Castigos

Às vezes atravesso os dias com a sensação recorrente de topar o dedão no pé da mesa. Em termos morais. Quando a menina dormiu, eu perdi o sono. Levei O Gigante Enterrado (Kazuo Ishiguro) para a cama. Ótimo livro enigmático, um medo bom, do tipo que dá vontade de continuar a trilha em suspense sombrio pela floresta, com alguns clarões. Ocorre que, se fico mais tempo acordada, preciso continuar a comer. E eu como quase o dia inteiro, a não ser que esteja profundamente triste e ansiosa. Então deixei ao alcance de uma das mãos um pot-pourri de amendoim, castanha e passas. Ele ficou sobre o criado-mudo – devo dizer que o meu é falante, porque ocupado por prosas variadas e romances muitos e eloquentes; reclamações de você me comprou, não leu e agora estou aqui embaixo de todos os outros; me abandonou pela metade; cansei de ser lido.

Comi tudo enquanto avançava pela segunda parte de O Gigante – o jantar cartilaginoso de caldo de músculo em sopa de legumes seria pouco para uma jornada tão puxada. Hoje cedo, a névoa do esquecimento predominava, mas logo meus pés descalços sentiram os vestígios no chão e eu me lembrei da traição doméstica. Nada que um aspirador de pó diabólico não resolvesse. Era um pouquinho de sal, na verdade (inventem um telefone realmente esperto, com app de aspirador de bolso, por favor, e vou tirar os cristais de poeira de vários mundos).

Aqui em casa não se entra de sapato e não é permitido levar comida para a cama, a não ser que seja (meu) aniversário e exista uma bandeja envolvida. Sou uma megera particular, fiscal de cômodos, síndica. Faço as regras e assombro. Chegou da rua? Não abra a geladeira nem toque nos armários antes de lavar as mãos. Obrigada. E feche a porta sem bater, por favor.  

Tinha adormecido lá pelas três da madrugada e acordei na ressaca de quem pisou na regra. Para ajudar, sentia muita dor na queimadura de braço encostado na chaleira quente. Usei uma pomada vencida sobre o machucado. Inflamou. Pela manhã, depois de limpar todas as pistas, resolvi me perdoar. Fui até a livraria e roubei dois capítulos de A Amiga Genial (Elena Ferrante). Li enquanto esperava o chaveiro terminar um trabalho. Guardei o livro em uma prateleira improvável, escondida, e é lá que vou buscá-lo para continuar, um outro dia. Tocou Billie Holiday e depois Julie London. Buraco no tempo.

O rapaz me disse que para fazer duas chaves tetra e três simples levaria mais de meia hora. Aproveitei para subtrair alguns contos da nova-velha coletânea de Clarice Lispector. Não arranquei as páginas. Gastei com os olhos. E, como eu me perdoei (…), resolvi me dar o livro de presente. Antes de alcançar o caixa parei na pilha dos lançamentos e o troquei pelo que parecia menos manipulado, amassado, marcado, ressentido da exposição. Uns dois minutos procurando o impecável alterariam todo o encadeamento das coisas e me custariam uma passada no mercado. Eu precisava de tomates (e alho, tomilho, manjericão).

Pois veja só: eu estava agora mesmo, depois de tudo, absolvida e deitada na poltrona em que li uma peça linda e ótima chamada “Come, meu filho” (p. 401, que vai virar nota de canapé). Quando acabou, vi que há uma fissura na sobrecapa. Na letra R da lombada do livro novo. O mais perfeito “ninguém nunca me tocou”. Castigo apropriado para quem muito escolhe e na coleção particular sublinha trechos e escreve nas margens com lápis 6B; come castanha na cama escondido (e para completar o perfil de pessoa da pior espécie ainda por cima 1) não facilitei para o vizinho que estava saindo da garagem quando cheguei; 2) acelerei o fechamento da porta do elevador, sem me dar conta de que a vizinha estava se aproximando. O que eu queria mesmo era subir sozinha). E isso tudo não é o melhor do meu pior.

(Comprei sete tomates, piquei-os em cubos e, sem tirar casca nem semente (orgânicos), juntei-os a um punhado de alho picado e assustado no azeite e deixei cozinhar em fogo baixo por meia hora. Uma colher de chá de sal. Pimenta do reino, tomilho, manjericão. Um pedaço de pão e um copo de vinho. Jantar pronto.)

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