Um fogão e um lugar

dominando a chama de um fogão novo

Chama azul: existindo no que é transitório

Em uma dessas conversas apertadas pela distância tão longe, tão perto, apoio meu cotovelo no beiral da janelinha do mensageiro eletrônico. Contemplo, na vasta vista, todo o caminho na direção da Pompeia, do Sumaré e do centro da cidade.

O enquadramento vai desaparecer, entre aspas, no último bater de uma porta. Ali estão os lugares em que vivi, mais a torre de cogumelos e as antenas da região da Paulista. Longe, o sobe e desce dos aviões na zona sul.

Conto para minha amiga que vou me mudar. É o dia do desmonte. Falo sobre andar por aí com a água na altura dos joelhos, comme d’habitude. E que me doem as costas. Todas elas. Ela então escreve sobre a transformação no inventário particular, o viajar leve.

Para aliviar as fisgadas no fígado, ao percorrer velhos cômodos vazios e melancolicamente ocupados pelo eco de brincadeiras, risadinhas, correrias, broncas, cantorias e silêncios, e também ao entrar nos ambientes novos e ainda desconjuntados, onde nada parece se ajustar, tento me colocar nesse lugar de que ela fala. Uma perspectiva menos dura. Desapego funcional, perdas relativas. A cada corrente arrastada, outras tantas boas de arrebentar.

Fiz isso, por exemplo, quando já em novo endereço caiu da parede um pedaço da velha e querida estante e foram ao chão punhados de dólares, contos de outono e de verão. O joelho da Claire, os trapaceiros, os noivos neuróticos, o Leopardo, a Chihiro, os amantes, a morte que joga xadrez. Hulot, Bardot, Leaud, Moreau. Loren, Hepburn, Ardant. Trintignant e Aimée.

Tape os buracos da parede na massa corrida, pensei. Não funcionou ainda.

***

Desenrolo a fita e fecho a caixa 37 com força e raiva (in)contida. A maldita cola grudou na unha do indicador. Você não vai acreditar, digo. Vou embora em menos de uma semana e só agora lembrei que esqueci de comprar um fogão. Sem lugar, sem fogão.

Encho a mão de castanhas e frutas secas, a refeição nos dias de embalagem. Ao converter a velha cozinha em futura-ex, eu já não encontrava nenhum desejo de preparar nada. Em caso de vazio maior, almocei comida de verdade na padaria. Arroz, feijão, salada e peixe. Frito.

Senti vontade de esganar as pessoas ocupadas em soltar perdigotos sobre as cubas do serve-serve. Falavam em geral maledicências de escritório e afetos. Quem disse o que disse. Por um mundo com máscaras ao lado do esguicho de álcool gel, por favor, para abafar desabafos.

A funcionária que vigia a qualidade do quilo não atua como fiscal de perdigoto. Ao conferir o pescado, porém, ela mete a mão na travessa carregada, sem hesitação. Pega logo uns dois pedaços, enfia na boca e aprova. Enxergo em sua expressão a vontade de beber cerveja gelada. E ela realmente diz, bem alto, que quer uma. “Isso está bom demais hoje.” Mastiga em serviço e me encoraja: você pode, boba. E vai em frente, conferindo o que precisa ser reposto sem demora. Mais feijão, mais coxinha, mais bisteca. Pego meu peixe e peço um chope.

***

Volto à janelinha. Acho que não tenho fogão, agora, porque existo no que é transitório. Virginia Woolf disse que uma mulher precisa de no mínimo duas coisas para conseguir escrever: um teto todo seu e dinheiro. Ela trata de autonomia. E potência. Eu leio ai, que dureza, e faço lista de ausências (teto, dinheiro, fogão) e de verbos necessários, enquanto substantivos, para eu me entender (ler, escrever, cozinhar).

Quando o teto era todo meu (ou havia ao menos a consciência desse “ser”), meu fogão era branco, pequeno, bonito, bom de bolo e de torta de liquidificador. Doei. Depois veio aquele que se não fui capaz de domar ao menos aprendi a entender. Manias e idiossincrasias embutidas em aço escovado. Seu tempo elástico pedia paciência (meia hora em hora e meia, pernil de noite inteira, chama de vida própria).

***

Um novo fogão chegou enquanto eu estourava metros muitos de plástico-bolha, a ver se em uma das explosões eu me achava na nova casa, a do lambe-lambe (quebro sua estante em menos de sete dias).

E lá ele ficou. De canto, iluminado, desafiadora novidade com brilho. Eu fingia que não o via. Ele juntava pó na mesa preta. Eu namorava de soslaio aquela boca de fogo central, enorme. Ela esperava sentir o peso de um caldeirão. Eu sabia que usar era o jeito de conhecer seu tempo e impor o meu, de entender os barulhos, de dar conta do medo e, afinal, de transformar “o lugar” em uma casa de verdade, mesmo sendo de mentira.

Nas primeiras manhãs, só coei café e bebi coragem, dando as costas para São Paulo. Sem muita opção. Daqui, agora, eu vejo o Pico do Jaraguá — a primeira mina de ouro encontrada no Brasil, dizem –, e algumas medianeiras. Piscinas que aliviam o calor dos olhos. A Ceagesp, o trem. As marginais e os galpões fuliginosos.

***

Até que chegou o dia em que no caldeirão mais profundo eu primeiro selei coxa e sobrecoxa. Carne, pele e osso. Nos vestígios do frango, refoguei cebola e alho. Água. Sal, pimenta, salsão. Fervura. Tirei o excesso de espuma, escutei as borbulhas, deixei reduzir e, não sei como, de turvo o brodo ficou translúcido. Juntei o capelete ao caldo mágico que cura desconforto eventual. E, afinal, me ajudaria a abrir umas caixas.

O primeiro molho de tomate fresco ficou perfumado, só que acabou levemente defumado no calor que, distraída, não controlei. O primeiro arroz ajeitei em prato fundo ao lado de uma porção de camarão no leite de coco (fora do defeso, estava congelado). A menina repetiria três vezes, ainda que ela tenha feito o desaforo de ignorar a abobrinha refogada no ponto certo.

***

A casa é sua quando você se espalha, derrama livros e canta bem alto eu amo você, menina ou these are the songs I wanna sing and play, disputando o volume com o Tim Maia enquanto espanta a poeira e preenche uma gaveta atrás da outra.

E tem o fogão. Chegar, de verdade, é usá-lo.

De certa forma me sinto melhor agora que o vazio foi tomado pelo cheiro de cebola e alho – o pai dos burros e das frases feitas chamaria de marcação de território. O resto vou ajeitando no tempo dos cozidos, fritos, assados e perdidos. E achados.

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