O ano morto e o pernil de porco

“A receita do ritual nos diz exatamente onde nos encontramos.” (Michael Pollan)

Quando terminava o ano que não foi, aquele, morto e arrastado pelos não-dias, tive vontade de assar um pernil de porco. Extrapolei sem precedente o pacote de mensagens de texto do celular para anotar a não-receita da família, já que essas coisas são feitas no olhar, na intuição e na fome. A princípio, seria uma peça menor para o não-réveillon dos introvertidos chez moi. Quando dei por mim, porém, o vaivém de outro mensageiro eletrônico encolheu minha sacada com vista para as luzes da cidade. Juntamos as cuias em um lugar maior. Era preciso subir a serra e ver os amigos. A mesma serra que enxergo agora quando saio da cozinha para a lavanderia, controlando os perigos da panela de pressão. Volto para o notebook. Escrevo, refogo alho e cebola. Lavo a roupa. Cozinham o arroz e o feijão. Escrevo mais. Me abismo. Saio dele, pego outras palavras. Asso batatas em uma caminha. Os lençóis são feitos de bacon.

Acertada a fuga para as montanhas, no dia 30 de dezembro entrei no açougue do bairro fingindo que sim. Na verdade, não sabia muito bem o que estava fazendo. Tenho a impressão de que é dessa maneira que vivem as pessoas do mundo, as pessoas que se movem. A fim de não parar a cada soluço de dúvida, elas pretendem saber por onde e para onde. Também fingem que não percebem que estamos todos mais ou menos perdidos. E vão compondo acordos internos e surtos eventuais. Falei para o açougueiro das tantas bocas a agradar, contei que nunca tinha feito aquilo. Ele sumiu. Foi ver.

Enquanto espero, ouço uma narração dentro da minha cabeça, ao modo de um documentário zapeado ao acaso e impossível de não parar para ver às três da manhã: “O sacrifício de animais foi uma maneira de tornar a carne animal “boa para pensar” – de ajudar as pessoas a se sentirem melhor a respeito do ato de matar, cozinhar e comer animais, uma ocasião que nunca deixou de ser crucial, espiritualmente carregada e profundamente ambivalente”, escreveu Michael Pollan no capítulo Fogo do livro que leio às vezes, o Cozinhar, da Intrínseca. “Isso pode explicar o fato de, seja em Homero ou no Levítico, as funções de abater, esquartejar e cozinhar serem desempenhadas por um sacerdote, já que todas essas ações eram igualmente solenes”, continua. (…) “As culturas que praticaram rituais como esses antes de comer estavam pelo menos reconhecendo que algo de importante estava acontecendo e exigia total concentração. (…) Quando deixamos de dar a devida importância aos processos (…) comemos mais como os animais do que faziam os antigos.”

Fujo da culpa pensando na moça bonita de olhar agateado na canção de Alceu Valença, como dois animais. Passo pelo assassinato diário das formigas pequenas, loiras e ligeiras. Atrevidas num instante, quando se acreditam poderosas na invisibilidade, esmagadas e mortas no outro. Havia sido assim naquela manhã, a consciência do meu lugar em defesa da cozinha. E então veio a imagem da capa de gordura crepitando no forno. O chiado do caldo a respingar na grade. Tsss. Um bocadinho entre goles de espumante bastante seco. Bocejo, me encosto, sinto um vazio. Estou com medo, mas vou assar um pernil para mais de dez apetites.

Vestido de branco por inteiro, uniforme limpo, o sacerdote moderno reaparece. Não ouço nada, ainda estou naquela parte da pele tostada e, não tenho de admitir, mas quero, avanço na fila das permissões delirantes. Ela, que ora flui e ora trava dentro de mim, é um sem fim de negociações, busca por referências convincentes e outros que tais. Estava indo bem, mas ele move os lábios sem parar até romper a película de reflexão que me dá esse ar de doida. São seis quilos e meio, disse, e balançou a cabeça negativamente. Era uma tentativa de ser afirmativo com gravidade. Último, fresco, Porco Feliz. Com osso. Quer que eu tempere para você? Posso mergulhar em vinho, suco de laranja e esfarelar no pacote um “tablete de caldo de legumes industrializado”. Não, moço. Agarro meu porco e vou embora. Me é caro esse processo. O primeiro de uma vida. Tempero eu, sem glutamato algum. Saio da loja atracada naquele impressionante pedaço de carne que esmagou a culpa por hoje. É um dia luminoso e branco. Quero entrar no escuro de um copo de café. A fotofobia me aperta os olhos e penso nas marcas deixadas em memória nos meus braços fracos. Braços onde se penduram essas mãos e esses dedos que se movem sozinhos. Dedos que assustam a manicure. Dedos de aula de datilografia no meio da tarde, um solzinho besta tangenciava a janela. Sigo em respeitoso silêncio. Para não deixar cair, distraio os pensamentos-catástrofe na sequência ASDFG espaço HJKLÇ. Espaço. Se aguento esse pernil, posso segurar e talvez até ler aquele tal de Graça Infinita, do David Foster Wallace.

Fiz uma marinada para o pedaço de porco repousar na geladeira por toda a noite. Vinho branco, folhas de louro, alho, cebola. O sal era menos do que pouco. “A receita do ritual nos diz exatamente onde nos encontramos.” Amanhecemos no 31, o porco importante e eu. Cada um a seu modo, os dois ainda bêbados, quase pretéritos, mas inteiros. A insônia escreveu no meu rosto o que eu não fiz. Tirei o pernil da prateleira principal, abaixo das garrafas de água crespa. O pacote de farinha de tapioca e o queijo fresco esparramaram-se nessa ausência. Já não aguentavam mais ficar contra a parede.

A carne, encharcada, assou sobre um ninho de batatinhas levemente cozidas, a finalizar no forno. Onze horas de fogo baixo. Fervida a marinada, banhei o pernil ao longo do dia naquele caldo que encorpava na assadeira. O perfume bom assombrava meus pensamentos. Era o terror do erro, da rigidez, do dessabor. Como desandar um pernil, perguntei ao Google, tentando identificar um buraco no roteiro. Chamei minha mãe em suas férias. Não chora, filha, foi um ano complicado, mas o pernil vai dar certo. Imagino-a batendo os pés na piscina e virando os olhos. Dos três, devo ser a mais dramática. Me lembro de respirar e preencho as horas. Leio um pouco do Irmão Alemão do Chico Buarque. “Fui eu que lhe apresentei Céline e Camus, e em troca ela me emprestou um Henry Miller cheio de sacanagens. Com ela dava para ver Godard, Antonioni e Bergman sem ter de explicar os silêncios” (…) “Por um nada a Maria Helena se magoava comigo, no minuto seguinte planejava casamento e filhos, logo adiante emendava gargalhadas com surtos de cólera, quer dizer, era louca na medida para se apaixonar por mim.”

Desliguei antes de completar doze horas, porque números pares me afligem. Tomei banho e me enfiei num vestido vermelho. Nada de novo. O importante é servir na largura dos dias, depois da gravidez agora quase antiga. Depois de trezentos e tantos copos de vinho e no calor que dilata as medidas. Mas deu certo. Um sapato preto, salto quase fino. Vamos. “Mãe, meu Yakult é mais moreno do que você”. Abraçados, fomos eu e o porco bronzeado e quieto para o piquenique noturno. Ele comportou-se até que bem em companhia de arroz branco generoso, farofa leve, lentilha que conforta. Foi admirado por inteiro para em seguida desmanchar-se sob a faca de alguém que sabia o que fazer com ela sem botar risco. As lascas mais gostosas tinham aquela tal capa de gordura que derrete na boca, acaba com a tensão, corre para o cérebro e faz plim. Havia pedaços ainda mais interessantes lá dentro. Os nacos próximos ao osso, ligeiramente escuros e tenros e brilhantes, descolados aos poucos, no tempo da paciência. Saber esperar é importante.

O corpo doía no 1º de janeiro, também conhecido como o dia seguinte, a jornada universal da ressaca. Dormi. Voltei ao fogão no terceiro dia. Choveu muito. O arroz sapecou. Fiz lentilha com paio. Precisei despejar um pouco mais de água na panela e, ao me aproximar segurando a garrafa pesada, a tampa se afastou sozinha.

***

Lembrei daquele dia na fila do correio. Minha senha era 313. Lá fora, 40 graus. Era hora do almoço e a rua dos Pinheiros perto do largo tinha cheiro de ketchup e bife acebolado no PF. Vinte posições de atendimento, cinco ocupadas. Um monte de gente dormindo aqui e esvaziando a bateria do celular ali. Eu, paranoica, suspeitava das pequenas e prováveis corrupções na fila. Chamaram o 218 e achei que daria tempo de andar até o Na Garagem para comer um hambúrguer ao ponto (porque o deles é o meu: vermelho e suculento). Queijo, salada, bacon. Bebi uma cerveja gostosa, a Mula (sem cabeça). Enquanto esperava a felicidade, um jovem casal fez o pedido. Meu palpite sobre eles era de pouca intimidade, ainda. Ela pediu o completo, igual ao meu. Ele queria “bem passado, sem bacon e sem queijo”. Só salada. Batata? Não, obrigada. Não gravei a guria, mas sei que era bonita. Aquele calor, aquela cerveja e a linha de montagem dos sanduíches me comoveram. Quando vi, estava triste. Sabia que ia chegar esse dia de velha em que eu ia ter vontade de dizer “Minha filha, foge. Se ele simplesmente não comesse carne, era um ponto. Mas ele come. Ele come e pede para passar bem o melhor hambúrguer de ponto perfeito da cidade. Foge, tu é nova e linda. Não é ele.” Me distraí com a história de amor, do tipo sem beijo, e quase esqueci do correio. Ao voltar estavam no 314. Perdi o lugar fantasiando o romance na chapa. Foi por um triz. Mas tudo bem. Estômago vazio, pensamentos assombrados.

***

Para mim, morto só é falecido no caso de evitar repetição. O ano morreu. Em seu último dia, assei um porco (só o pernil). No terceiro, do novo, a panela fez mágica ou eu virei bruxa. E esse texto? Bom, esse texto é tão grande que fiquei velha enquanto escrevia. Se você leu, envelheceu também.

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