Fatias de bolo

Às vezes eu sinto uma dor pequena e constante. Ela vai do pulso esquerdo ao ombro, enrosca antes na curva do cotovelo e depois sobe para o pescoço, onde é convertida em presença atrás da minha orelha. Nesse ponto, a dor já não dói, apenas fica ali, um pouco acima do grain – quem viu o episódio “The Entire Story of You”, terceiro da série de angústia tecnológica Black Mirror, sabe que estou falando do grão que guarda todas as memórias de uma vida (…).

Por causa dessa dor, percebo onde estou no calendário. Ela anuncia as horas nubladas e fresquinhas das últimas semanas do verão e me lembra da efeméride com margem de erro para mais ou menos, nunca sei, de uma decisão importante que tomei há algum tempo. A vontade de sair, nesse aniversário entre aspas, é nada, nenhuma, ninguém. Só que as alternativas são as mesmas: nada, nenhuma e ninguém. No empate a derrota é minha.

Antes, porém, misturo quatro ovos, açúcar, chocolate em pó e óleo. Uma pitada de sal e a eles vou juntando aos poucos a água e um chuveirinho de farinha e fermento peneirados, para dar corpo e afofar a massa. A fôrma furada no meio eu unto com manteiga e espalho chocolate em pó para o bolo não ficar grisalho. Então eu espero.

Ele cresce devagar, o forno ora estala ora faz aquele barulho nenhum que eu conheço bem. Surgem as bolhas. Algumas se rompem. Gosto dos bolos rachados. Aumentados, incertos, marcados, defeituosos. Outro dia vi uma nota de revista de comida americana que prometia ensinar a nunca mais deixar isso acontecer. Superfície lisa, sem cicatriz. Achei triste.

Prefiro o bolo irregular e perfeitamente imperfeito, relevo construído ao acaso, sujeito a mais ou menos vigor na hora de misturar, a um ingrediente roubado, vencido, a mão que treme e acaba despejando mais chocolate, mais fermento ou mais farinha. Sem querer. Mulheres que sangram, tristezas secretas, desejos contidos no untar da fôrma, com força. O modo como os ingredientes se relacionam. Sem contar o piso torto da cozinha, que inclina também a massa. O forno destrambelhado e que tem um cálculo próprio de temperatura, uma régua que só se aprende a usar praticando. Houve uma festa em que o pernil demorou doze horas para assar.

Bolos espontâneos e destemidos são como cobertores quentinhos para as manhãs de fevereiro e março que querem ser frias e sombrias. Mas esse tempo a favor só dura até que chegue o mormaço, que em uma confusão de gerúndios vai dando ao ânimo o peso de uma bigorna. Derretendo, suando, torcendo para chover, chovendo (que bonito), alagando, distorcendo a paisagem, deixando-a excessivamente luminosa. O desejo pede água e às vezes até esquecemos de comer.

Hoje não vai ser assim. Tomo um banho, amarro o cabelo, passo alguma coisa no rosto, me perfumo e me visto. O bolo dá certo, minha disposição melhora. Deixo-o descansar, respirando pelas aberturas.

Mascarada, vou até a livraria retirar uma encomenda. Percorro as alamedas de porcelanato vazias, sinto o perfume da irrealidade, limpinho e perfeito e frio. Até parece que está tudo muito bem. Na superfície está, na verdade, mas então eu não consigo espantar uma ideia: se eu virar a cabeça para ver, de costas, as pessoas com as quais eu cruzo, arrumadas e limpinhas, e que parecem tão determinadas a estar no lugar certo, o que eu vou ver é a verdade: um ninho de confusão, nós, fios desencapados e e em curto de onde escapa fumaça de aflição. Bolsos rasgados. Por via das dúvidas, não olho.

Cheira à fragrância importada a circulação quase invisível de dinheiro, crédito, débito e cpf na nota. Só as pessoas que pensam em outra coisa sentem esse aroma. Essa espécie de suspensão que ocupa o shopping antes daquelas duas ou três horas de histeria da fome, a partir do meio-dia. Enquanto isso, nos escritórios, tensões, gritos e conflitos são abafados nas baias, tique-taque, atrás dos computadores, tique-taque, tamborilar dos dedos sobre as mesas, tique-taque, finge que fala ao telefone, tique-taque dentro dos bolsos e das mochilas e das carteiras. Mais tarde, na praça de “alimentação”, a bomba estoura.

Há reuniões indigestas em restaurante de salão, para falar de negócios. Encontros que nem se sabem clandestinos. Desabafos entre amigos ou autoindulgência solitária do empregado frustrado que se agarra a uma taça de espumante. Meio ridícula essa taça, ele pensa. Eu acho linda. Onde mais se segurar? Depois desse espasmo, o movimento não diminui tanto… vão os que têm crachá, ficam os que não têm nada a perder. Café, filme, doce. Ataque de otimismo na compra parcelada.

Tomo as providências dentro da loja, meu inferno e meu refúgio. Para não perder o costume, antes de voltar para casa puxo um livro da prateleira e abro em qualquer página. As Horas.

“Tinha parecido o começo da felicidade, e Clarissa ainda se choca, trinta anos depois, quando percebe que era felicidade; que a experiência toda repousa num beijo e num passeio, a expectativa de um jantar e de um livro. O jantar já foi esquecido; Lessing foi há muito suplantada por outros escritores; e até mesmo o sexo, depois que ela e Richard chegaram a esse ponto, foi ardente, mas canhestro, insatisfatório, mais gentil que passional. O que continua iluminado na mente de Clarissa, mais de três décadas depois, é um beijo ao entardecer, num trecho de grama seca, e um passeio em volta do lago, com mosquitos zumbindo no ar que escurecia aos poucos. Permanece intacta aquela perfeição singular, perfeita em parte porque parecia, na época, tão claramente prometer mais. Agora sabe: aquele foi o momento, bem ali. Não houve outro.”

Na volta, gosto de pensar no bolo. Vou fazer um chá de cidreira e garfar pedaços grandes e com eles preencher os buracos da minha história enquanto vejo se chegou algum e-mail para finalmente mudar tudo. Ou enquanto olho pela janela a paisagem que já está se gastando de tanto eu ver. Talvez eu derrame uma cobertura.

A felicidade é a promessa iluminada agora na minha mente e não na de Clarissa. Ela vai sacolejando comigo pela marginal esburacada, nos caminhos conhecidos: foi bater e assar o bolo e ver explodir. Esperar um livro, um jantar. Mentalmente, vou partindo algumas fatias. Não vou conseguir sozinha. Mandarei um bilhete junto com os pacotinhos laminados de surpresa: “me ajuda a comer, por favor.”

 

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