O refrão da nossa fome

“Sei o que é fome, que eu já passei. Menino, no fim da guerra, sou um daqueles que correm pela estrada ao lado dos caminhões dos americanos, estico as mãos para agarrar as barrinhas de chiclete, o chocolate, os pacotes de pão que os soldados jogam no ar. Menino, tenho tanta sede de gordura que bebo o óleo das latas de sardinha, delicio-me ao lamber a colher de óleo de fígado de bacalhau que minha avó me dá para eu ficar forte. Sinto tal necessidade de sal que enfio as mãos no pote da cozinha e como até me fartar os cristais acinzentados.” (J. M. G. Le Clézio, na abertura do livro Refrão da Fome, de onde roubei o título deste post).

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Das suas memórias de alimentação, peço que me diga, por favor, qual é a mais poderosa (ou quais são as mais poderosas). A resposta pode ser longa. Descreva quantas lembranças quiser.  Use este questionário.

Estou colecionando histórias pessoais de comida para um projeto. Esse projeto faz parte de um trabalho novo e bonito que em breve você vai conhecer.

Eu não quero simplesmente embrulhar nossa conversa na mantinha do clichê do afeto. Comida confortável, travesseiro fofinho, toalha felpuda. Mas acho que comemos memórias. As boas e as ruins. O travesseiro pode estar cheio de espinhos. A toalha, muito áspera.

Quero tentar entender um pouco dessa “potência emocional” que os alimentos podem ter, sejam eles processados na fábrica, catados do pomar ou transformados por uma mulher triste de dedos alongados e que amamos muito. O perfume da cozinha na roça às cinco da tarde? Sim.

O que essas imagens e esses gostos e o que os gestos que foram feitos até chegar neles dizem sobre quem somos e o tipo de relação que temos com comida/alimentação? Não sei.

Procuramos um imóvel para morar. Por que às vezes o cheiro de uma cozinha estranha e desocupada, de onde ecoam os vestígios do que ocorreu ali, nos faz sentir deslocados, nos faz querer ir embora? É como se não fosse nosso o direito ou como se a história do outro nos atingisse em algum lugar que nem sabíamos existir. Um espanto, um incômodo.

O aroma e o sabor deixam marcas na memória. Nesse sentido, nem um nem outro são tão fáceis de compreender. Acredito que ao escrever e tentar organizar o que nos provoca e muitas vezes assombra, mesmo sem saber direito a razão, podemos chegar a algum lugar.

É daí que vem o convite para que você me fale das suas memórias.

Tentei responder ao meu próprio questionário. Vexame. Sou geminiana no que a indecisão e a dúvida têm de mais geminiano, do tipo que trapaceia no resultado do uni, duni, tê, do mamãe mandou e até bebo o copo de veneno que está em cima do piano. Escolher é um suplício.

Vivo tentando amortecer os golpes da realidade em goles e mordidas, é verdade, mas nesses dias em que vou andando pela casa e nas ruas como se a água estivesse na altura da minha cintura – não para fortalecer as pernas ou o caráter, mas porque está difícil de me mover na vida –, eu penso muitas vezes em me enfiar em algum prato ou cena do passado. Enquanto não faço nada, a água sobe.

Escolho um, saudosa, mas já desconvencida: a mãe me esperou muitas vezes com a mesa posta e sobre ela o pimentão-verde recheado de uma carne moída suculenta. Arroz branco e caldo de feijão fresquinhos. Eu voltava da escola exausta de tentar ser uma pessoa que eu nunca seria. De tentar caber, de me encaixar. Chegava faminta e naquele prato eu me refazia. Me sentia forte. Lugar-comum e bem quentinho.

Minha boca se encheu de água e pareceu pequena e desimportante a lasanha que eu montei ontem,  alternando suas folhas nem finas nem grossas com molho, mussarela, queijo tipo grana (ah, grana!) e presunto cru, e que levei ao forno médio e depois alto, para gratinar problemas em um pirex enorme, a fim de sobrar. Ficou deliciosa, se defende bem, mas não era ela que eu queria. Eu queria o pimentão recheado. O arroz branco. O feijão novo. Talvez eu precise tentar fazê-los, para ver o que não estou conseguindo enxergar (…).

Enfim. São muitas a fomes. De encher a barriga, de entender (e de virar) a cabeça. Convido você para o exercício e para me ajudar a investigar. Se quiser, então, vamos ver o que acontece?

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