A falsa gentileza dos favores

detalhe da capa de mansfield park, da penguin classics

detalhe da capa de mansfield park, da penguin classics

A vida é uma sucessão de dias vazios bastante ocupados, escreve Fanny Price para sua irmã mais nova. Depois da chuva, uma moça ajuda a outra a tirar as roupas molhadas. E faz perguntas (a falsa gentileza dos favores).

O clérigo, de tanto comer, morre; sua mulher não parece se importar. O filho desafia o pai. A prima, noiva de um pateta por dinheiro, deseja de verdade um outro homem. Saudade, solidão, incerteza, frustração, inveja, mesquinhez. Reputações que precisam ser editadas. Peitinhos querendo pular para fora dos vestidos.

Fanny é a heroína do livro Mansfield Park, de Jane Austen. A versão que eu vejo agora – em um sábado quase todo meu – é uma de suas adaptações. Saiu em 1999, está “em netflix” (um estado de disponibilidade) e nela a pessoa principal é temperada com a própria Jane Austen. Cartas e diários da autora, dizem, foram usados no roteiro e os personagens mesclam características de homens e mulheres de sua vida.

Virgina Woolf escreveu em um ensaio que nosso conhecimento sobre a “mais perfeita artista entre as mulheres” é “derivado de pequenos mexericos, de algumas cartas e de suas obras” e que ela (Austen) nada evita da “vidinha prosaica, de toda essa pequenez, e nada é atenuado. Conta-nos, com paciência e exatidão, como eles não pararam em nenhum lugar antes da chegada a Newbury, onde uma refeição revigorante que unia ceia e jantar deu por concluídos os prazeres e as fadigas do dia”.

Em uma época em que cada inglês consumia de sete a nove quilos de açúcar por ano (história da alimentação, pág. 715), Fanny vai encarar uma viagem agridoce e surgirão faíscas nas imagens opacas. Aos 9 anos, fim do século XVIII, ela é miúda, tímida e pobre. O pai bebe muito e trabalha pouco. A mãe está sempre grávida e irritada.

Fanny terá de deixar essa casa cheia de irmãos e baratas e ensopados pesados, para viver na parte rica da família, junto às tias que fizeram casamentos “melhores” do que o de sua mãe. De modo geral, é recebida com doses generosas de ironia e uma compaixão pretensiosa. Mas há os lençóis limpos. E tem chá, biscoito amanteigado, torta de framboesa, piquenique chique, baile. Uma biblioteca enorme e um sótão ou algo assim para chamar de seu quarto.

Sobre o tapete de contradições, na ponta dos pés ela se instala na mansão do tio, cuja renda provém em parte dos “negócios” nas Índias Ocidentais. Ele explora escravos na colônia britânica de Antígua.

A senhorita Price usa a expressão suave da indiferença esperada (não seja, por favor, só agradeça). Tem o ar dos contidos por padrão; dos que sabem e quase nada dizem; dos que estão sempre por um fio. Você é um anjo, mas nunca será uma de nós; dobrar as roupas faz parte de suas retribuições pela oportunidade de existir; entregar o ópio de bandeja a uma tia viciada em distração é fundamental.

Fanny arranjou uma mantinha macia para cobrir os ombros e colocou a escrivaninha bem ao lado da janela. Atrás dela, ela vive como quer. Gosta de escrever e escreve bem. O primo Edmund, melhor amigo, lhe fornece tinta, papéis em branco e um desejo genuíno de conversar, rir e ler junto. Não é serpente.

Em 1806, com 18 anos, a mocinha mora em Mansfield Park, sim, mas a verdade é que não se acha em lugar algum, só no quarto, com a pena nas mãos – podemos ser levados a acreditar que ela conseguiria ser ela se o quarto fosse em Portsmouth, onde vivem os pais e os irmãos. Não é verdade. Nas mudanças, tem-se a impressão de que ela perdeu todos os lugares (por enquanto).

Por algum interesse velado, alguém se lembra que Fanny ainda não foi “apresentada à sociedade”. A confirmação chega na banalidade: uma mulher é uma mulher nos arranjos, como se fosse um vaso. Uma mulher é um vaso, quero dizer, é uma mulher, nos vestidos, no colo, na renda, na cintura ajustada logo abaixo dos seios e nos espartilhos e corseletes amarrados para fazer caber e sobrar nos lugares certos, apertando a moral de modo a não deixar esquecer, todos os dias, que há prazos de validade, que algo precisa ser feito e que é preciso dar um jeito de ser importante para alguém.

Aperto o botão de pausa e vou buscar um pedaço de camembert brasileiro, que cubro com geleia de morango e como antes de voltar para o sofá. Dias vazios bastante ocupados. Fanny Price está certa. Volto para a cozinha, abasteço logo um prato. Mais uma bebida. E play.

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