Vestígios

Sempre desconfiei das exigentes e exclamadas manhãs de sábado, quando é imperativo ocupar e ser ocupado. Muitas pessoas se movem como se não bastasse um verbo (do tipo dormir um pouco mais). Essas querem, porque querem, uma ação literal. Daí a tensão quase palpável nas filas instituídas: pãozinho, pastel de feira, frango assado, agenda de manicure, aluguel de bicicleta, pedágio, cadeira de praia e et cetera e tal. Nessas manhãzinhas apressadas por padrão quase todos parecem ouvir um comando: “Corre. E se o fim de semana acaba e você não viveu tudo?”

Penso que a voz da impertinência, aos sábados, é de urgência muita e profundidade vaga. Carrega o tom daquele que ao ver o filho pequeno de alguém não consegue segurar a língua das obviedades e diz, em geral pensando mais em si do que no outro: “aproveita, porque passa rápido” – algo nesse comentário não ajuda nem é inspirador. É agourento, ainda que a intenção, suponho, não seja essa.

Prefiro mil vezes o tédio doméstico. O jornal caído de um lado, o livro abandonado na barriga, um cochilo e entreouvidos a criança brincando de faz de conta no cantinho. “Oi, tudo bem?’, diz uma boneca. A outra responde: tudo e você? Por que demorou tanto? “Demorei porque minha mãe é muito simpática e tem só dez centímetros. É tudo muito interessante!” (…)

***

Agora é domingo. Eu tinha vontade de escrever naquela hora de pouca expectativa, sem asperezas – bem cedo, quando até a inquisição da preguiça dorme. Falhei. Me peguei agarrada desde muito cedo a um romance japonês de 742 páginas (…), na cadeira de balanço. A chuvinha contida. Agora, ouvindo uma espécie de pot-pourri de outro mundo (Tim Maia, João Gilberto, Nara Leão), consegui voltar.

Foi em um desses sábados que se sabem ordinários pela manhã e à noitinha começam a abrir-se em possibilidades. Dormi mais um pouquinho e depois atravessei a cidade para comprar. O que se faz quando não há melhor linguiça do mundo na sua vizinhança é ir buscar.

O piquenique seria de noitinha. No apartamento.

Fatias finas de queijo manchego, saladinha de tomate doce, toscaninhas aceboladas e camarão à provençal (fritura sem chiado de imersão). Tudo para comer com pão.

camarão à provençal

à provençal

***

Queimei combustível e me gastei nas rotatórias que as pessoas fingem não saber usar, ou só respeitam na própria conveniência. Trinta e sete minutos depois, fui recebida na rua Dr. Pinto Ferraz. Em sua cordialidade habitual e ligeiramente tensa (repara), lá estava o seu Gijo atrás do balcão e dos óculos escuros. Um olho no cliente e outro na rua, nos funcionários, na balança, no caixa. Não se sabe qual em qual, mas ele tudo vê.

A loja do Gijo aceita apenas dinheiro e débito. Eu sei muito bem disso, só que esqueci e não tinha outro jeito. Pensei no quase nervous breakdown para chegar até ali e já ia borrar o rímel… O funcionário me percebeu no caixa sem dinheiro, tentou ajudar, mas o alarme da máquina nos denunciou. Seu Gijo percebeu, me deu um “não se preocupe” e usou outro equipamento. Disse sem dizer que aquilo não se repetisse. Fui embora me achando sortuda.

Na peixaria, pedi para limpar o camarão verdadeiramente grande.

***

Já era noite quando os amigos chegaram, abrimos os espumantes e nos enfiamos na cozinha. Não sei se foi premeditado ou se reaproveitei a panela de fundo duplo no palpite. Fazia sentido, acho, usá-la em etapas, na ordem certa, incorporando ao próximo os vestígios do anterior.

Enquanto a gente decidia o futuro da humanidade e na vitrola se alternavam músicas e canções de filmes do Woody Allen em tipografia Windsor, chorei em rodelas uma cebola inteira.

Uma parte usei na salada que apurou em azeite, lâminas de alho, sal e pimenta moídos. A outra eu refoguei até ficar quase transparente e guardei numa travessa de vidro (é nessa hora que, no protocolo das receitas, o sujeito diz: “reserve”).

Juntei a porção de linguiça recém-fervida à memória da cebola. Cortada em gomos, fritou na continuação e melhorou o que já é bom de fábrica. Estávamos tratando do sentido da vida quando o pirex de toscaninhas aceboladas ficou pronto.

Na gordura e sabor que desprenderam da linguiça derramei mais duas colheres de sopa bem cheias de azeite perfumado. Três dentes grandes de alho, esmagados de qualquer jeito, douraram por um tempo. Sal e pimentas (do reino e dedo-de-moça). Esse molho cor de ouro e de aromas profundos eu “reservei”.

Fritei, na panela suja e por dois minutos de cada lado, os camarões verdadeiramente grandes e frescos, sabendo a mar. Espocavam quando os misturei ao caldo anterior. Sobre eles choveu salsinha.

Fácil. Foi só reinvestir os lucros.

Um pouquinho antes da sobremesa, ouvimos I’m in the mood for love (Misterioso Assassinato em Manhattan) e Someone to watch over me (Manhattan). E eu disse que queria ter uma cópia de Maridos e Esposas. Um buraco na estante. E aquele outro filme, já viu? Já. Gostei.

2 pensamentos sobre “Vestígios

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