A teoria da cumplicidade

Depois de abrir um texto em três lides diferentes e quase ter de lavar os cabelos para me livrar do cheiro de queimado, fiz um intervalo: tirei a cara da tela do computador e arranjei um rótulo de água com gás para ler: 33,490 mg de sódio por litro. Quase tive um colapso nervoso ao comparar com outra marca (6 mg de sódio por litro). Não sabia o que fazer com essa informação – ainda não sei. Pensei um pouco que temos bebido goles de Mar Morto.

Fugi da realidade encarando outra: algumas velharias para o projeto “post de museu” (como a produção inédita deste blog é prejudicada às vezes pela minha falta de competência, eu pretendia gostar do que já escrevi para movimentar um pouco uma página do Facebook, aquela que ninguém vê, mas deveria, porque hoje tem um torrão de açúcar prestes a cair na xícara – desliguei o modo vítima ao fechar este parêntese, fica tranquilo).

A gente não devia ler o que escreveu. Talvez seja parecido com entrar em um centrífuga ligada. Não sei. Desisti. Então decidiu me ajudar na filtragem uma amiga amada e que quando estava de suave pilequinho aceitou ser a generosa personal-editora desse projeto desimportante. Uma amiga cujos kkks ameacei derrubar, um a um, com tiro de espingarda, porque duas coisas que me incomodam nas cartas entre amigos são, na verdade, três: beijo abreviado, abs (é freio) e kkk. Meus beijos em cartas de afeto são por extenso – às vezes, até quando a mensagem é de trabalho deixo na última linha um abraço aberto.

Mesmo assim foi uma tarde de nada resolvido, daquelas em que eu não estava na esteira da academia, porque o mais perto que chego desse tipo de lugar é na ida ao mercado, que por sua vez não tem nada de super mas suporta uma sala de ginástica de proporções exageradas no andar de cima – ah, o horror que é encontrar aquelas mulheres de legging e tênis e cara vermelha de dever cumprido indo de um capítulo para o outro da vida ativa, enquanto meu maior esforço é dar uma espreguiçada para alongar no corredor dos vinhos, escolhendo bem devagar a promoção da semana. Enfim: uma tarde sem sossego em que eu não fui para a esteira, como sempre/como nunca. Só corri no imaginário, igualmente sem sair do lugar.

Lá pelas cinco horas, levantei da mesa com vontade de beber café. É o não-problema se você tem o grão, a água e o filtro. Eu tenho. O que me deixou mexida é que por dois segundos e meio eu senti falta de me encostar na máquina com alguém para falar do que será que será. ‘Será que vai dar tempo’, ‘será que mando aquele email’, ‘será que vão me responder’. ‘Chove, será…?’.

Por dois segundos e meio percebi que eu trocaria meu coadorzinho doméstico, aquele que nunca me julga nem fala bom dia cedo demais; a autonomia da oficina caseira e quentinha e tranquila; a adorada solitude; a liberdade de trabalhar de pijama e maquiagem ou de roupa nova e cara-lavada; o incomparável pressentir que sim, que na pausa para almoço vai ter tempo de tomar um copo de vinho e ver um episódio de alguma coisa no Netflix; o triunfo de transformar quinze minutos em muitas coisas resolvidas e de escrever 14 000 caracteres enquanto no fogão apura o caldo da sopa de capelete. Trocaria tudo isso por chegar junto de uma máquina de café encardido em uma firma? Parece.

Tudo bem a gente esquecer convenientemente as idiossincrasias da vidinha ordinária e pensar em vender a liberdade para o contracheque regular a fim de não só ter o contracheque regular, mas também não mais se sentir exausto na gincana para entregar a tempo uma nota fiscal, morrendo de medo da volatilidade misteriosa dos calendários financeiros das editoras e afins que escapam da minha compreensão. Eu preciso, quero. Pode me internar/contratar. Que momento ótimo.

Por dois segundos e meio desejei, mais do que o salário, um cúmplice. Acho que é o fim. O fim deste texto e o fim desta carreira digitada: esses dois segundos e meio me mudaram, da vida de frila, para a vida de desempregada. Passou.

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