O desperdício dos dias

Quando amanheceu, um feriado no comecinho de junho, eu queria enfiar os pés na água gelada do mar de outono para ver se passava. Em vez disso, fiquei em casa e trabalhei. Era para eu terminar de escrever um texto da edição de agosto da Vida Simples (sim, era junho, o calendário das publicações envelhece o tempo mais depressa e fazer revista é como fazer pão, com todas aquelas fermentações no caminho e dormir coberto por uma mantinha de lã :-). O tema era o que pensamos quando fazemos comida e de que modo esvaziar ou usar esses pensamentos nos ajuda a estabelecer conexões importantes. Lasanha mental, sabe? Não. Nem eu. Mas pareceu ser algo assim, em camadas. Quando estiver pronto eu trago o link (está pronto, aqui).

Anteontem eu vi o texto aplicado nas páginas. Ficou bonito. Embrulhou um pouco o estômago, porque como de hábito a gente pensa que tem de mudar só mais uma coisinha, tipo essa vírgula que pelo amor de deus se eu não trocar eu vou morrer. Bobagens fundamentais.

Ao reler, também voltei à conversa que eu tive com a Lia Beltrão, uma menina de 30 anos a quem o desperdício do cotidiano incomoda. Fiquei pensando em como eu descreveria o desperdício. Vou tentar: para mim, o desperdício do cotidiano está mais em usar uma linda faca como marcador firme na leitura de um livro do que beber espumante em taça de cristal, sozinha, no fim de um dia qualquer. A gente desperdiça o cotidiano na desproporção e no desgaste. A gente desperdiça o cotidiano se acha que só existe na vida assombrada pela gincana. Tudo mentira e confusão. Mas, bah, não queiram vasculhar meu lixo emocional. Há uma porção de cotidianos desperdiçados ali.

Muito bem, a Lia é paraibana, viveu um tempo no Recife e depois de um vaivém na montanha-russa mudou-se para o interior de Pernambuco. Mora em Timbaúba, num centro de estudos budistas. Eu a procurei porque soube que desenvolveu uma oficina de cozinha e meditação, uma experiência aberta, livre, em que propõe um exercício simplesmente complicado: ao preparar a comida, preparar a comida – e tentar ocupar um lugar diferente. O lugar do observador que reconhece a boniteza do legume. A trajetória heroica do pé de couve. E tudo o que o trabalho, a espera e o tempo nos dão, resumido na fatia de pão quentinho cheia de manteiga.

(sempre que a menina diz “mááágico…” e a vida fica cheia na frente da porta do forno e as bolhas vão surgindo na superfície da massa do bolo e ele cresce e quase transborda, eu acho que estamos vendo coisas, no melhor dos sentidos.)

Eu queria saber como a Lia tenta ajudar as pessoas a afastar o desperdício dos dias. Ela foi bastante generosa e paciente, porque a rigor eu sou uma despreparada espiritual e não daria tempo de eu participar de sua próxima oficina antes de escrever. Ela explicou que não precisa ser budista nem fazer voto de silêncio, só no período reservado para a meditação e que, para a meditação, há um treino. Imagine nenhum som ao redor, a gente tentando “meditar” e a mastigação ali, coletiva, palpável. Essa preocupação era ridiculamente importante para mim. Dá para sentir o meu alívio desabar com força na entrelinha quando a Lia diz que não é assim.

A primeira atividade é entrar na cozinha e encontrar os ingredientes. São duas equipes, duas receitas. As pessoas não se conhecem, não conhecem a cozinha e passam algum tempo a explorar, abrir as portas dos armários e da geladeira, descobrir e agarrar as coisas. No fim, voltam ao ponto de partida para juntar as coletas e contar como se sentiram. Nessa hora a Lia geralmente consegue extrair dos depoimentos alguns padrões, ou o que ela chama de uma visão apertada das coisas.

Pode surgir o desconforto por causa do ligeiro tumulto, numa linha ‘gente demais, perto demais, contato social demais’, o entusiasmo com a variedade de ingredientes, o medo de não conseguir achar o que precisa nem cozinhar direito nem ir em frente na oficina, a admiração pelo modo como ficam bem arrumados os potes de tempero ou uma pontinha de vaidade, ‘porque lá em casa é mais bacana’. No papel de facilitadora, Lia introduz sugestões e práticas para identificar e dissolver os tais padrões apertados, se distanciar deles e levar para a cozinha uma visão expandida em relação às pessoas, ao produto, aos utensílios, aos propósitos.

Enquanto a Lia descrevia as emoções possíveis, eu encaixava várias delas no meu cotidiano. Perdi a conta de quantas vezes sufoquei a noviça rebelde que tenta se manifestar em mim. Quando ela, a Lia, falou em “visão apertada”, eu imediatamente alcancei o zíper do meu vestido, fechado no peito até quase o pescoço, e abri um pouco. Queria respirar.

Às vezes, entro na cozinha com muita, muita, muita raiva. Vejo a pia cheia de louça ou as compras todas da feira e do mercado esperando a arrumação e quero desaparecer. Estou concentrada no trabalho e não consigo arrancar de mim uma ideia original para o jantar da menina e me saio com um preguiçoso “restô d’ontè”. Sinto desânimo profundo e não tenho uma virose para responsabilizar. Culpa, culpa, culpa. Noviça rebelde trancada no porão.

Às vezes, faço uma comida para um monte de gente amada e, mesmo sem jamais recorrer ao glutamato, me convenço de que sou uma farsa. É verdade que para cada momento de horror há outros tantos de delícia, manifestação de criatividade e feitiçaria, mas hoje não falo deles. Hoje estou pensando se as correntes das pequenas e grandes frustrações que a gente arrasta na poeira dos dias ficariam menos pesadas e mais desimportantes se a gente simplesmente aceitasse que todo mundo tenta e todo mundo morre. Estamos todos perdidos e, principalmente, o desperdício maior do cotidiano é não perceber que existimos o tempo todo. Até quando dá errado. Até quando deixamos para lá.

O que muda se eu parar, só um pouco, porque dos dedos das mãos não sai nada que presta? Talvez naquele feriado depois de enfiar os pés na água fria eu voltasse mais leve e alerta. Não fui. Antes de jogar a toalha, passei horas me gastando. Digitei e deletei e pensei o quanto sou ruim. Até que depois de falar com a Lia eu resolvi limpar a casa. Fiz uma comida gostosa. Tomei um banho e, exausta, comi na sala vendo televisão, li um pouco e adormeci. Na outra manhãzinha eu terminei o trabalho com tranquilidade e café fresco.

cópia fiel

cópia fiel

Mais de um mês depois, escrevo enquanto assisto (outra vez, desde ontem e bem devagar) o formidável Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami. Eu vejo o cantor lírico William Shimell percorrer as ruas de uma cidadezinha na Toscana ao lado de Juliette Binoche. Eles improvisaram um domingo cheio de verdades inventadas (oi, desperdício dos dias, esse você perdeu). Sempre me apaixono por essa situação e quero ser a Juliette, primeiro para ouvir ele dizer que cada cipreste é diferente do outro e, segundo, para ficar bonita de batom vermelho. “Não somos minhocas”, diz a Juliette, brava, e joga um balde de água em mim. Acorda. “Não devemos ser simples. É esperado que sejamos complexos.”

Autor do livro-ensaio sobre obras de arte Cópia Fiel (Esqueça o original, arranje uma boa cópia), Shimell ouve Juliette lhe contar sobre o dia em que seu filho estava na chuva só de camiseta. O menino é de uma adolescência tão aumentada que beira o insuportável. A mãe disse entra, você vai ficar ensopado. Ele: e daí? ‘Você vai pegar uma gripe’. Ele: e daí? ‘Você vai morrer’. Ele: sim, vou morrer. E daí? Shimell comenta: ‘Tenho certeza de que seu filho terá uma vida longa, bem-sucedida e feliz, mas ele está certo. Todos vamos morrer. É só o que sabemos. Nada dura para sempre. “O cemitério está cheio de homens indispensáveis”, mas acho que gosto mais da versão do seu filho: todos vamos morrer, e daí?’.

Lá vem ela, emputecida outra vez, derramar o desencanto em quem gostou da filosofia da molecagem: – isso é bom para os livros, é bonito e esperto, mas não bate com a realidade. Quando você está sozinho, e tem de lidar com isso tudo, é fucking hard. Juliette quer explodir e se jogar, na vida, mas é uma mulher que acha que sabe que precisa ser contida. Não tem certeza. Valeu, Juliette. Eu só estava tentando me agarrar a alguma coisa macia. É feriado outra vez e durante boa parte do dia encarei os limites do meu mundo sentada nessa varanda, rodeada pelos brinquedos adormecidos na ausência da menina. Férias. Terminei de ver o filme, fez sol, choveu, e eu pensei em como o tecido dos dias está todo comido por umas malditas traças.

Um pensamento sobre “O desperdício dos dias

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