Vai ficar tudo bem

Chove e estou deitada sobre o domingo. É 19 de abril. Tentei ler, mas não pude me concentrar. Amarrei o cabelo. Gosto desse tamanho em que se deixa prender e permanece curto. A desordem perfeita e discreta – não fosse noite alta, capaz de ao fechar os olhos escutar o narrador da rádio dizer “fim de tarde com o maestro…”. Uma paz inventada. A pia estava muito limpa e arrumada, a menina de banho tomado e metida numa camisola longa. Quase tudo em seu lugar e mesmo assim não consegui nem ler nem dormir. Comecei então a escrever alguma coisa. Este texto. Alguém que nunca levou adiante um diário pode sempre acreditar que a mais frugal das tentativas contém, quem sabe, uma possibilidade.

Almocei salada de polvo e chips de mandioquinha. Qualquer coisa chips é maravilhosa. Um sonoro amém para essa verdade – sim, acho que somos o que comemos e as memórias que construímos e os dogmas que revemos e quebramos e as liberdades que tomamos e, principalmente, o etcétera. Mas não tenho certeza. Você tem? Não sou radical-freak da alimentação saudável e alterno paranoia e espontaneidade no que se refere à menina. Uma bipolaridade conveniente. Gosto de segurar batatinha frita no céu da boca. Mas então voltemos para o almoço onde já sou senhora das minhas escolhas: teve carpaccio, ravióli de cordeiro e os fettuccine em molho branco e parmesão ralado – o meu e o dela, porque sobrar é indecente.

A mulher ao lado estava perto demais. Não queria, mas escutava tudo o que ela dizia. “Esse molho, amor, é de nozes?” Às quatro da tarde bebi um copo de vinho branco. Duzentos mililitros de sémillon e sauvignon blanc vindos de algum ponto “entre-deux-mers” e na medida para não ficar confusa no cinema. Não sei bem o motivo da intimidade repentina, o fato é que entramos, eu e o garçom, numa conversa esquisitíssima sobre chardonnay, fígado (o meu) e enxaqueca. Sua cabeça virava de um lado para o outro igual ao ventilador de hélice no cartório mal arejado. O salão cheio. Ele, esforçado.

A vidinha pequena e normal. Um casal é conduzido pelo gerente para uma mesa confinada entre outras duas. “Fiquem à vontade, por favor.” O homem diz: “você acha que vamos ficar à vontade?” De jeito nenhum, penso eu. Foram parar num canto longe dali e perto da adega. Chegou outro casal e lhes foi oferecida a mesma posição enjeitada: “está bom aqui? Talvez um lugar mais espaçoso…?” De mãos dadas e braços enroscados, eles se atropelam para dizer que está “ótimo, imagina”. E continuam agarrados até o fim. Espremidos e felizes. Comi mais um punhado de mandioquinha frita. Não consigo ser tão legal assim. Quase nunca.

Vai ficar tudo bem

fada madrinha

fada madrinha

A Cinderela de Kenneth Branagh é linda e sabemos de toda a história. Sem surpresa, sem princesa sombria. Chorei a morte de sua mãe e quis aplaudir a fada madrinha: Helena Bonham Carter. Queria uma para mim. Mas tinha de ser uma Helena, Bonham e Carter. Eu faria apenas três pedidos – ou só um. Pena que me falte coragem e gentileza. Desqualificada para o brilho da magia Disney, derramo lágrimas na plateia, meu lugar no baile. Não tive pena de Drisella e Anastásia. Pouca raiva da madame Tremaine. A Gata Borralheira me irritou ligeiramente, porque perdoa tudo (e é corajosa e gentil).

Mais tarde eu leria “A velhinha que dava nome às coisas”. Ela sobrevive a todos os seus amigos e, para enfrentar a solidão, dá nome ao carro (Beto), à casa (Glória), à poltrona (Frida), à cama (Belinha) e a tudo o que, acredita, continuará a existir depois que ela própria morrer. Chorei do meio para o fim, minha voz ficou aguada e tive a impressão de andar em lágrimas até os joelhos e por isso avançava vagarosamente na lógica da velha: “Não estabelecer vínculos com o que vai partir”. A menina puxou a manga da camisola e secou meu rosto.

No outro dia cheguei para buscar, ela brincava, mas seu rosto estava ferido por uma mordida bem dada. Chorei. “Vai ficar tudo bem”, disse a pequena em meu ouvido. Me dei conta das muitas vezes em que ainda vai se ferir, fisicamente e no sentido figurado, e eu não estarei perto para impedir ou cuidar. Lamentei toda a verdade do que não posso controlar.

Agora são dez horas e surgiu outra fome. Gosto de saber que tem azeite, pão e fatias superfinas de mortadela para a ceia. Espero até que fique quase insuportável. Depois eu vou.

Ela me perguntou por que os adultos choram quando estão felizes. Não sei.

Ela afirmou que adultos saem do castigo a qualquer momento, porque são grandes.

Dependendo do castigo, filha, não saem, não. Só que você tem razão naquela outra coisa: vai ficar tudo bem. Ou talvez não fique. Agora, porém, está.

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