O livro dos outros

Fui ao encontro de uma amiga no bar e ela me entregou um livro. Lembrei da tua pesquisa sobre os que nos dão muito em poucas páginas e achei que ia gostar deste. Te empresto. Era Formas de Voltar Para Casa, de Alejandro Zambra, autor chileno que escreve brevidades de um jeito bem bonito. Gosto muito de Bonsai e A vida secreta das árvores. O Formas ainda não havia lido. Peguei-o com frio na barriga e guardei na bolsa, me certificando de que ali o pequeno ficaria confortável, esticadinho, sem envergar.

Minha amiga tem todo o jeito de uma mulher francesa, mas me faz lembrar da Lady Mary de Downton Abbey. Só que mais legal e mais bonita. O que mademoiselle desconhecia era certa ranhura no tecido do meu caráter, a farpinha erguida na madeira da minha cara de pau: se eu pego emprestado um livro, quase nunca devolvo. É como se minhas mãos estivessem amarradas. Depois de acomodado numa pilha, ele adere e só consigo movê-lo para outra pilha no mesmo lugar. O lugar em que eu vivo. Continua sendo o livro do outro, mas fica comigo.

Os meus eu empresto entre aspas. Isso quer dizer que, mesmo que o meu nome esteja escrito ali, algum lugar depois da orelha e antes do prefácio (…), se eu disse “leva” significa que está dado. Compro outro quando der. Talvez nunca. Quanta intimidade é necessária para que nós, os paranoicos, não fiquemos constrangidos de mostrar as digitais de chocolate deixadas nas páginas viradas? Essa manchinha? Óleo secante daquele dia na manicure. Se eu não disse nada, é nada. Se ele aparecer aí logo menos, achei que ia gostar. Presente.

Só que alguma coisa mudou desde que trouxe o Zambra. Uma energia diferente naquele gesto simples e à vontade da mademoiselle. Acho que superei o apego patológico. E já separei dois outros para emprestar para ela em nosso próximo drinque. Também terminei de ler o Formas de voltar para casa, mas ele ainda está aqui. Tomei muito cuidado e mesmo assim eu li sem medo. Não está engordurado nem envergado nem amassado. Mas está diferente de quando chegou. Talvez esteja apenas lido de novo… páginas mais separadas? Anuncio publicamente, contudo, que vou devolver.

(e se você lembrou-se de algum livro seu comigo, devo avisar que a honestidade só vale daqui pra frente, depois do doce no rodapé. Tudo o que aconteceu antes daquele longo dry martini, e da solenidade de enfiar o Zambra na bolsa, continua valendo. A indecência ficou no passado. Acho. Me empresta outro para a gente ver se funciona.)

Posfácio de galinha d’angola:  no táxi, eu pensava em como o ônibus demora aos domingos e que a paciência é sempre a primeira que morre, sobretudo quando quero desistir do taxista logo de cara, e sair assim que ouço o tal do ‘não conheço nada, qual o caminho?’, coisa que me obriga a falar quando mal suporto ouvir a minha voz. Segunda à direita. Por baixo do viaduto é melhor. Último sobrado à frente da caçamba branca e antes do orelhão, por favor.

Pensava também na liberdade relativa. Eu preciso de muitas coisas e precisar é uma prisão. Preciso de um emprego. Preciso de um emprego para não precisar de um emprego. Não faço média, mas preciso de um pingado na conta bancária duas vezes por mês.

Ao mesmo tempo eu sei da satisfação enorme que é transformar o ponto final da refeição em salgadinho, no lugar da sobremesa. Qualquer um pode fazer isso, se quiser, só que não precisa. Assim como eu muitas vezes não preciso de um doce e posso e quero e adoro comer outra coxinha antes de ir embora.

No restaurante que tem uma deliciosa, de galinha d’angola, repito a entradinha no final. Na churrascaria, peço mais uma porção de pastelzinho de queijo, depois do rodízio e antes da conta. Prefiro coxinha e pastel, se não machuca ninguém. Não é todo dia, não tenho que. Só quero quando, e quem sabe hoje, porque recebi um pagamento e posso.

O garçom esperou. Sorriu o sorriso dos falsos melhores amigos e em sua falsa boa vontade sugeriu um doce, apontando o cardápio, olhando para a porta. Estou cansado, parecia dizer aquele gesto de bater a caneta no bloquinho. Acho que era bloquinho e acho que era caneta.  Não lembro. Todos falsos.

De verdade, moço. Quero mais uma coxinha. Liberdade é repetir o salgadinho na sobremesa, sem vergonha, no dia em que não estamos nem aí nem aqui para um doce.

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