Um dia humano

Dou o endereço para o motorista. O sistema diz que esse número não existe. Pois se estive lá outro dia mesmo. A senhora sabe como são essas coisas. Não, não sei, mas digo nada. O sujeito aperta qualquer número e me pergunta se vai chover. Puxo os cabelos para cima. Ainda não decidi se corto ou gasto na livraria. Vai chover, sim, afirmam com toda a certeza os fios entre os dedos. Respondo talvez e tomara. A senhora está com calor. Não, eu estou bem. “Então a senhora espera só um pouco e eu encontro um termômetro de rua para lhe confirmar quantos graus temos. Acho que 37. Fico contente mesmo que a senhora esteja bem, viu?” Ora, obrigada. Me protejo fechando os olhos e penso que talvez esteja pessimamente bem e que para a quilometragem de tudo o que sinto e das vozes que escuto essa distância seria pouca. Poderia lhe contar que o sifão da pia quebrou e molhei os pés ao lavar a louça, que não frequento a piscina do prédio, que desconfio da alegria e que estou magoada e com fome. Poderia dizer outra verdade: queimou uma luz e em lugar daquela branca e fria esquecida na gaveta prefiro o quarto escuro. Me angustia não saber fazer dinheiro para o viveiro de livros. Acaba comigo um ano de despesas médicas legítimas na malha fina do imposto de renda. Um dia não vou enriquecer vendendo azeitona conservada em dry Martini. Filtro solar e repelente e hidratante perfumado em spray, caimento perfeito para não precisar espalhar com as mãos. Cinco em um. Descobri, há alguns anos, que a dieta do coração partido é a única que funciona. E tem aquele conto que li hoje cedo.

Um dia humano, de Arkadi Aviértchenko.

Em casa

“De manhã, quando minha mulher ainda está dormindo, eu vou à sala de jantar e tomo chá com sua tia. A tia, uma mulher estúpida e gorda, segura a xícara com o dedo mínimo da mão direita bem esticado, achando este gesto extremamente elegante, próprio de uma elite refinada.

– Como o senhor dormiu esta noite? – pergunta a tiazinha, querendo distrair minha atenção da décima rosquinha açucarada que ela afunda com a colher no nojento chá aguado.

– Dormi muito bem. Sonhei a noite inteira com a senhora.

– Ora, meu Deus! Eu lhe faço uma pergunta séria e o senhor continua com suas brincadeiras inoportunas.

Olho pensativo para seu rosto redondo e flácido.

– Está bem, vamos falar sério. A senhora realmente está interessada em saber como eu dormi esta noite? Por que isso lhe interessa? Se eu disser que dormi mal? Isto vai deixa-la triste e chateada pelo resto do dia? E se eu disser que dormi bem, a senhora sentirá alegria e júbilo infinitos? O dia de hoje vai lhe parecer uma festa e todas as coisas estarão iluminadas pela luz de um sol alegre e de um coração feliz?

Ela afasta a xícara, ofendida.

– Eu não entendo o senhor.

(…).”

O marido da sobrinha elogia a sinceridade da velha. Finalmente. Ficam quietos até a tia esvaziar no silêncio um saco de obviedades. O tempo, as horas. Em troca, ouve um sermão a respeito do que não importa e não precisa ser dito. Ela chora. Ele vai embora. Fim. Na realidade o conto não acaba aí, mas cheguei ao meu destino.

Ganho dez centavos de desconto.

Na vida, sobra o desnecessário e falta o essencial. Na calçada, sinto o calor do asfalto subir pelas pernas. Vai demorar para chover. O pai da Betty Draper multava os filhos se praticassem conversa fiada. Ela é linda, muito chata, e por causa desse trauma de infância certamente se sente pouco à vontade no mundo e tudo tem o mesmo (muito) peso. “Sou uma órfã”, “Escove os dentes e vá dormir”, “Estou grávida” ou “Não consigo lidar com isso agora”.

“O Goodie Ace falou para um amigo meu que você estava desapontado ou chateado ou feliz da vida ou bêbado porque não respondi a carta que você me mandou anos atrás. Você naturalmente sabe que responder cartas não dá dinheiro…”, escreveu Grouxo Marx a um exasperado Woody Allen, sobre a distância abismal entre uma mensagem e outra.

Peço uma cerveja e um prato de arroz com a mistura do dia. Desenho no caderno uma resposta que não vou mandar, mas deveria. Quando a mocinha entrega a bebida eu lhe digo: puxa, que calor, falta um ventilador aqui. Será que vai chover?

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