Todos os lápis são iguais

lápis frustrado

Preciso falar com você. Sem essa cara de pretérita, por favor, a mesma que você faz quando um telefone toca. Não é nada demais. Eu só quero saber para onde a gente vai. Quando você me trouxe para cá, me tirando daquela caixa onde estão os outros, até me senti livre para girar na tua ausência sobre essa mesa branca e lisa que parece uma vírgula. As quatro cores da caneta da tua filha já me explicaram que se trata de uma ameba. Aliás, falando ao mesmo tempo, elas parecem compor um coral de vozes multicoloridas, mas são meio abobadas. Voltando: eu achei que você ia me usar mais. E quem sabe escreveríamos juntos alguma história longa, bonita, abismada, ou uma carta cheia de verdades inventadas (rancor e mágoa, dizia o meu pai. Mas ele era meio revoltado).

Até agora, porém, ao seu comando eu só escrevi coisas do tipo lysoform e esponja cor de rosa e detergente de maçã. Veneninho de tomada (?). Não esquecer de tirar a manteiga da geladeira. E um monte de comidas: farinha de milho caipira, batata e batata-doce e tomate (só se for orgânico), alho, pimenta do reino, azeite, páprica, feijão-preto, camarão verdadeiramente grande, sauvignon blanc. Arroz carnaroli. Yakult. Água com gás. Castanha. Uva passa (pretinha). Salsão. Aveia em flocos.

Depois da lista de compras, imaginei que talvez pudesse querer desenhar, mas logo percebi que você não sabe. Prefiro não. De todo modo, vieram outras listas, outras vezes o teu nome completo de novo e de novo, como naquele tempo em que o castigo das crianças era escrever uma porção extraordinária de não sei o que. Tive um tio que morreu disso, aliás.

O que você está fazendo agora? Ah, já vi. Além de comer bala de leite com bacon, está tentando ler o futuro no restinho de açúcar mascavo da xícara de café que acabou de beber. Sofá, so good. Se eu tivesse pernas também ia querer botar elas para o ar nesse ventinho fresco de chuva de verão. Chuvarada maravilhosa. Queria eu riscar essas gotas e fazer chover todo sábado à tarde. Sou um frustrado.

Eu sei que o que você mais quer é que alguém te chame para andar na chuva, molhar o vestido, correr e bagunçar o cabelo. Tudo isso só para poder dizer, com toda a sua verdade, que não, não pode. “Estou escrevendo um prefácio. Estou colocando bem colocadas uma palavra depois da outra.” Ahã.

Olha, tá bom, talvez no fundo da xícara esteja escrito que neste carnaval vocês dois finalmente ficarão juntos, você e o teu ofício, feito amantes clandestinos, os dedos correndo soltos pelo teclado, a inspiração amparada na promessa dos depósitos mensais. Vai desencantar o texto. Ao menos você usaria meu traço 6B para riscar as preocupações ordinárias. A assombração dos futuros lançamentos (do extrato bancário). E nunca mais, por enquanto, uma linha sobre não conseguir escrever.

Me perdoa, mas eu preciso te dizer: não é assim que vai acontecer. Melhora aí essa interpretação dos tipos misteriosos do fundo da xícara. Esses tipos de insignificância fundamental. Quantas epifanias desperdiçadas, pelo amor de deus, na tua angústia de lavar a louça, aspirar o pó ou fazer uma comida? Como se faxina destravasse criatividade.

E não seja boba. Não é no açúcar que se revela o futuro. É na borra de café. O que esse eco de melaço de cana diria se soubesse falar é: passado, presente e futuro glicosado. E você aí, desejando o primeiro capítulo do não-livro. Eu acho que sobra açúcar e por isso não consegue. Precisa fazer um exame de sangue, sei lá.

Tá chorando? Puxa, desde ontem ouvindo sem parar essa cantora portuguesa cantar Sabiá. Eu sabia que o sabiá tava arrancando páginas dentro de ti (esse era o terror dos cadernos na papelaria de onde eu venho). Parece que faz de propósito. Deve ser algum tipo de desintoxicação moral. Chorar. Eu não choro e nem desenho lágrima, já que ninguém me pega para isso.

Vou voltar/Sei que ainda vou voltar/Não vai ser em vão/Que fiz tantos planos/De me enganar/
Como fiz enganos/De me encontrar/Como fiz estradas/De me perder/Fiz de tudo e nada/De te esquecer

Por falar em não conseguir esquecer, eu não quero ser injusto. Sei que adora sublinhar comigo as passagens dos livros. E de tanto fazer isso já me enfiou no apontador duas vezes e tal, o que diminui meu tamanho de vida. Mas ok. O problema é que assim sou obrigado a encarar demônios muitos. Demônios que não são meus. Eu reclamo que me gasto fazendo lista de compras, somando dívidas, só que também me deprimo quando grifamos coisas como aquela do “Inverno em Abruzzo”.

“Há certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. Nossa existência se desenvolve segundo leis antigas e imutáveis, segundo uma cadência própria, uniforme e antiga. Os sonhos nunca se realizam, e assim que os vemos em frangalhos compreendemos subitamente que as alegrias maiores de nossa vida estão fora da realidade. Assim que os vemos em pedaços, nos consumimos de saudade pelo tempo em que ferviam em nós. Nossa sorte transcorre nessa alternância de esperanças e nostalgias.”

Então eu queria te dizer o seguinte: eu quero escrever. Todos os lápis são iguais, mas alguns lápis são mais iguais do que os outros (a gente marcou isso, né? Não lembro bem onde…). Eu sou um 6B subaproveitado. Tanta maciez desperdiçada.

E você é a autora de um livro que não existe. Pare de acreditar nessa bobagem de destino no fundo da xícara. Você precisa deixar de ser louca. Me usa para manejar as palavras. E não dorme, está ouvindo? É o barulho do caldeirão do caldo de galinha caipira. Já ferveu demais. Hora de desenhar uns capeletti para ele. O cheiro está ótimo.

Ah, sim, e por que não escrevemos sobre você ter mudado o nome do blog? O blog que ninguém lê. Eu tenho uma sugestão. Em vez de usar “Do que eu falo quando eu falo de comida”, troca para “Do que eu NÃO falo quando eu falo de comida”. É uma grande sacada. Você não está conseguindo escrever, então não fala. E aquele novelista russo, a gente sublinhou, disse que o mais importante em um texto é o que não está escrito.

Não-livro, não-texto, não-tudo.

Bom. Cansei. Cansamos.

4 pensamentos sobre “Todos os lápis são iguais

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