Queijo tostado na boca do fogão

queijo tostado na boca do fogão

queijo tostado na boca do fogão

Ensaio. Insônia. Continuação. Dois lugares.

Comer é levar para dentro da gente. Faz mais sentido se for bom, em todo o significado de “bom” e de “levar para dentro”. Penso então que, quando eu falo de comida, falo de um pedaço de queijo de Minas espetado no garfo e tostado na boca do fogão logo de manhã, para comer puro ou no meio de duas fatias de pão. O pão, na chapa. Com manteiga. Volto para o meu livro. Leio e como.

Falo do ragu de linguiça no almoço da primeira de 45 jornadas diárias de férias escolares de verão, com temperatura ao redor dos 25 graus para menos, por causa de um importante vento do fim do mundo. E falo de fazer scarpetta. Limpar o molho com um pedaço de pão. Além de gostoso, é um elogio à delícia. Um “espera, ainda não acabou. Conta mais”. E ajuda a lavar os pratos.

Quando eu falo de comida, acho que às vezes é preciso quebrar. O ragu, por exemplo. Tão delicioso e quente. Parece errado, maldita culpa – se eu sentisse culpa. Mas deixa com cara de domingo a segunda-feira. Almoço às três da tarde quando não há mais o que fazer. Um copo de vinho. Se comer ou se não comer, os instantes todos passam. Não poderia ser mais certo.

Falo ainda da comida e dos dias no calendário de fotos magníficas. Veio de longe embrulhado em papel pardo e diz: com tudo ou contudo, nunca esquece de comer.

E tem o Menino Brie. No poema de Tim Burton, ele “tinha às vezes um sonho-profecia: de seu rosto inteiro só iria restar uma fatia. Para os meninos aquilo não fazia lé com cré. Foi assim que Brie se deu bem com o vinho Chardonnay”.

Menino Brie

Menino Brie

No jantar à luz da tarde, a menina explica que a faca e o garfo se estranham, porém se precisam. E que o arroz quer o feijão bem caldoso, para comer de colher. Assim como é dos melhores o ménage entre molho, macarrão e parmesão lascado. A miúda, ainda ela, é louca por bacon e fecha os olhos surpreendida por um pedacinho no meio do caldo. Amor assim às vezes tem de ser proibido. Ou nunca. Ainda não sei.

Do queijo e da geleia, o que se sabe é que cada um tem sua vida. Cortado fino e transparente. Nacos generosos, cubos, palitos. Escrevo dois parágrafos, não durmo mais. Volto para a cozinha sete vezes. Uma para cada fatia. Pá. A faca bate na tábua.

A geleia se desfaz em colheradas, se esparrama no biscoito de água e sal. Só que os dois, queijo e geleia, quando estão juntos são melhores. Contam outras histórias.

Se eu falo de comida, falo da cascata de vinho que se despeja na taça. Barulho. E do chiado da fritura, das bolhas que explodem ao ferver. São finas, se líquido. São grossas, se creme. Os ovos espocam. E, no forno, a pele do porco estala.

Silêncio.

Eu falo de comida quando digo que é uma delícia almoçar no bandejão triste, mas honesto, só para encontrar gente de verdade e amada. E rir. Falo de te convidar para comer comigo. De intimidade.

E lembro, claro, daqueles dias no restaurante do hospital, tentando entender o que o médico diz quando sei que nem ele mesmo sabe o que diz e vira as costas e vai pelo corredor coçando a cabeça com o dedo mindinho. Quer conversar com alguém. O que será que ela tem, finjo que sei e entro no quarto do outro paciente. Daí uma hora a gente come tentando se agarrar em alguma coisa. Rindo, de nervoso e numa esperança meio débil. Deu certo. Ficou tudo bem. Sempre pode não ser. Mas foi. Comi contrafilé com fritas e gelatina.

Falo de comida de barriga cheia. E nas ausências de um estranho dia. Falo sem comer, sem fome, com a fome dos outros. Tenho pesadelo quando janto sem muito apetite, porque comer por obrigação desperta demônios. Há demônios desejados, não são eles. Outros. Mas é verdade também que se não janto, porque quero viajar leve, simplesmente acordo com saudade.

***

Falo pouco de lugares. É difícil achar algum. Mais fácil se perder e/ou ficar pensando na conta e não no que aconteceu ali. Teve uma noite no pequeno e disputado bar (buscava o link e também vi isso aqui. Ouve agora, mas não me larga ainda…). Um dry Martini, duas azeitonas bêbadas e mais duas roubadas do copo ao lado. “Pode ser”, disse, como quem não quer nada, para o sanduíche de lombo. Mordi. Estou perdida. “Era isso o que eu sempre quis e não sabia. Como é que eu volto, agora?”. Volta de táxi, porque as azeitonas estavam encharcadas. Numa cidade repleta de cenografia, que custa muito e entrega pouco, é um privilégio ter aonde ir e não se sentir deslocado. E ainda comer e beber bastante bem. Vá. Mas chegue cedo, por favor. É minúsculo. Para quem vai sozinho, perfeito. Mais um ou dois, tudo bem. Dá para conversar. Mais do que isso, não é confortável. Escolhe outra parada, deixa para outro dia.

Quando eu falo de comida, lembro de um pedaço generoso de pudim. Consistência limítrofe entre o firme e o cremoso, impossível de definir. Sem furo e onde mora uma doçura lisinha, que dá vontade de abraçar a moça e dizer que bom. Nem precisa. Basta olhar. Ela sabe. Antes de passar a colher, chega a qualquer hora que tem almoço. Podem vir os que são livres ou quase, os que andam pelas horas mortas do meio da tarde. Os que têm planos, os que não sabem ter. Os que estão de passagem. Os que estão desesperados querendo se prender às horas mortas na oficina no meio da tarde. Os que estão me dúvida, em dívida, na sensação de abismo profundo. Cair sempre e sem fim, vento na cara. Um prato de comida, um lanche à cavalo. Um gole. Os que não têm o nome no crachá tomam cerveja gelada. E ficam. Pede outra, está tão bom. Dá vontade de morar aqui. Mas passa, porque afinal é melhor ir embora pra poder voltar. E tem vitrola, na Conceição. Você vai voltar. Eu vou.

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