Sem título

Foi um dia fleumático e de ideias difusas, quando eu o precisava agudo e expressivo. Foi um dia perdido. Pergunto, afirmo e na dúvida não me movo. Acordei bem cedo. Havia aquela sensação de sonho estranho desses que a gente sonha, gosta e, ao contrário do que propõe a canção, não baba na fronha. Apenas acorda quando não quer, entende sem querer e dorme de novo para continuar a sonhar e a não entender o que tinha medo de saber que sabia.

Depois de me desdobrar da cama para fora (o cobertor pesado é sorte; a coragem é condição) e assustar o espelho sorrindo pela metade ao puxar o rosto todo para trás e prender o cabelo com força, tomar a chuveirada fervendo e cobrir o corpo em camadas certas, escancaro muitas janelas, a fim de promover circulação.

Uso o ar frio para pegar dor de garganta e mexer as pás no moinho das ideias. Que se desfaça no embora o cheiro dos livros até então aprisionados nas caixas da mudança – na falta de novas estantes eu resolvi arrumá-los, bonitos, no chão de todos os cômodos. Ali eles vão respirar. Se esperasse um pouco mais, continuariam a sair sozinhos em rebelião de tipos variados. Que entre o perfume do café filtrado nas cozinhas empilhadas nos condomínios ao redor. Uma sobre a outra.

No calor eu faria pequenas aberturas nos extremos da casa, criaria canais invisíveis para o que chamamos de corrente de vento alívio. Ao frio, no entanto, e em especial o seco, o trânsito pela manhã é muito mais livre. É a hora boa de deixar partir suspiros e bufadas contidas. Ares neuróticos. Brilha ao sol a poeira que se depreende dos lençóis sacudidos.

Já ia bem avançada a manhãzinha, o aroma era silêncio e eu precisava pensar, ler e escrever. Um pingado duplo tentou ajudar. A rigor, tudo se moveria junto, uma única engrenagem a fim de liquidar as entrevistas gravadas. Histórias nem transcritas nem escritas, roupas por lavar, frilas outros para batalhar em uma sequência que tem de ser apertada – nunca espaçosa. Contas a pagar; saídas muitas para eu inventar. Estava nesse estado de confusão quando entrou pela janela o perfume do refogado de cebola e alho, promessa de arroz ou a base de um molho de inverno? Nada daquilo era meu e eu não tinha ido buscar. Veio e me tirou dali.

De um instante para o outro eu deixei de me aborrecer com o preço da palavra, que está pela hora da morte. Pensar, ler e escrever foram cada um para um lado e eu não conseguia me mexer e menos ainda trazê-los de volta. Lembrei do que parecia lógico e mora na filosofia de Nietzsche: o sentido favorável é o da cabeça para o papel e, para facilitar o despejo das ideias, inclinei-me sobre o teclado. Nada. Na verdade, aqueles três perseguem um ao outro. Fingem que não. Desconfiam-se querendo se agarrar. Hipoglicêmicos e zonzos, suponho, porque no meio da confusão eu esqueci de comer.

Quem mexe a colher sente medo, a mágoa se desprende dos ingredientes, engrossa e se apega ao fundo da panela? Teria derramado o óleo antes ou depois de aquecer? O que imaginou quando cortava a cebola e media os pedaços, frustrado ou orgulhoso, por causa da simetria que falta ou sobra? Em quem pensou ao tirar a pele do alho? Esmagou, triturou, laminou? Sentiu um abismo e um frio na barriga?

Só consegui imaginar o sujeito oculto na ilusão de suas frágeis paredes de gesso – como são frágeis, todas elas, erguidas em pouco tempo, para suportar não se sabe o quanto. Quando. O outro em outro lugar, atravessando as horas. Como eu. Ninguém sabe ser era um ou muitos. Mulher, homem, criança. Se usa lápis grafite e escreve cartas que nunca vai enviar. Se come sozinho. Se se sente preso a uma vestimenta apertada, injusta para quem pensa que é. Se pinta o rosto para sentir-se mais forte. Se enche uma marmita e leva lá fora, correndo, para não perder o calor e alimentar quem trabalha pesado.

Alguém doente? Uma dor de amor? Um trauma de infância? A fita de afeto vive pendurada por um fio cansado de cola? É um emprego horrível, uma memória perdida? Haverá uma consulta no meio da tarde, que a refeição alongada, na função de cuidar dos outros, bem poderia adiar na expectativa de que o telefone toque? Alô? O médico teve uma emergência no hospital. Ele não vem.

Quem lava as mãos antes de comer, ou não liga? Tira os sapatos antes de entrar? Troca de roupa como se estivesse sempre sozinho? É louco? É doido. Doido para se distrair. Na busca burocrática de permissões idiotas quer obter a autorização libertadora de um gesto em especial: deixar para o outro dia. Mas agora é tarde, já fechamos. Só amanhã.

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