Tem mensagem pra você

Imagine que o sujeito se sente como um quase náufrago, uma espécie de Charles Prendick que, inconformado com a bestialidade que se manifesta em alguns humanos supostamente inteligentes (e humanos), está ele mesmo a assustar com o próprio espanto uns animais humanizados. A vida às vezes parece um pedaço mal descolado da Ilha do Dr. Moreau. Eu estava mais ou menos assim hoje, mas por sorte e questões de trabalho tive de parar de navegar na frescura movediça para rever um velho filme de Nora Ephron. You’ve Got Mail.

Era 1998 outra vez. Até acreditei por pouco mais de uma hora e meia que ia ficar tudo bem. Não existem mais filmes assim que, fingindo de à toa, marcam território na galeria dos gostosos e funcionais (…). Herdeiros de Harry & Sally, entende? Os últimos e talvez melhores foram Love Actually (2003) e The Holiday (2006), que dão um significado de caixa de bombom para uma tarde de chuva – ainda que a chuva seja para mim o lugar incomum mais gostoso de estar do planeta. E não é oportunismo, prometo. Meu milagre predileto desde sempre.

Love Actually (Simplesmente amor) tem o melhor roteiro, de aplaudir por dentro. O que me mata é tudo, a exemplo da cena do carro. A portuguesa Aurelia trabalha para o escritor inglês Jamie-eterno-Darcy. Todos os dias ele dá carona para ela ao fim do expediente. O fato de um não falar nem entender a língua do outro é desimportante:

Jamie: [em inglês] It’s my favorite time of day, driving you.
Aurelia: [em português] It’s the saddest part of my day, leaving you.

Em The Holiday (O amor não tira férias) até as mais elegantes das minhas lombrigas ficam assanhadas desde o primeiro encontro de Iris e Miles, quando sopra o vento forte:

Miles para Iris: The wind… it’s what makes it so warm this time of year. Legend has it, when the Santa Ana’s blow, anything can happen.
Iris para Miles: Don’t blow away.

Uma amiga minha, muito sabida, sempre tem um desses filmes na bolsa durante os emocionantes feriados de fim de ano. É para ver com os pés pra cima e uma lata de leite condensado.

Na montanha-russa epistolar de Mensagem pra Você, Kathleen Kelly e Joe Fox se conhecem duas vezes e, claro, não sabem disso. A primeira é numa sala de bate-papo, no tempo da conexão discada. Trocam um monte de mensagens até se apaixonar perdidamente e entrar numas de no new message/you’ve got mail/no new message/you’ve got mail, os mantras que mudam o dia. A segunda é no balcão da livraria dela (…).

Pena que entre um tombo e outro esqueci da comida na panela. Eu já tinha apagado o fogo, mas, sabe como é, panela de inox de fundo triplo continua a contar história por um tempo. Sopa de capeletti: cada capelete esquecido em caldo quente vira um tipo de guioza deformado. Triste é que ele próprio não se ofende nem percebe que deixou de ser. Mas eu sei. Sopa de capeletti tem de comer na hora, por favor. E se demorar ainda mais, além de inchar derrete e turva o caldo.

O que não tem remédio remediado está, portanto, em sopa de guioza fora de contexto. Enchi o prato, sob uma chuvarada de queijo ralado. Melhor. Voltei ao filme e anotei uma sentença de autoajuda atribuída a Mohammad Ali: “Paire como uma borboleta, pique como uma abelha.” Não estava tão ruim afinal meu brodo cristalino em tempero caprichado. No new message/you’ve got mail.

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