No mundo dos pequeninos

Com o título Literatura tamanho P, o texto a seguir foi escrito para a Vida Simples de fevereiro de 2015. É a versão original e sem corte, que inclui o livro Você é um animal, Viskovitz. Ele (Viskovitz) não entrou no impresso por motivo de espaço e de estar fora de linha em sua editora, a Companhia das Letras. Consegui um novo pela Amazon no fim do ano passado e vi alguns em sebos da Estante Virtual. Vale a procura.

Também não entraram outros lidos, porque eu tinha de escolher. Foi bem difícil, aliás. O bom é que logo menos posso fazer uma outra entrada, em especial para A Invenção de Morel, Felicidade Conjugal, Morte em Veneza, Noturno Indiano… Além do mais, o mar sem fim de sugestões dos meus amigos quando lhes perguntei quais eram seus pequenos prediletos, os que lhes deram muito em poucas páginas, justifica um outro escrito em que peço ao invisível (aquele em que quero acreditar) mais tempo para viver entre livros. Vou organizar esse material e volto ao gostoso assunto. 

***

Literatura tamanho P
Dez pequenos-grandes livros que nos dão muito em poucas páginas

Livrar é da natureza dos livros bons, aqueles que abrem passagem no labirinto particular e deixam no peito uma sensação de completude, de ir até o fim. Para domesticar conflitos internos há ainda os que varrem a falta de tempo e nos ajudam a tomar fôlego para vencer a pilha empoeirada sobre o criado-mudo. São os pequenos-grandes livros. Sua vastidão está na capacidade de nos dar muito em poucas páginas – pode ser na insônia abismal, no trânsito, na sala de espera ou na poltrona macia ao lado da janela. Bolo perfumado no forno, pernas sob a manta azul, dia nublado, luminária na neblina.

Foi assim que atravessei as 115 folhas de Morte em Veneza (Thomas Mann) e as 93 de Noturno Indiano (Antonio Tabucchi). A caminho de Porto Alegre, 119 palpitações de Felicidade Conjugal * (Lev Tolstói). Estava abstraída na “Sonata ao Luar” de Beethoven, executada ao piano pela narradora Mária, quando ela disse que o romance acabou. Chovia, pouso autorizado. A lágrima insolente molhou o papel e concordei com a citação do dramaturgo russo Anton Tchekhov: o mais importante em um texto é o que não está escrito.

Para esta seleção, separei dez títulos de até 150 páginas, que me encheram de ânimo, inspiração e voracidade. Mas como escolher é arbitrar, ao recomendá-los recorro a Virginia Woolf no ensaio Como ler um livro? “O único conselho sobre leitura que uma pessoa pode dar a outra é não aceitar conselho algum, seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões. É o nosso gosto, o nervo sensorial que através de nós transmite choques, que mais nos ilumina; é pelo sentir que aprendemos”.

Viviane Zandonadi está lendo A Biblioteca à Noite, de Alberto Manguel, que tem 300 páginas. Um dia, ainda vai arrumar seus livros por cor e tamanho.

BARTLEBY, O ESCRIVÃO
Herman Melville (tradução de Irene Hirsch)
Cosac Naify, 48 páginas

Funcionário de um escritório de advocacia em Wall Street, o escrivão Bartleby é um enigma. Cumpre suas funções com diligência, só come pão de mel, nunca falta nem se exalta. De um dia para o outro, porém, a cada tarefa proposta, diz sempre a mesma coisa: “I would prefer not to” (“preferiria não” ou, dependendo da tradução, “acho melhor não”). Sem jamais ir embora, Bartleby pratica ausências e perturba a ordem. O patrão fica perplexo. Os colegas, enervados. Essa novela tragicômica a respeito de um copista ensimesmado é entregue pela Cosac Naify em folhas por refilar. Para alcançar o texto, obra-prima do norte-americano Herman Melville, será preciso rasgar. Travessia lúdica que, às vezes, irrita. Assim é o intrigante Bartleby.

BONSAI
Alejandro Zambra (Tradução de Josely Vianna Baptista)
Cosac Naify, 96 páginas

História de amor. No final ela morre e ele fica sozinho. Mas eu não disse nada demais. O chileno Alejandro Zambra começa com essa frase a narrativa sobre dois jovens que lêem juntos. Eles “acordam com livros perdidos entre as cobertas” e, em meio a estripulias afetivas e literárias, até que são bem felizes. A prosa de Zambra, feito um bonsai, é cuidada e podada. E os encontros e desencontros dos estudantes Julio e Emilia nos dizem que o afeto precisa de cultivo igual, ainda que nós, jardineiros comuns, nos atrapalhemos um pouco. O autor escreveu o também bonito, e curto, A Vida Privada das Árvores.

O CADERNO VERMELHO
Paul Auster (Tradução de Rubens Figueiredo)
Companhia de Bolso, 96 páginas

Aos 14 anos, o hoje prestigiado ficcionista norte-americano Paul Auster fazia uma caminhada na mata com colegas de acampamento. Foram surpreendidos por uma tempestade. Atingido por um raio, um dos rapazes morreu na hora. “Foi minha primeira experiência com a morte aleatória e a desconcertante instabilidade das coisas. Você acha que está sobre um terreno sólido e, um instante depois, desaparece”, disse o autor, em entrevista à Paris Review. O caso do relâmpago e outros episódios dramáticos, singelos, cômicos ou absurdos compõem esta coleção de histórias reais pautadas pelo acaso e uma verdade que beira o fantástico. Faz pensar sobre os muitos significados dos caminhos tortos.

DIÁRIO DE VIAGEM
Albert Camus (Tradução de Valerie Rumjanek)
Record, 121 páginas

O Atlântico tem cor de asa de pombo”; “O sol esmaga o mar, que mal respira, e o navio está carregado de gente silenciosa”. Os motoristas brasileiros querem chegar primeiro. “São alegres loucos ou frios sádicos.” Essas são algumas das muitas impressões do argelino Albert Camus reunidas nos diários de duas viagens à América do Norte (1946) e do Sul (1949). Ora rabugento, áspero ou depressivo, ora comovido e inspirado, o autor do magnífico A Peste e do pouco extenso e bastante intenso O Estrangeiro, se espanta, se entedia e se comove em movimentos que o arrancam de si e levam-no a observar o tempo e as pessoas ao redor. Suas anotações são estudos de narrador que pinta com as palavras.

DO QUE EU FALO QUANDO EU FALO DE CORRIDA
Haruki Murakami (Tradução de Cássio de Arantes Leite)
Alfaguara, 150 páginas

Ao desistir de um bar de jazz para escrever, nos anos 80 do século passado, Murakami começou a correr. Consagrou-se na literatura e virou maratonista. Sem platitudes, fórmulas ou frases de para-choque, neste livro ele trata de liberdade e foco, e no modo como a corrida interfere em sua vida e melhora seu trabalho. Foi uma surpresa para mim – eu não sacaria esse livro da estante se uma voz não me dissesse que ele ia além do esporte. E vai. Ainda não abandonei o agasalho de sedentária, mas entendi que escrever é em parte correr com as palavras. Pela primeira vez, porém, estou pensando em usar os pés.

O FIO DAS MISSANGAS
Mia Couto
Companhia das Letras, 147 páginas

Vinte e nove histórias curtas sobre a beleza doída de sonhos apartados, desejos interrompidos e desamores. O fio que as une, e atravessa o leitor, é a prosa poética de Mia Couto, africano de língua portuguesa nascido em Moçambique. Ela torna menos inabitáveis os lugares difíceis. Ao fim de cada conto, conta ou missanga, somos gratos ao outro olhar. A narradora de A Despedideira, por exemplo, diz que há mulheres que querem que seu homem seja sol. “O meu, quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz de seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios.” Ela, que sempre achou que amor era os dois se duplicarem em um, deseja ser o múltiplo de nada. “Ninguém no plural. Ninguéns.”

MEUS DESACONTECIMENTOS
Eliane Brum
Leya, 144 páginas

Um dia, travei. Não encontrava sinônimos para os textos que estava editando e achei que ia explodir. Me imaginei várias vezes levantando da mesa e dando uma de louca, a ignorar o fechamento daquela edição. Então recebi este livro da repórter e escritora Eliane Brum. Abri como se fosse o Charlie, ao desembrulhar uma barra de chocolate Wonka, e entrei na fantástica fábrica de palavras mastigáveis. O mundo não acabou porque parei para respirar dentro das páginas, acompanhando a transformação da menina de Ijuí em contadora de vidas inventadas. Aprendi ali que toda memória é mágica e que olhar a vida sem encantamento é secar por dentro. No fim, queria voar. Respirei fundo, revigorada, e não perdi meu prazo.

A MORTE DE IVAN ILICHT
Lev Tolstói (Tradução de Boris Schnaiderman)
Editora 34, 96 páginas

Na última linha do posfácio, o tradutor Boris Schnaiderman escreve que “esta novela nos torna mais inteligentes e mais humanos.” Talvez a morte seja, como acreditava o autor, onipresente em nossos pensamentos e por isso o leitor mal consiga se proteger do relato da vida vazia de um sujeito pedante, que de uma hora para a outra se enche de dores físicas e morais. Somos todos tomados por essa análise da existência humana e do fim. Ninguém pretende estar no lugar do burocrata Ivan Ilitch, fiel aos mais medíocres contratos sociais e que adoece rodeado de afeto fingido. Mas todo mundo sabe que para morrer basta estar vivo e se vê na agonia e na dúvida. Por que gastamos tanta munição em insignificâncias, quando ainda não é tarde?

VERMELHO AMARGO
Bartolomeu Campos de Queirós
Cosac Naify, 72 páginas

Se a chuva chovia mansa o dia inteiro, o amor da mãe se revelava com mais delicadeza. O tempo definia as receitas. Na beira do fogão ela refogava o arroz. O cheiro do alho frito acordava o ar e impacientava o apetite.” Depois que ela morreu, o menino-narrador conta que ficou só com o pai que cheirava a alambique, a madrasta que cortava o tomate em fatias finas, uma irmã que miava, outra que de tanto bordar em cruz achou um marido para carregar e o irmão. Esse mastigava vidro. Tanta gente à mesa e a atmosfera é melancólica. Tudo é memória. De cunho autobiográfico, Vermelho Amargo foi o último livro publicado em vida pelo escritor e educador mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, morto em 2012.

VOCÊ É UM ANIMAL, VISKOVITZ
Alessandro Boffa (Tradução de Eduardo Brandão)
Companhia das Letras, 144 páginas

Viskovitz é um animal. Quando papagaio, sua namorada Liuba é a mais bonita do Caribe. Quando louva-a-deus, seu pai é, nas palavras da mãe que o devorou, um machinho crocante e inseguro. Visko também se metamorfoseia em leão vegetariano apaixonado por uma gazela. Formiga, escorpião, porco, caramujo. Cada bicho é um capítulo de desejo, paixão e frustração incontidas na “animalidade humana”. Capaz de o leitor reconhecer a si mesmo, afetos ou desafetos, no herói Viskovitz. Uma ideia genial, um livro engraçadíssimo e que não se pretende edificante, mas é muito inteligente e lembra do valor do riso, principalmente do saber rir de si mesmo. A autoria é de um biólogo, o italiano Alessandro Boffa.

***

* Nota: Na matéria Literatura tamanho P (Ed. 155 da Vida Simples), o nome correto do livro de Lev Tolstói é Felicidade Conjugal , como estava escrito no texto original de Viviane Zandonadi. Em seu lugar foi impresso “119 palpitações de felicidade conjugal”. A redação lamenta o ocorrido.

3 pensamentos sobre “No mundo dos pequeninos

  1. Pingback: Lugar-comum (e quentinho) | do que eu falo quando eu falo de comida

  2. Pingback: Livro de receitas para mulheres tristes – Lembraria

  3. Pingback: Sensação de coisa mínima | Do que eu falo quando eu falo de comida

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s