Tarde de um janeiro apocalíptico

Antes da chuva, aquela quietude em que as coisas só não se desmancham por um triz. Uma porta bate, a janela treme. A folha de papel escorrega para o chão e não levanta nunca mais. Num instante tudo é imóvel, congelado pelo calor. O ruído que pinga, isolado, não tem poesia: torneira mal apertada.

Quase sonho, mas é fragmento de memória. Se a pálpebra baixar vai se erguer na maior dificuldade. Se não se eguer, cochilo na lembrança habitada por um segredo.

Um tipo de grilo veio da varanda e não disse nada. As formigas miúdas desapareceram da cozinha há alguns dias. Mudaram de lugar e o bando agora é todo ruivo e se move pelo quintal cercando o apartamento inteiro. Pareço ouvi-las, mas está abafado. Essa outra, grande sem ser tanajura, deu para surgir nos lugares mais improváveis e em dias espaçados. Sempre sozinha.

Fora isso, é nada.

A menina passa ao meu lado e suspira tédio profundo. Quase dá para pegar aquele ar aborrecido com as mãos. Se fosse um tecido frio, mal sabe ela, eu me esconderia nele.

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