Chuva de açúcar no pão com manteiga

Ida

O que é isso que você estava tocando?

Sem quase nada saber sobre a Polônia, em uma dessas noites quentes fui atingida pelo belíssimo filme Ida. Na manhã seguinte, eu só pensava em comer uma fatia de pão. Sobre uma camada de manteiga, derramei açúcar cristal. Choveu açúcar no meu pão e isso nunca fez tanto sentido (Não sei como não tentei isso antes, ou sim, de um jeito enviesado).

A luz do filme é extraordinária. São bonitos os planos abertos, as travessias entre goles de bebida no copo e no gargalo. A delicadeza e a brutalidade da história (antes de se ordenar freira, a menina órfã Anna descobre que tem família e essa família é uma tia. Ao conhece-la, Anna fica sabendo que na verdade Anna não é Anna, é Ida, uma garota judia). Trilha sonora fabulosa. O que foi isso que você tocou, perguntou Ida para o saxofonista. Naima, de Coltrane. Quer saber se ela gostou. Muito. “Tia” Wanda tem razão: a covinha no queixo da Ida é  irresistível. “E se quando chegar lá você descobrir que Deus não existe?” Açúcar no pão.

***

Nesse dia, fervendo desde a manhãzinha, eu tinha tentado me refrescar simulando acentuadas quedas de temperatura. Parecia haver um balão de sono dentro da minha cabeça. Mal acordei já queria dormir, porque é entorpecente o ruído do ventilador de teto do vizinho. Liguei o inverno constante de Medos Privados em Lugares Públicos e espiava enquanto arrastava os pés descalços pela casa entre uma e outra tarefa. Muitas cenas de Os Amantes do Círculo Polar também aliviam. Outra Ana, esta à procura de Oto, uma caneca de chá, uma mantinha sobre os ombros e a imensidão da floresta fria até no verão.

No meio da tarde, o café com leite frio e temperado me ajudou a escrever uma carta importante. Inventei uma pitada generosa de canela e ficou ótimo. Boas ideias e sinônimos. Um tipo de açúcar no pão.

Entro em uma calça jeans e numa camiseta preta. Roupas antigas e que eu adoro. Dormir tarde, sem matar a fome que se insinua na madrugada, faz caber e sentir saudade – o regime de exaustão e preocupação e alguma ansiedade também seca, mesmo comendo pão com manteiga e açúcar.

O motorista me diz tudo bem eu ligo o ar condicionado, só que da próxima vez você bem que podia sair de saia ou um vestido fresquinho, não é? Tá muito quente, moça. Não digo nada. Sei que o calor espreita e vai me abraçar no fim da viagem. Vai roubar minha alma e, feito alucinação redentora da Ally Mcbeal, me transformar em alguém ainda pior (melhor?!) que poderia esmagar sua cabeça. Para sua sorte, moço, dou a entender que ignoro o comentário atrevido.

No demorado entrocamento das veias entupidas da cidade, colapso latente, os carros se movem devagar. Concluo que a peste, em uma cidade como São Paulo, não age (ou melhor, age) à maneira da doença dos ratos do livro de Albert Camus. Ela segura, porque (assim acreditamos) é aqui que as coisas estão e existem e funcionam e podem acontecer – ou parece que funcionam e acontecem mais do que em outros lugares. A peste é sermos convencidos dessa importância e da importância de outras tantas correntes enroladas ao redor dos nossos corpos ou arrastadas pelos nossos pés, travestidas de necessidades e vidas possíveis. Não somos livres, afinal, se não podemos ser em qualquer lugar. E parece que não podemos mesmo.

***

Tenho pensado em dois destinos para quando formos obrigados a evacuar a cidade. Um deles é o Butão. Sou uma pessoa quase desprovida de senso prático, então estou focando por enquanto só no desejo. É por isso que não faz diferença eu não ser budista. O que importa é que é perto das montanhas e o inverno é rigoroso e turistas quase não há. O outro é esse lugar para onde vão os sapatinhos de boneca e as tampas de tupperware, sabe? E os grampos de cabelo, os elásticos, os clipes, as canetas e as moedas que desaparecem na bolsa. O lugar dos perdidos e nunca achados deve ser ótimo.

***

Escrevo baixinho para não afugentar as temperaturas amenas: máxima de 26 significa que hoje é possível raciocinar e a pele não vai doer só de atravessar a rua. De novo aquela sensação de chuva de açúcar no pão com manteiga.

Em caso de beijo no rosto, não vamos precisar nos desculpar por ele estar melado. Ao saltar de um expresso polar ou frigobar móvel, não cruzaremos o quarteirão em desesperada figura, cabeça baixa, testa franzida e olhos apertados (pelo menos não por causa do calor, que quando está aqui é mais cruel e sem sentido algum, porque nem mesmo à noite sopra a brisa de algum Capibaribe). Que bom.

***

Faz tempo que vivo com menos do que já vivi, em escassez de ajuste e na constatação da desnecessidade. Percebo que mesmo querendo muito algumas coisas não preciso de tanto e essa sensação, ainda que não seja açúcar na manteiga, é boa. Mas só é boa até o choque de realidade: o ensurdecedor silêncio das torneiras secas. A impotência. Uma coisa é gostar de escuro, penumbra, outra é não poder acender a luz para, sei lá, fazer teatro de sombras quando der vontade. Difícil não saber até quando sim ou não.

Precisamos de um milagre? Eu preciso muito, porque já esgotei até o volume morto. Mas que não seja banal – li outro dia que para Picasso tudo era um milagre, até mesmo a pessoa não se dissolver no próprio banho. Milagre agora é um bom banho sem pensar que estamos a gastar a água que não existe.

Eu nasci sem as raízes, o espaço ou qualquer possibilidade para os dentes do siso. Jamais se manifestaram. Há mais de vinte anos um doutor Paulo disse que em mim eles nunca serão. Talvez esse seja um sinal de que estou preparada para suportar outras novidades da espécie, algumas horríveis, como viver sem água. E luz. A ver.

***

 (Evacuar. Estive internada no hospital por três vezes e em todas ameaçaram só me deixar sair depois de evacuar. Você sabe o que eu quero dizer: São Paulo vai evacuar sua gente.)

3 pensamentos sobre “Chuva de açúcar no pão com manteiga

  1. Maravilhoso como voce coloca despretensiosamente acucar no pao com manteiga de qualquer coisa ao escrever. Ate no pao seco e duro de mastigar. Mais uma vez, obrigada pela generosidade de dividir seus pensamentos e sentimentos!

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  2. Pingback: A lista que eu não fiz | do que eu falo quando eu falo de comida

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