Ensaio sobre o parágrafo que não veio

Desde o último sábado à procura de um lide, um começo de texto que me escapa. Sei que está, mas não aparece. Parágrafos amontoados esperam que ele os ajude a se juntar e ocupar os espaços em branco em perfeita desordem (imperfeita ordem). Resolvi desmanchar a angústia na batedeira. Ainda era madrugada, quase manhãzinha, quando fiz o bolo de chocolate superfofo e meio amargo. Quatro ovos, açúcar, óleo, água, chocolate em pó, lágrimas morais e fermento. Trinta e sete minutos para o garfo entrar e sair. Limpo. Manda esperar quinze minutos para comer. Não obedeço. Mordi ainda quente. Salgado. Depois, frio e de cobertura muito escura e firme, o gosto acomodado em seu lugar, estava uma delícia. É o mais bonito e gostoso da minha vida.

Chorei por dentro. Ri com a menina e brincamos de pega-pega. Almocei moqueca bem perto do mar. Bebi vinho cor de âmbar e transcrevi entrevistas. Li vários contos de um livro de capa verde. Dei dez voltas dentro da piscina fria. E azul. O melão estava gelado.

Perdi o sono, achei o sono e sonhei de novo que via o avião cair três ruas acima. Não foi pesadelo. O prédio em que eu estava tremeu, mas manteve-se de pé. Enquanto a gente se recuperava do susto em clima nebuloso, a moça do banco disse que minha conta tinha muitas camadas. Senti que isso era esquisito e bom, tal qual o figo doce e fora de época do café da manhã.

soneto inacabado de michelangelo

soneto inacabado

Li um soneto começado e inacabado por Michelangelo a respeito da umidade na madeira e das brasas no coração (roubado). Assisti a passagens esquecidas de filmes e aproveitei para ouvir outra vez o Roger Sterling dizer que o Don Draper não sabe se relacionar com as pessoas, porque não valoriza relacionamentos. E pessoas. Não gosto das unhas grandes da Betty, mas adoro vê-la juntar os dedos ao segurar o cigarro, como se não fosse possível pensar de outra forma.

betty draper e o cigarro

cigarro

Perdi o sono, achei o sono e sonhei de novo que me casava com um homem de chapéu que conheci no aeroporto na África e dali ele me levou para morar em um lugar em que havia dois elevadores, mas eu era de outro país e só podia usar a caixa d’água (vazia) ao subir e descer. Tudo bem diferente e estranho, mas talvez eu conseguisse o direito de usar o elevador mais adiante. Para entrar na caixa, tinha de tirar os sapatos.

Fritei cebolas. Olhei a chuva. Fechei os olhos para ouvir cair com força no chão. Não deu nada. Então resolvi anotar a primeira frase, em alguns casos a epígrafe, de todos os livros sobre a mesa de onde escrevo agora e que é minha desde uma outra encarnação. Memorizava as sentenças das páginas cor de creme, fechava os olhos e batia no teclado. Lembrei com gosto das tardes adamascadas na escola de datilografia do Seu Antonio.

“Minhas primeiras recordações estão imersas no vermelho.”

“A noite, que a teologia pagã dizia ser filha do Caos, não é favorável à descrição da ordem.”

“Era um domingo cinzento de inverno quando fui à livraria.”

“Mira Jama contou esta história: Vivia em Xiraz um jovem estudante de teologia chamado Saufe que era altamente talentoso e puro de coração.”

“Nesta época tão curiosa, quando já começamos a necessitar de retratos de pessoas, de suas mentes e sua indumentária, um cotorno fiel, desenhado sem mestria, porém com honestidade, é bem capaz de ter algum valor.”

“‘Músicos de rua são considerados um inômodo’ pelos moradores tão sinceros da maioria das praças de Londres, que tiveram o trabalho de inserir esse polido trecho de crítica musical numa placa contendo ainda outras regras para o decoro e a paz na praça.”

“Faz pouco mais de um ano que estamos em nossa casa na França e eu já tenho de partir para visitar minha família em Buenos Aires. Não quero ir.”

“Não há nada mais chato do que a vida, nada mais deprimente do que a luz do sol, nada mais falso do que a realidade.”

“– Sinto muitissimamente – disse M. Hercule Poirot.”

Escrevi este texto deitada sobre o lide que não veio. Amanhã vou fazer outro bolo. Cobertura glacial. Um dia a menos, um dia a mais.

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