Questão de gosto: filmes

Ponyo, Sosuke e o lámen

Ponyo, Sosuke e o lámen

Proponho uma seleção de filmes para quem pode passar algumas horas no quentinho do sofá, de preferência abastecido de comidas gostosas, tomando uma distância, ainda que momentânea, das asperezas da vida. Quem sabe essa listinha eternamente inacabada dê início a uma série ou uma janelinha habitual em nossas conversas semanais no Questão de Gosto. A ver.

Acho difícil desconectar cinema e comida. São programas afins. No movimento de sair de casa para o mundo, a gente enfrenta dilemas e até conflitos típicos e quase todos têm a ver com comida – durante o filme tem aquela questão do “com ou sem” (pipoca, barulhos de saquinhos, cheiros, chocolates, marshmallows, latinhas de refrigerante que espocam ao abrir).

Antes da sessão, o lanche apressado pode desfazer o vazio e não deixar perder a hora. Depois, quem sabe uma refeição sem pressa, em casa ou na rua. Uma pizza, um jantar maior. Sem contar, é claro, o enredo propriamente gastronômico de alguns filmes.

Por último, mas não menos importante, os filmes (em casa ou na sala de exibição) mexem com diversos pontos em cada um de nós e provocam reflexões. Dou aqui o testemunho de que “sofro” frequentemente de fome de cinema. São raros os filmes – mesmo os que não têm uma levada gastronômica evidente – que não influenciam meu apetite de alguma forma.

Vou dar um exemplo: há um ano e meio, mais ou menos, eu vi o polonês Ida (Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015). Para quem não conhece, a história se passa nos anos de 1960, na Polônia comunista. Conta a trajetória de uma moça órfã chamada Anna e que, antes de se ordenar freira, descobre que tem uma família, especificamente uma tia. Ao conhece-la, Anna fica sabendo que na verdade não se chama Anna, mas Ida. Ela tem origem judia e dá início a uma viagem de acerto de contas com a memória, a história de seus pais etc.. Há cenas em bares e restaurantes, café da manhã em casa etc., mas o tratamento dado à gastronomia não é o foco.

De todo modo, por causa do filme, eu vinha cultivando desde então vontade de conhecer mais a comida que caracteriza a Polônia. Sem condições de fazer uma pesquisa de campo diretamente na origem. Por sorte, há poucas semanas abriu um minúsculo café aqui em São Paulo, em Pinheiros (no número 295 da Simão Álvares, Polska 295), aonde eu pude ir com uma amiga provar sopa de beterraba quentinha, e comer pierogi (uma trouxinha de massa recheada de batata e cebola, entre outras versões, que ali é servida com uma porçãozinha de creme azedo).

De certa forma, me reconectei internamente com aquele clima do filme Ida – um tanto doído, e bastante emocionante, é verdade – e fiquei com vontade de revê-lo. Ele tem me acompanhado sempre, desde então, por causa de um café da manhã que eu vi ali (ou seja, me deu mais do que sopa de beterraba e pierogi). Explico: em uma determinada cena, a tia da Ida enche de açúcar uma fatia de pão e come. Eu tive uma espécie de iluminação vendo isso. Parece bobagem, ok. Não  me pergunte o motivo. No dia seguinte, porém, pela primeira vez na vida eu comi uma fatia de pão, manteiga e chuvinha de açúcar cristal sobre ela, no meu café da manhã de apartamento em São Paulo. A mordida me fez o bem que faz um abraço sincero e apertado. Abraço quentinho. Prometo. Passei a usar com frequência em casos de angústia e de precisar de um café com, digamos, coragem.

***

Ao fazer a seleção de hoje, eu me inspirei em um belíssimo filme japonês que aluguei na tevê paga. E percebi que as produções japonesas dominavam minhas ideias. Começo, então, por essa linha oriental. Bom avisar: a lista não é definitiva e não quer esgotar o assunto. Suspeitos habituais, mais incensados, a exemplo de Julie e Julia, Ratatouille, Sem Reservas/Simplesmente Marta e A Festa de Babette, não foram “esquecidos”, mas tentamos jogar luz em outros menos lembrados – justamente por não serem todos eles filmes essencialmente gastronômicos. As animações não são. Os demais, sim.

Animações japonesas de Miyazaki
Hayao Miyazaki, um dos fundadores do prestigiado estúdio Ghibli, assina animações fantásticas, bonitas e sensíveis que levantam questões de sentimentos, temas morais, de comportamento e meio-ambiente. A relação com os alimentos sempre aparece. Entre outros, eu lembro mais fortemente de Ponyo, Totoro e A viagem de Chihiro. Outro mérito dessas obras: reunir adultos e crianças para ver, de verdade, juntos.

Em Ponyo, a mamãe prepara o lámen (uma massa de origem chinesa oferecida em caldo de legumes e carnes) para o filho e sua nova melhor amiga Ponyo – ela era um peixinho dourado que sonhava em viver fora d’água e conseguiu. Virou uma menina. Fascinada diante da tigelinha da mãe de Sosuke, ao destampá-la, Ponyo é surpreendida pelo perfume da sopa e a disposição dos alimentos: uma imagem realmente bonita. O macarrão, o lombo de porco, o ovo, os vegetais.

A menina peixe-dourado e seu companheiro Sosuki,  no correr do filme, ainda vão encontrar uma família com um bebê. Ela fica encantada pela criança e lhe oferece da própria garrafa térmica um pouco de sopa. A mãe explica que a garotinha ainda não pode se alimentar assim, ela só mama no peito, mas agradece a generosidade de Ponyo e avisa que vai ela mesma beber o delicioso caldo, porque isso ajuda a formar um leite ainda melhor e mais gostoso para sua filha. (…). Bonita e importante mensagem.

Totoro, as meninas e a melancia fresquinha

Totoro, as meninas e a melancia fresquinha

Depois temos Totoro, duas irmãzinhas mudam-se com seu pai para o interior do Japão a fim de ficar mais perto da mãe, que segue internada em uma casa de saúde nos arredores. Durante a aventura as duas travam amizade com um espírito guardião da floresta (os filmes de Miyazaki sempre têm essa pegada fantástica e dialogam com questões ambientais). Elas aprendem entre outras coisas a “ver o invisível” e a delícia de saborear produtos da terra em que vivem: colher os vegetais na roça, elas mesmas, compreender seu tempo certo, lavá-los nas águas de um riacho cristalino e saborear o piquenique à sombra de uma árvore.

Os pais de Chihiro, capturados por um misterioso e farto banquete

Os pais de Chihiro, capturados por um misterioso e farto banquete

No caso de A Viagem de Chihiro, que mistura sonho e realidade, uma das mais impressionantes cenas (acima) é a do banquete que captura os pais da menina Chihiro, lançando-a imediatamente no desafio de resgatá-los de uma espécie de cidade-fantasma. Dá para dizer que o casal não consegue controlar a gula e acabam por colocar a garota em apuros. Mas ela é valente.

Saindo das animações, mas ainda no Japão, chegamos ao belíssimo e delicado Sabor da Vida. É a história da amizade entre uma velha senhora, o gerente de uma lanchonete e uma estudante. A senhora de 70 anos arranja um emprego na tal lanchonete, que é na verdade uma confeitaria especializada em dorayaki. Trata-se de uma espécie de sanduíche em que dois discos de uma massa parecida com a panqueca, ao etilo norte-americano, mas alta, são recheados de doce de feijão vermelho cozido basicamente em açúcar e água. A amizade entre essas três personagens faz surgir uma série de reflexões importantes desde o caseiro versus o industrializado, no preparo de um alimento, até o preconceito em relação à velhice e os dramas familiares de cada um deles. Esse filme tem um olhar delicado sobre o tempo das coisas, a passagem dos dias, as fases da lua. O florescer das cerejeiras. É extremamente recompensador assistir.

O outro é Tampopo. Uma comédia quase nonsense dos anos 80 sobre uma viúva dona de uma loja de lámen/rámen (o mesmo macarrão ensopado muito consumido no Japão, de origem chinesa e que comentamos ao falar da animação Ponyo). A verdade é que Tampopo, a mulher, faz uma comida horrível e está prestes a falir. Ela encontra em um motorista de caminhão o professor que pode transformar tudo e ajudá-la a salvar seu negócio. Sabe “western spaghetti”, os filmes de Sergio Leone? A campanha da época do lançamento de Tampopo ressaltava esse tom de “ramen western”. É na verdade uma comédia de histórias paralelas, toda pautada por comida e relações entre as pessoas.

Mais:

O italiano Sábado, domingo e segunda é um dos filmes mais legais que já vi na vida e acho que eu falo dele toda hora. De 1990, é uma realização da diretora Lina Wertmüller e tem Sophia Loren no papel principal. Ela é Rosa, mamma italiana que começa a preparar no sábado o ragu de molho de tomate e pedaços de carne minuciosamente escolhidos e que vai servir no domingo para a família e os agregados. A história se passa em um vilarejo perto de Nápoles. Um lugar que, diz o enredo, sofre a influência do vulcão Vesúvio – influência não só física, do tipo tremores e rachaduras nas paredes, mas também “emocionais”. Vale por muitos motivos, sobretudo os dramas de Rosa e seu marido ciumento, os muitos parentes na órbita desse conflito, e o panelão de ragu, em fogo baixo, a noite toda apurando o sabor e aquecendo a cozinha.

Outros dois filmes interessantes são a produção francesa Românticos Anônimos, em que dois tímidos patológicos se encontram, se apaixonam, e compartilham o dia a dia em uma fábrica de chocolates. É encantadora comédia romântica. Por fim, dentre os muitos documentários bacanas sobre alimentação que vem surgindo de alguns anos para cá, a exemplo de Chef’s Table, a série Cooked de Michael Pollan e o brilhante brasileiro Muito além do peso, vale assistir a Semisweet (meio-amargo) que discute a questão do gosto e o papel social na obtenção, manipulação e no comércio de cacau e do chocolate em nosso planeta. Há sequências na Europa, na África e nas Américas.

Preciso de uma parte 2, porque só de listar esses últimos já pensei em outros tantos. No projeto de memória que estou desenvolvendo com minha amiga Vivi Aguiar (lembraria.com), estamos construindo uma seção chamada Notas de pathé (uma referência à sociedade de cinema francesa que tem esse nome, cuja marca apareceu nos créditos de tantos filmes assistidos em salas antigas de rua, como o Top Cine na região da Paulista… a propósito do paladar, ver, de Eric Rohmer, os fabulosos contos da quatro estações ;-)

3 pensamentos sobre “Questão de gosto: filmes

  1. Pão, manteiga e açúcar cristal – ia dentro da merendeira para a escola. Estava no lanche da tarde. às vezes, tinha goiabada também. Coisas de mineiro, do interior. Preciso saber se a criançada ainda conhece, possivelmente não.

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  2. Pingback: A lista que eu não fiz | do que eu falo quando eu falo de comida

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