Depois de tudo, a hora mágica

a hora mágica

a hora mágica

Depois de tudo, eu mesma comi dois pratos de arroz e feijão com pedacinhos de bacon. Para ela ainda tinha fritado um bife. E um ovo. Pedi que escolhesse a mistura da janta. Ovo ou bife? Ovo com bife, respondeu. Ovo, bife, arroz e feijão com pedacinhos de vida gordinha. Enquanto preparava a parte dela, eu pensava o quando tudo mudou para ficar como está desde que há algum tempo, ao fritar o ovo, passei a derramar um pouco (bem pouco) de água na frigideira depois de a clara esbranquiçar, assim ela fica lisinha e sem aquela renda crocante e tostada (prefiro). Acho que vi isso em um vídeo da Rita Lobo. Então a menina comeu e depois dos confrontos habituais banhou e dormiu. Estou aqui, na hora mágica, e acho que exagerei. Bebo outro copo de vinho para me equilibrar. Peggy Lee pergunta em Mad Men se isso é tudo, afinal.

Gosto demais dessa hora, quando já fiz algumas entregas, li, escrevi, limpei, arrumei, cuidei e guardei. Quando já não importa se deu ou não deu – porque o que não tem remédio… – e se veio ou não veio a boa notícia que eu finjo não esperar, mas espero sim e com força sempre. É quando estou sozinha catando caquinhos ou simplesmente cansada, pés pra cima, quem sabe pelados. Quem sabe enfiados em um par de meias macias. Tranquila. Ela dorme com os braços pra cima, entregue e quentinha. É quando eu não preciso falar com ninguém. Horas minhas e mágicas.

Não consigo dormir e lembro com remorso das broncas que eu dei e de quantas vezes mandei ela andar logo, parar de enrolar porque eu no fundo só quero chegar na minha hora mágica. Não havia nenhum outro motivo para a pressa, só deitar juntas e ler histórias e ela pede carinho para dormir. Exaustas de um dia a mais. A menos.

Não consigo dormir e lembro dos meus destemperos. Já tive alguns acessos de raiva intensos. Muitos. Já tive acessos de raiva na frente da menina. Alguns. Houve uma vez em que rosnei para a Net, por causa da Net, do atendimento da Net, do funcionário da Net. E como eu chamava a atendente da Net pelo nome, e esse era igual ao de uma pessoa que a menina conhece, ela até perguntou por que afinal estávamos brigando (eu e a “amiga” dela, ou algo assim).

Naquele dia eu até consegui um trabalho. Ele foi prejudicado pela internet quebrada. Isso me gastou os nervos, mas eu também arrastava as correntes da vida não vivida, das coisas mal resolvidas, das expectativas frustradas por precaução, para evitar que os desapontamentos fossem maiores, dos tempos sombrios que aderiram às horas e aos dias e às semanas e aos meses como se não precisassem sair nunca mais. Só às vezes. E voltam. E obviamente nem adianta dizer que sofro de paciência frágil. Só sei que quando dei conta a testemunha cacheada havia crescido na sala e em seu teatro habitual andava pela casa erguendo as mãos para o céu ou as metia na cintura, grunhindo como eu, assustadoramente igual a mim. Engraçada. Minha filha era eu. Minha filha era eu e quem ela é sai em grande parte de quem eu sou (ou não) na frente dela. Isso é uma das coisas mais óbvias, naturais, perigosas e difíceis de viver com. Quase todo mundo sabe isso de si e dos seus, mas ainda assim se espanta quando vê.

A menina nunca vai poder escrever, como o fez Elias Canetti a respeito da própria mãe, que jamais me viu perder a cabeça ou erguer a voz. Poderá fazer isso no exercício da ficção, quem sabe? Ou vai contar em suas memórias que a mãe era desmiolada, o que talvez explique muita coisa, pensa agora quem lê. De todo modo, mesmo relativamente tranquila com a verdade, me senti bastante estranha ao enxergar naquela miniatura a mulher furiosa que sou, às vezes. Era atuação e “meramente”, como ela mesma diz, só faltava o sangue nos olhos. E a verdade é que nunca serei a mãe do comercial do Baby Dove, elas me irritam profundamente, aliás, e a tranquilidade relativa se deve ao fato de que eu sou quem eu sou, finjo pouco. O problema é que tem espontaneidade demais. Devo me esforçar um bom tanto para que ela não leve só o pior de mim por aí. Tenho de fingir mais. Autocontrole.

Penso que os calmos e temperados e ajustados não precisam se preocupar tanto. Talvez guardem e transmitam uma bondade que quase desconheço, mas admiro. Talvez só precisem cuidar ao encontrar comigo ou alguém criado por mim. A ver. Essa insônia toda me fez lembrar do que grifei em outra memória de Elias Canetti, mesmo livro (A Consciência das Palavras). É quando ele descreve uma conversa que teve com sua mãe e ela diz o quanto seu pai (o pai dele, marido dela) era bondoso:

“ ‘…era tão bondoso que esquecia o bem que fazia. Não pense que ele tinha má memória. Os papéis das peças teatrais que ele representara, não os esquecia após meses. Também não esquecia o que seu pai lhe havia feito ao tirar-lhe o violino e ao obriga-lo a ingressar no negócio. Não se esquecia do que eu gostava, e era capaz de, após anos, me surpreender com algo que eu havia desejado em algum momento. Mas, todo o bem que ele fazia ele ocultava, e ocultava tão bem que ele próprio o esquecia.’
‘Eu jamais serei capaz disso’, eu dizia, entusiasmado com meu pai e triste por mim. ‘Eu sempre me lembrarei.’ ‘Acontece que você se parece mais comigo’, dizia ela, ‘e esta não é a verdadeira bondade.’ Depois me explicava que era demasiado desconfiada para ser boa; que logo percebia o que as pessoas pensavam; que conhecia suas intenções na hora, que adivinhava suas motivações mais secretas.”

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