Achados e perdidos

Manon 70

Manon 70

Ontem eu estava comendo cachorro-quente no balcão da lanchonete e tive uma ideia. Era uma ótima ideia, dessas que a gente realmente precisa. Talvez fosse mudar a minha vida. E a sua.

Eu estava olhando para a rua e disse em voz alta, falando sozinha, ‘acho que eu tive uma ideia…’. Lembro da sensação, um alívio misturado com entusiasmo. Voltei a cabeça para dentro e fiz uma pergunta para o garçom. Até que horas fica aberta, hoje? Duas da manhã, ele disse e trouxe um pote de ketchup da casa para eu ler o rótulo.

Comecei a pensar no significado da expressão “aroma natural de fumaça”. Parei, não dá. Enquanto esperava a conta, olhei mais uma vez para os dois homens que estavam ao meu lado, no mesmo balcão: um deles, que eu já vi não sei onde, lia uma revista e mastigava depressa e balançava a cabeça sem parar (estava tocando alguma coisa dos Smiths). Ele usava talher para comer hambúrguer (…) e bebia refrigerante. O outro esperava o sanduíche, com molho à parte, tomando suco de tangerina.

Saí da lanchonete com aquele sorrisinho bobo. Sorrisinho de primeiro beijo muito esperado, sorrisinho de ler alguma gracinha no mensageiro eletrônico. Era o sorrisinho da minha grande ideia.

Qual era a ideia? NÃO CONSIGO LEMBRAR.

Estou tentando. Desde ontem. Até parei de juntar os parágrafos de um texto e fui andar. Dei umas voltas no bairro, entrei no mercado. Nada. Pior: comprei uma ‘super’ cândida dourada que estava na promoção e não percebi que ela vazou na minha mão. Penso: tomara que eu não encontre ninguém no elevador, com esse perfume. Claro que encontrei. Desculpa.

Aonde ir para consultar os achados e perdidos da memória? Será que eu esqueci a ideia na lanchonete, alguém foi até lá, pegou e hoje está feliz da vida enquanto eu continuo no mesmo lugar?

Será que eu desintegrei a ideia quando atravessei a rua e tentei entender um desenho do Joan Miró ou no filme Manon, que assisti em seguida e me deixou chocada não só pela beleza da Catherine Deneuve e seu figurino, mas também pela concentração de homens franceses bonitos ao seu redor?

A origem do sofrimento não está, sabemos, em não lembrar da ideia. A origem do sofrimento está em lembrar que eu tive a ideia. Está em lembrar de tudo o que ela me deu naquele instante, para depois se perder.

Oquei, era isso. Vou comer um chocolate.

Um pensamento sobre “Achados e perdidos

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