Ou cozinham em ocasiões especiais (ah, tá, como na Grécia Antiga a elas e aos escravos era delegada a cozinha do dia a dia e, a eles, os rituais em “situações especiais”…). Dá um pouco de sono, mas ainda é verdade (infelizmente).

O tempo passado na cozinha pode ser revelador para a mulher E PARA O HOMEM! Olha que legal: um espaço criativo (funciona, basta gostar, querer, poder) em que “[a mulher] pode encontrar uma satisfação particular no êxito do bolo, da massa folheada, porque esse êxito não é para todos: é preciso ter o dom”, escreveu Simone de Beauvoir , em o segundo sexo. O homem também.

Na vida à mesa, as mulheres “comem feito passarinho” (o sushi menor, as porções menores…) e, na dúvida, muitas vezes o garçom nem pergunta quem pediu o que, e já deposita na frente dela a salada e na frente dele o sanduíche de linguiça. A salada é delas. O torresmo é deles. Logo os dois trocam pratos no ar entre sorrisos de é sempre assim. Ah, sim, claro porque são elas que fazem regime de privação para se encaixar em determinado padrão de boniteza.

Há mulheres que comem torresmo e adoram. E, muitas vezes, como qualquer outro ser humano que gosta de torresmo e de cachaça, pedem uma dose para acompanhar. Mas, espere, cachaça? Não é coisa de mulher. Uma porção de torresmo? Não pode ser. A voracidade não combina com o feminino? As porções para mulheres são menores, “porque as pesquisas de marketing dizem que elas comem menos e é de sua natureza suportar o jejum das dietas, os homens comem mais carnes, as mulheres comem mais frutas”. Sério?

Minha opinião para a gente caminhar e comer o sal junto, mais leve: quem tem vontade de comer come; quem tem vontade de cozinhar cozinha. Cozinhar junto é uma coisa muito boa, dividir tarefas faz a roda girar e não sobrecarrega o outro. Lave a louça, querido, porque eu fiz as unhas. Obrigada.

Claro que uma refeição que dá certo é lindamente gratificante. E não importa o sexo de quem a preparou. Cozinhar não é atividade inferior, por que seria se, a não ser para quem come por obrigação, comer é ótimo? É luxo emocional, restaurador, reconfortante.

Eu gosto do que disse o israelense Yuval Noah Harari, professor de história e autor do livro Sapiens, uma breve história da humanidade: “A maior parte das leis, normas, direitos e obrigações que definem masculinidade e feminilidade refletem mais a imaginação humana do que a realidade biológica.”

Não fomos feitas, nós mulheres, para fazer a felicidade de ninguém na ponta do garfo. Podemos fazer. Os homens também. Vida que segue.

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