Conversa de entrelinha

jean-claude brialy e anna karina (uma mulher é uma mulher)

jean-claude brialy e anna karina (uma mulher é uma mulher)

Espuma: escrevi na entrelinha do sinal fechado para a edição de novembro de 2014 da revista Vida Simples. Capa azul tranquilo e maravilhoso. O tema é a conversa. O bem dito, o maldito e o não dito. Preguei duas músicas que embalaram gostosamente a costura. Só que, toda vez que botava minhas mãos no tecido, em minha cabeça também os secos e os molhados cantavam eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto. Fala.

No último outono, por causa de um trabalho, instalei em meu telefone o aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp. Antes de descobrir as configurações que tinham mais a ver comigo – adotar o status invisível, bloquear notificações sonoras –, caí na vertiginosa profusão de recados, fotos, vídeos e soluços de digitação vindos não sei de onde. Parecia imperativo estar sempre disponível à conversa (e indelicado silenciar). Indutor de ansiedade. “Calma. É para facilitar a vida…”, disseram. Devagar e divagando, eu ainda me perguntava se aquela relação com o suposto facilitador de comunicação duraria até o inverno.

Acho que não é para mim. Parei o carro em um sinal fechado e desejei que Paulinho da Viola surgisse para cantar aquela bonita troca de palavras da música brasileira: “- Olá, como vai? – Eu vou indo e você, tudo bem? – Tudo bem, eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro, e você? – Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe? – Quanto tempo… – Pois é, quanto tempo…”

Mas não. O que aconteceu foi que o WhatsApp fez tremer o celular. Aceitei. O mapa do GPS desapareceu e em seu lugar veio uma lista de kkks e hihihis. Nenhum “oi, tudo bem?”, “com licença” ou “pode falar?”. Ninguém bateu palma no meu portão ou, se bateu, a mensagem foi soterrada por todas as outras. O sinal abriu, retomei a viagem e jamais soube onde começaram aqueles gracejos abreviados. Eles falavam comigo, mas não diziam nada. “- Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas – Eu também tenho algo a dizer, mas me foge a lembrança…”

Sem GPS, indaguei sobre o meu destino na banca de revista. Era um restaurante e estava logo ali. Mal percebi quando o garçom trouxe a água, porque duas moças na mesa ao lado me intrigavam. O celular de uma delas, junto ao prato, vivia iluminado e trepidante. “Leia, pode ser importante”, disse a amiga, interrompendo o que parecia ser uma confidência. “Prefiro não, imagine. É o pessoal desse grupo do meu curso, entende? Deixa para lá. Continua…!”, mas ela mal se aguentava e finalmente ergueu a mão, pediu um tempinho para atender. Pode? Pode. A vida é uma sucessão de acasos, escolhas, prioridades. Essas coisas acontecem. Acontece também, é claro, de a gente se chatear com a ausência de quem está sem estar e de duvidar da disposição do outro para ouvir e falar à moda orgânica, aquela que só existe na entrega e na atenção. Sabemos conversar, chegar no outro? Queremos fazer isso?

Mais tarde, em casa, fui fisgada por uma foto que chegou pelo Twitter. É noite e há um grupo de mulheres sentadas em cadeiras de praia, na calçada. A legenda diz “Eis o melhor WhatsApp do mundo”. A imagem me tocou. Distorci sua mensagem para ajustá-la à minha realidade. Não saí correndo para abraçar meus vizinhos do prédio, por que não os conheço, mas desisti do aplicativo. No meu caso, ele liquidava mais do que facilitava. Sua “invasão” perturbava. Também pensei que cada um de nós tem o próprio tipo de “conversa na calçada”. Pode ser à mesa. Sobre ela, água, comida e vinho. Ao redor, pessoas de verdade com as quais podemos ser quem somos – e até usar o celular cuidadosamente, se for importante.

Mas afinal o que significa saber conversar? Quem sabe conversar tem um milhão de amigos e conquista pessoas e sucesso, como sugerem manuais à venda nas livrarias? Estabelece conexões consistentes? Nesse gesto de estar com o outro, qual o papel da presença, da espera – nem todo mundo está pronto para falar quando desejamos –, da escuta, do silêncio? Pois é. A partir dessas perguntas e outras mais, comecei a trabalhar o texto que você lê agora. Na vitrola, os versos de Aldir Blanc me lembravam que Amigo é pra essas coisas. “- Salve! – Como é que vai? – Amigo, há quanto tempo! – Um ano ou mais… – Posso sentar um pouco? – Faça o favor… – A vida é um dilema… – Nem sempre vale a pena… – O que é que há?”

***

“Acredito que, do ponto de vista da conversa, as pessoas mais interessantes são homens reunidos num bar, jogando conversa fora para combater a solidão. Também mulheres no sol em torno de seus bebês, falando sobre como foi a semana ou sobre o aumento do preço da carne. A melhor conversa é sem arte, sem cálculo.” Essa opinião, do jornalista e escritor americano Joseph Mitchell (1908-1996), aparece no posfácio de um de seus livros, O Segredo de Joe Gould. Assinado por João Moreira Salles, o texto perfila o homem conhecido por saber ouvir não só com os ouvidos, mas também os olhos. Mitchell é considerado um dos repórteres mais importantes do século XX. Foi um grande observador do lugar incomum. “Para falar a verdade, depois de um tempo comecei a achar que, se tenho algum talento, ele nasce do fato de eu não me chatear com facilidade. Posso ficar ouvindo qualquer pessoa indefinidamente”, disse. Faz sentido, mas parece difícil. Basta pisar na rua (ou na internet), no supermercado, no banco, para sentir que todo mundo fala, aponta o dedo, responsabiliza o outro e se apropria da razão, mas quase ninguém tem paciência. Às vezes é assim até em casa ou entre amigos: sobra pressa, falta espaço. Mas como se cria esse espaço?

“Ao conversar, ampliamos os modos de ser e de se entregar ao outro. O importante não é se posicionar, se opor, se impor nem propor. O importante é a exposição, com tudo o que ela trouxer de vulnerabilidade e risco”. Leio essas anotações em um caderno. A caligrafia é minha, mas as reflexões são de Luiza Helena da Silva Christov, mestre e doutora em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professora e pesquisadora da Universidade Estadual Paulista. Eu a conheci em um curso de história oral, onde me dei conta que nunca havia pensado no ponto de interrogação como um anzol. É o que é. Procurei Luiza na Unesp, levando meus anzóis.

No momento, ela orienta uma tese sobre conversa. Com o objetivo de observar o que acontece durante uma “conversa pela conversa”, outro dia sua aluna levou uma máquina de escrever ao pátio de um centro cultural bem movimentado. Sentou-se no chão e começou a datilografar. Instigados pela cena, homens e mulheres chegavam perto, faziam perguntas e engatavam um diálogo. A menina anotava à máquina. As pessoas, à vontade, se abriam com ela. No fim, pareciam revigoradas pela experiência incomum – talvez fosse o sentimento de ser autor da própria história. “Mesmo onde parece não existir mais conversa, um gesto ou provocação pode aproximar e conectar”, diz Luiza. E por que estudar “a conversa pela conversa”? “Porque quanto mais a gente está na frase curta [o digitar, a vida online], mais deseja a frase longa. As pessoas querem falar e precisamos saber conversar para viver melhor, para que sociedade, cidade e urbanidade se realizem.” A busca é ambiciosa? Sim, e bastante legítima. “A boa conversa é um acontecimento que atravessa as pessoas, que faz sentido. Não é necessariamente indolor ou alegre. Mas é uma experiência.”

***

Não há um jeito único de conversar e viver é arriscar. Para cada conversa entre amigos e conhecidos, superficiais ou profundas, existem outras tantas com finalidade definida, bem como as surpreendentes e as imprevisíveis. Fora todas as conversas de aproximação, de aprendizado, as tristes e as repletas de contentamento. Conversas enfadonhas das quais não dá para fugir. Conversas de trabalho, negócios, elevador. Conversas desafiadoras, interlocutores mais ou menos generosos. Discussões que nos despertam e outras que apenas desgastam, por nos tirar da zona de conforto, porque há gente maldosa ou porque naquele dia “estamos” menos do que em outros. Em comum, para dar certo, é um bom começo entrar em cada uma delas prestando atenção. No trajeto, reduzir os embates. Às vezes nossos medos e fragilidades funcionam como lentes de aumento diante dos problemas: será que vale comprar essa briga ou é melhor deixar pra lá? A ver.

Escuta – E se a palavra não é o único mediador de uma boa conversa, podemos acreditar que a escuta (da voz e dos gestos) é um elemento unificador. Escutar é prestar atenção e se abrir para a vida com curiosidade. Parece óbvio, mas é mais difícil do que ouvir. Exige esforço, treino e entrega. “Só a curiosidade evita que o sujeito se enclausure nele mesmo. Na conversa, precisamos abrir espaço para o novo, esvaziando-se de certezas, confiando no que o outro pode trazer”, observa Luiza.

Há vinte anos, Carlos Correia escuta. Ele é voluntário na ONG Centro de Valorização da Vida, o CVV, uma instituição de apoio emocional. “Em geral, quem liga quer ser acolhido, achar inspiração e conforto, desabafar. Essa pessoa vai arrumar gavetas e nosso papel é deixa-la encontrar na própria fala as formas de organizar esses espaços.” E o que esses vinte anos de escuta fizeram por você? “Estou mais paciente e tolerante e presto mais atenção no que dizem e deixam de dizer. Há dias mais e outros menos difíceis. Houve uma vez em que a pessoa simplesmente parou de falar e ficamos muito tempo quietos. De repente, ela isse que não sabia como eu suportava aquele barulho de relógio. Demorei para entender, mas percebi que era um relógio de parede próximo a mim e, para ser sincero, eu jamais o havia escutado. Foi uma descoberta. Nós rimos.”

Silêncio – Falar demais (ou de menos). Falar sem parar. Não ouvir. Ouvir, apenas, sem fazer perguntas. Dar de ombros. Nada disso dá muito certo, há que se encontrar algum equilíbrio. A escritora americana M. F. K. Fisher (1908-1992), que escrevia sobre comida, tinha dezoito anos quando seu tio preferido a convidou para viajar com ele da Califórnia para Chicago a fim de mostrar a ela novos mundos. A experiência não era menos do que extraordinária. Um dia, juntos no restaurante do trem, os dois observavam o menu quando o tio perguntou se ela preferia omelete de cogumelos frescos ou de aspargos. “Tanto faz”. Furioso, Uncle Evans deixou o cardápio de lado e em tom severo disse a ela para nunca mais resmungar daquela forma, dando a impressão de que, não só a omelete, mas seu anfitrião, eram desimportantes. “Antes de abrir a boca, nem que seja mentira, tome uma decisão e diga o que prefere.” Não era mera formalidade, explicou depois, mais calmo. “Um dia você vai entender que isso tudo tem a ver com autoconhecimento”. Fisher desejou ir embora e chorar. Mas ficou, respirou, comeu a omelete (de aspargos). E se sentiu mais segura e sabida. No futuro, ao relatar o episódio em um de seus textos, ela parece grata àquela conversa que a despertou para a importância de ter, e demonstrar, consideração pelo outro.

Imagino que um homem vivido como Uncle Evans provavelmente concordaria que sempre há nas boas conversas, geralmente aquelas amparadas na empatia e na cumplicidade, um lugar especial para o silêncio – quando não dizer nada, sem ser indelicado, quer dizer muito. No filme Rapsódia em Agosto, de Akira Kurosawa, há uma cena delicadíssima sobre palavras guardadas. Na história, um grupo de adolescentes passa as férias de verão com a avó em Nagasaki, enquanto seus pais viajam para os Estados Unidos a fim de conhecer uma parte da família que vive no Havaí. Isso ocorre 45 anos depois da explosão da bomba atômica, quando vovó perdeu seu marido. Um dia, ela recebe a visita de uma amiga. As crianças espiam de longe. Elas tomam chá juntas. Passam horas, muito tempo mesmo, sentadas frente a frente sem trocar palavra. Nada. Zero. No habitual encontro noturno, quando vovó conta histórias para os meninos, um deles pergunta por que afinal elas ficaram mudas. A avó explica que sua amiga também perdeu o marido para a guerra e que, às vezes, elas só querem estar juntas. E basta.

Entrelinha – “Por que você gosta de conversar comigo? Isto é, supondo que você realmente goste…” Fiz essa pergunta a alguns amigos queridos – depois de tanto ler, refletir e conversar, já (quase) duvidava da minha capacidade de ser. É confuso, Confúcio… O universo é reduzido, porque nem toda conversa se dá entre amigos. De qualquer maneira, foi um exercício rico, mais rico do que poderia expor neste espaço. Eu nunca tinha parado para pensar que em nossas conversas escritas e faladas “falamos como somos, sem precisar mascarar, disfarçar ou pedir desculpas, por achar que poderíamos ser melhores do que parecemos…”. Somos quem somos. E há os descaminhos. “Temos sempre um ponto de partida e a chegada é um mistério.” De um extremo ao outro, risadas, atalhos, cambalhotas, palhaçadas. Olhos marejados. Cheiro de comida. Pausa para respirar e, nela, surgem surpresas e descobertas. Que conversa boa, e viva.

“Quando eu era menino, o que mais gostava nos livros era nossa imaginação de criança completar o que eles nos contavam, nas entrelinhas”, disse o cineasta alemão Wim Wenders, no documentário Janela da Alma. “Quando comecei a ver filmes, eu também queria ler nas entrelinhas e naquele tempo isso era possível, você podia ler entre as imagens. Em um filme de John Ford, por exemplo, havia espaço entre as tomadas. Atualmente, na maioria dos filmes não há mais espaço para a gente inserir os sonhos.” Espaço para inserir os sonhos. Desejo que suas conversas tenham essa abertura. Sim, pois falam, escrevem e calam as pessoas. Conversam conosco, cada qual a seu modo, os livros, os filmes, os textos. Em todas as narrativas, porém, é maravilhoso transitar nas entrelinhas. Sabemos conversar? E sonhar nas entrelinhas?

Viviane Zandonadi vai indo, e você? Tudo bem?

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