Desliguem a chave geral

Sábado, 8 de junho de 1974. Queria ficar sentada lá dentro. Quase afoguei. Me arrancaram. Deu mais ou menos certo. Perdi aquele tom arroxeado. As tintas carregadas, o drama, o medo do espelho, a veia psicossomática e a paranoia woodyallenanas et cetera foram surgindo aos poucos e continuam comigo – bem como o sangue que esquenta fácil e a vontade de ficar e depois partir. E voltar. E ir embora outra vez. Começou ali a montanha-russa, o hospício particular, o labirinto emocional e a tendência para os silêncios palavrosos e para o abismo. Eu, mais uma estranha no mundo. E com cara de brava, dizem.

Era hora do almoço, mas eu não sabia. Só berrava. Minha irmã largou o berço por mim. Foi promovida ao sofá da sala, tão bonito e de um tecido macio. Chenille? Pode ser. Tinha um tom âmbar-acobreado. Sempre busco ter essa cor por perto. Minha poltrona – de ler, ver, pensar e escrever – é bem parecida. Tive vontade de morar nela desde sempre, porque de alguma forma me arranca dos perigos e me joga no sofá antigo onde tudo ficava bem. A menina de quem eu herdei o berço acordava nele para ler gibi. E ainda ganhou uma vitrola – do tipo maleta, sabe? Dois ou três anos depois, percorreríamos juntas a trilha da novela Estúpido Cupido, quando não estivéssemos brigando. Quem é? Tetê. Alguém que é bobo de alguém, um neurastênico banho de lua e eu branca como a neve. O mundo caiu. O hospital não existe mais e a casa que havia sido erguida pelo meu avô não é mais da família.

No mesmíssimo dia em que eu nasci, a imensidão da Amazônia perdia o equivalente a uns 12 635 campos de futebol para o desmatamento. Nos últimos quarenta anos, aliás, foram desmatados ali 184 milhões de campos de futebol. Quase um para cada brasileiro. Em média, 12 635 por dia da minha vida; 526 por hora; 8,8 por minuto. Seiscentos e cinco metros quadrados por segundo. “Ininterruptamente”. O desmatamento acumulado da Amazônia desde que eu nasci, ou quase isso, é de 762 979 quilômetros quadrados. Mais do que a área de três estados de São Paulo. É como se eu gastasse o mundo apenas por existir. Uma conta estranha e muito dura e que me deixa um pouco enjoada.

Nesse ritmo animado, quando minha filha tiver 30 anos a floresta será uma não-floresta e quem estiver vivo terá, talvez, se adaptado a um mundo sem o encantamento da Iara que leva o pescador para o fundo do rio por amor e vaidade. Não vai sobrar nenhuma magia. Saci, curupira, onça-pintada, fartura de peixe. Pescador. Nada. Talvez alguma memória.

Mais sobre isso no bonito e triste entreato de fim dos tempos que é o relatório sobre o coração do mundo e nessa leitura do mal-estar que a gente sente, aqui. Tem de ler. Na praia, no mato, na montanha, na cidade. Da poltrona macia onde está temporariamente tudo mais ou menos bem é que é preciso encarar a impermanência das coisas e tentar achar uma forma de sair.

O ar, a água e a floresta fantástica, expliquei para a minha menina, acabam nos banhos longos, esvaziam-se no ralo e em tudo o que a gente pensa que precisa quando o que a gente precisa mais é nada disso. Mesmo distante da floresta fantástica, quando essa é corroída, outras coisas se comportam de um modo estranho. Derretem. Derrubam. Alagam. Secam. Os pássaros se perdem. Os bichos se atordoam. Tudo por causa dela.

Quando eu tinha nove anos, não sabia, mas ajudava a enxugar a floresta deixando o chuveiro ligado para ler mais um capítulo da vida dos Ingalls ou os primeiros assassinatos da Agatha Christie. Fingia, tinha preguiça de banhar, uma preguiça permitida pelo não-saber. Acreditava que o tudo era infinito. Para me mostrar que não era, intuitivamente a mãe desligava a chave geral assim que eu virava a última página e ia finalmente dar uma passadinha sem-vergonha embaixo da ducha. Uma cena que eu e minha menina não vamos repetir, porque a chave geral vai cair, já caiu, deveria cair. Vai ver a gente tem de desligar mesmo essa maldita para entender que assim não pode ser.

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