A lista que eu não fiz

No meio do último Corpus Christi o tema do Questão de Gosto foi a relação do cinema com a comida e em meu entusiasmo divaguei por quase vinte minutos. Cheguei a escrever rapidamente sobre aquele programa. Era para preservar em algum lugar as referências dos filmes de ficção que foram lembrados. Só que ficaram coisas pelo caminho, como se eu tivesse deixado o guarda-chuva pendurado na ponte de feriado e, agora, chovesse nas ideias. Voltei para buscar (o guarda-chuva) e reparar alguma injustiça. Sei da minha incompetência para confeccionar listas – não cravaria essa desabilidade no currículo. Portanto aqui estou para não fazer uma lista. Outra vez.

Quase tudo no cinema mexe com a fome. Na sala de exibição, por exemplo, flertamos com a vitrine da lojinha: esperamos que esteja forrada de confeitos coloridos e, o melhor de tudo, bolinhas de chocolate recheadas de “conhaque”. Eu até classifico internamente esses lugares em dois tipos: os que têm e os que não têm (bolinhas).

Às vezes, entro com pipoca. O doce eu vou desembrulhar depois. Boa parte do público não perdoa o gesto, seja pelo amanteigado do aroma, seja pelos barulhos do papel e da mastigação. As contradições são basicamente essas duas: não tolero sussurros e não sou impecável – mas mastigo de boca fechada. Depois de vencer os dilemas de entrada, e tendo em média pela frente umas duas horas, é comum não conseguir controlar, já na primeira hora, os desejos em debate no inconsciente. Eles planejam baixinho o que vamos comer ao sair. São pautados pela atmosfera.

Café com croissant na calçada

Café com croissant na calçada

A garrafa de vinho sobre a mesa entre dois amantes. O pão repartido. Vindima de conto de outono. Um bistrô e um amor. Sopa de pão e cerveja. Fome na madrugada em Tóquio. Café com donut de espionagem e, por falar em lugar comum, o festim de ação de graças. Na festa judaico-psicanalítica, pratinhos na mão circulam pela sala. Um pingado no balcão ou o café coado na cozinha modesta e escura, bem cedinho, antes de pegar um trem do subúrbio para o Rio de Janeiro. Sanduíche frio de pepino. Chá. Hambúrguer na fome e no cansaço, o embrulho de papel aberto na calçada, cabeça encostada na grade da loja que já fechou. Macarronada. Breakfast at Tiffany’s. Teu nome escrito com tiras de bacon. Embutidos no café da manhã (insira um coração aqui). Snoopy faz um sanduíche de pasta de amendoim. O espinafre do Popeye parece ótimo.

Ok. O tema para o boletim surgiu da obsessão. Podemos pensar assim. Eu tinha acabado de assistir Toast (Inglaterra, 2010). Em casa. Era uma daquelas horas do dia em que já não conseguimos produzir e precisamos parar para uma caminhada, um banho, uma conversa, um café, uma esticada nos músculos das costas e da cabeça. Quantas ideias não nascem na chuveirada sob o risco de ir para o ralo? Anote-as no box. Enfim, no meu caso, ainda restavam duas horas até resgatar a menina na escola e, em meio às idiossincrasias de escritório doméstico, eu tinha o privilégio, digamos assim, de simplesmente silenciar a lavadora de roupas e o celular. Fechei o notebook e fiz uma caipirinha (imaginária) do limão azedo que é, nos dias de vencimento das grandes contas, não ter carteira assinada: parei tudo, montei um lanche leve (presunto cru, maionese, pão italiano e uma meia-taça) sentei no chão e apertei o play.

toast

Toast: Nigel, a madastra (Helena Bonham Carter) e a torta de limão da discórdia

Toast não entrou no programa. Foi por causa dele, contudo, que eu comecei a lembrar sem parar de outros tantos que me tocaram de um jeito bem poderoso – muitos não são propriamente filmes “gastronômicos” (não gosto de usar o gastro qualquer coisa, porque me lembra endoscopia. Às vezes somos obrigados pelas circunstâncias a fazer o que não gostamos. Lástima.). Foi daí um pulo para eu ir seguindo as linhas incertas que davam em animações japonesas e paixões italianas e francesas. Igual a tudo na vida, só que não.

Inspirado nas memórias de infância e juventude do jornalista Nigel Slater, um nome conhecido no mundo da comida na Inglaterra e que nasceu em 1958 na cidade de Wolverhampton, Toast – a história de uma criança com fome (Netflix) tem a rainha de copas Helena Bonham Carter no elenco. Aqui, entre nós: esse dado já me atrai isoladamente. Fui. Chorei. Mas, vá entender, não achei as receitas tão gostosas.

Nigel ama comer bem e cresce tombando em (e se erguendo de) buracos cavados nas ausências da vida. O armário da casa é a sucursal da gôndola de enlatados. O pai é um sujeito ríspido e obtuso. A mãe não sabe, não gosta e tem medo de cozinhar. Ela adoece e Nigel se vê abandonado diante de uma massa de torta que não sabe como trabalhar e preencher. Surge uma madastra (a rainha, de copas).

O menino vai com a mãe ao mercado. Sonha com o mundo de possibilidades contido nos produtos frescos. Para mamãe, porém, comida de verdade vem pronta e ‘limpa” de fábrica e nunca da horta ou do pomar “sujos” de terra (…). Ninguém sabe a quem puxou Nigel, que quer entender a compostagem, cheirar e apertar os legumes, tomar banho de chuva e até propõe: hoje à tarde, quem sabe, não podemos bater um bolo, mãe? Ela acha tudo um horror, difícil e sem sentido. Os desejos do menino a afligem. Falta-lhe o ar, literalmente. Haverá mesmo algo de errado com ele…? Quando nada dá certo (na opinião dela, bolonhesa é um erro de enormes proporções), o jantar é toast e chá com leite. “Impossível não amar quem prepara para você uma torrada com manteiga”, diz o garoto. Naquela mordida, ele a perdoa e a ama.

Toast tem enredo de comida e sentimento e sofrimento, como em geral ocorre com os filmes assumidamente assim, a exemplo de Simplesmente Martha e sua versão norte-americana Sem Reservas, A Festa de Babette (a tentativa de transcender da culpa e da frustração, o espírito do gosto), Julie & Julia, Chocolate, Chef, Vatel, Ratatouille, Românticos Anônimos, Lunchbox, Sabor da Vida, Tempero da Vida e os meus preferidos de sempre:, Sábado, Domingo e Segunda e O Jantar (neste, Ettore Scola narra duas horas de função em um restaurante italiano. E tem Vittorio Gassman. Veja. Hoje.).

Jude Law e Norah Jones no filme de Wong Kar Wai (o beijo roubado na torta de blueberry)

Jude Law e Norah Jones no filme de Wong Kar Wai (o beijo roubado na torta de blueberry)

E há, logicamente, muita comida bem colocada em argumentos de encruzilhada. É assim em Sideways (os vinhos nas estradas da Califórnia); My Blueberry Nights/Um beijo roubado (as tortas no café, o Jude Law, Wong Kar Wai), Amor à Flor da Pele (a sopa na garrafa térmica dos solitários, o arroz, a busca, o abandono, os figurinos mais lindos do mundo e o modo como se movem as mulheres – afinal é Wong Kar Wai); Um Bom Ano (“McDonald’s is in Avignon, fish and chips in Marseille”), Sob o Sol da Toscana (largar tudo para cozinhar e tomar sorvete na Itália).

Quando acabou Toast eu entrei nesse labirinto e rascunhei o roteiro no caderninho como pude. Filmes de comida mais ou menos óbvios? Menos. Filmes que não são de comida, mas podem mudar um hábito no café da manhã? Sim. Ida (o polonês vencedor do Oscar de melhor estrangeiro no ano passado e a chuva de açúcar no pão com manteiga).

Piquenique "impressionista": de 1946, um dia no campo e ingredientes "direto do produtor", por Jean Renoir e Guy de Maupassant :)

Piquenique “impressionista”: de 1946, um dia no campo e ingredientes “direto do produtor”, por Jean Renoir e Guy de Maupassant :)

Lembrei tardiamente de um que adoro e parece vaudeville, o Partie de Campagne (França, 1946), de Jean Renoir, baseado numa obra de Guy de Maupassant: a família burguesa deslumbrada deixa Paris por um dia em piquenique pretensamente bucólico no campo. Os campesinos lhes dão uma espécie de lição de “Ah, a vida na roça… Venha ver o que é bom para a tosse”. Em meio aos vinhos, os pescados, os mosquitos e a pescaria e as frutas “direto do produtor”, a filha do pai comerciante se apaixona por um espertinho. A mulher também. Ou não. Puxa vida. Não falei dele, mas poderia.

Os brutos comem (e entendem de) espaguete no restaurante da Tampopo (Japão, 1985). Em Ponyo (Japão, 2008), o peixe dourado descobre o lámen. Nas outras duas fábulas de Myiazaki, os pais de A Viagem de Chihiro (Japão, 2001) são abduzidos pela gula e, junto com o amigo (e espírito protetor das florestas) Totoro (Japão, 1988), as meninas descobrem o mundo dos legumes frescos e recém-colhidos, distantes apenas de uma passadinha no riacho cristalino até a próxima refeição. Parente que não é serpente: as crianças nos ajudam a olhar, se a gente não se fecha para o encanto. Animações são ótimos condutores nesse processo de ver o mundo junto.

Isso tudo é um grande nada, embora aquela fatia de pão (com manteiga e açúcar cristal) possa sem dúvida alguma mudar a sua vida. A ver.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s