Um dia sem relevo

Fico com eles, desconhecido e feliz (por dez segundos),
depois vou olhar o mar.

(Diário de viagem, Albert Camus)
No arremesso certeiro, vai sempre um pouco de quem dispara.
(Cada homem é uma raça, Mia Couto)

Caminhei até o ponto de ônibus. As calçadas estavam cheias de cocô de cachorro e subia do cimento uma quentura abafada. Era perto do meio-dia de um domingo nublado de primavera. A primavera é uma estação que sabe ser insuportável quando despeja sobre nós a claridade exagerada. Com tanta verdade e calor, é fácil se arrepender de sair para o mundo (e o calor, sensação substantiva, se converte em sentimento).

Subi no Praça Ramos. Lá dentro, além da fuligem habitual, o arzinho metálico era quase frio. O motorista não respondeu quando eu disse oi, tudo bem. O cobrador fitava um horizonte inventado e nele injetava uma raiva impiedosa e ampla, em especial dirigida aos que estão sem bilhete único e dinheiro trocado.

Os sacolejos iniciais e a curva malfeita de propósito reviraram na memória uma passagem antiga pelo Viaduto do Chá. O não-roubo da correntinha de ouro veio filtrado em earlybird: estávamos saindo do Mappin, onde compramos um violão. O menino veio em nossa direção, avançou no pescoço da minha mãe e puxou o cordão em que a gente se agarrava. Ficamos por um fio. Ele correu. Desaconteceu o roubo e qualquer coisa que pudesse dar origem ao samba da tragédia. Eu tinha dez anos e achava que o tecido dos dias era infinito. Não era.

Aprenderia a tocar a Balada do Louco, que já esqueci. O violão eu guardava num estojo cor de mandiopã, forrado de laranja-viúva (Clicquot). As cordas tinham aquele aroma adocicado, mel com saliva. Abandonei o curso e as notas ficaram pelo caminho. Do figurino no palco eu lembro: longos vestidos de festa. O meu, vermelho.

***

Na Heitor Penteado, quando amaldiçoava quem grudou o chiclete porco na janela, senti meu dedo apertado entre as páginas 110 e 111. Resolvi desafiar a labirintite, em geral desencadeada pela leitura em trânsito, e entrei na reunião em uma casa de litoral, no Canadá: “Todos naquela sala eram tão seguros de tudo! Ao pararem para respirar, simplesmente enchiam os pulmões com a mais pura virtude, a mais pura certeza.”

Mais tarde, numa festa na praia, Keith dançaria com um homem de olhar sofrido. Eu já estava na estação Vila Madalena quando, interrompida, ela se foi e lavou o rosto. Um vento frio percorreu minha barriga. Fome.

Embarquei no metrô. Entrou um moço. Não lembro do seu rosto, mas sei que, juntos e à parte, viajamos de frente para o outro e quando ele desembarcou nas Clínicas me disse tchau. Por que? Não sei. Penso que no viver provisório há desses encontros com velhos conhecidos que jamais vimos (e nunca mais, outra vez).

***

À medida em que o trem pegava nova velocidade, me dei conta de que naquela noite eu havia sonhado com a morte. Ela era uma cadeira vazia na sala de jantar – tinha visto coisa parecida na seção de livros do jornal de sábado e achei bom, algum autor português que não conheço. O que é a morte? “Uma cadeira vazia da sala de jantar.” No sonho, a ausência infinita se misturava à pedreira de um dia.

Pela manhã, o peso meio que se desfez no chiado de um pão na chapa e ao tentar enxergar na primeira página do jornal o que não estava escrito. Abri a gaveta para pegar um pano de prato limpo: saiu dali um cheiro muito bom. Perfume de tudo vai ficar bem. Planejei abrir a gaveta outras vezes, para surpreendê-los em todo o caso de desassossego.

(Eu queria ser mais caprichosa e manter os paninhos do uso sempre impecáveis, que se sabem quarados ao sol, brancos de dar gosto. O que me fez bem foi entregue em estado de perfeição, depois de uma artista fazer os biquinhos de crochê. Sei que em breve terá uma mancha, um furo, um borrão de café, vinho, molho ou fruta. A vida.)

Agora a tela do celular brilhou. A mensagem do aplicativo bancário era o valor da fatura gorda, cheia, fechada e sem volta. Evoquei o perfume do pano. Nada. Nenhuma magia. A voz mandou desembarcar pelo lado esquerdo do trem. Trianon (pensei, em itálico disléxico: vou comer no Taormina).

***

Um bebê engatinhava no meio da avenida. Atrás dele, o pai, tenso. O tráfego de patinetes. À frente, um homem de mão estendida e enrolado em um pedaço de cobertor. Ele dava um passo depois do outro. Se parasse para pegar a esmola que ninguém dava, cairia. Cairia? No meio de uma festa esquisita, parecia equilibrar-se na sucessão de “hoje não tenho”.

Havia os atletas de todo dia, impacientes com os de fim de semana, que, por sua vez, gostavam de rir de si mesmos. No vaivém, pernas nuas, pernas cobertas, meia fina preta, calça jeans. Saia, vestidinho, bermudão. Salto rasteiro, alto e tênis. Pé no chão. Bicicleta e tonquinha, triciclo, skate. Dava para entreouvir tantas conversas móveis (“Foi horrível”; “Tá na Consolação?”; “Quase vomitei de nervoso”; “Olha para ele”; “Morro de medo”; “Perdi a hora”; “Fulana, era o chato do teu irmão outra vez”; “Mas mãe…”; “Achei teu brinco”).

Uma manifestação começava a se formar à sombra do Masp e o tempo todo uma falsa espontaneidade era capturada aqui e ali por celulares, check-ins e marcações variadas. Vim, pisei, postei.

***

De uma prainha de paulista, saiu o melancólico aroma de milho cozido. Ao lado, no chão, um artesão vendia dinossauros e girafas de papel machê. Cada um dos pequenos custava cinquenta reais e usava All Star branco e cheio de purpurina multicolorida (cores do mar, festa do sol).

Comprei uma água com gás e invejei a gente que acordou mais cedo ou nunca dormiu e agora já tinha nas mãos sanduíches de filé sangrando e queijo derretido no pão francês. Ainda mastigando, a moça limpou os dedos mais ou menos antes de agarrar o copo e beber a cerveja. Estava nem aí para os cereais não-maltados e outros que tais.

***

No parque sombrio um cantor sorria ao microfone um amor desfeito. Nossas coisas que não são mais nossas, algo assim. Tentei voltar a ler nos bancos do parquinho infantil, porque queria saber o que acontecia depois de a Keith desistir de dançar com o homem sem nome, o de olhar sofrido, na praia e à noite. Só que pequenos mosquitos pretos mordiam por cima da minha roupa e uma folha de árvore caiu com força no meu colo e eu quase morri de susto. A magia do mato urbano.

***

Desci a Pamplona a caminho da Itu, passei pela Manteigaria Lisboa e planejei a sobremesa: pastel de nata e um copo de moscatel. No quintal do Taormina, uma lousa exibia o menu siciliano fechado – desde o antepasto até o café de italianinha. Fusilli ao molho de tomate e ricota defumada e calabresa; massa negra de tinta de lula com frutos do mar. Macarrão outro no prato fundo, para comer de colher, “uma coisa de mafioso”. Tinha algo parecido no cardápio da Castelões, ontem.

Peguei uma mesa no pátio e foi uma sequência de coisas boas chegando sem que eu precisasse pedir: o patê delicado de gorgonzola, as torradinhas ao alho, tomate e queijo (minibruschettas), o rolinho de berinjela, a pasta, os cannoli (tubinhos fritos recheados de creme de ricota), um prato sortido de frutas, o café de italianinha. A conta.

Às quatro da tarde a “Dona Taormina” fechou o portão atrás de si.

(Eu já sabia, a essa altura, que estava em um domingo de insignificâncias e que elas procuravam desesperadas suas verdades inventadas e talvez algum pouco de sentido. Tentei ajudar: entrei na fábrica de pastel de nata. Na mesma hora saiu uma fornada. Queimei a língua.)

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