Do que eu falo quando eu falo de comida

Vou escrever um livro, mas o quando ninguém sabe, ninguém viu. Também o que vou colocar dentro dele é um mistério. Só sei o nome: “Do que eu falo quando eu falo de comida”.

Nunca li os comentados romances de Haruki Murakami. Não poderia fazer isso neste mês, porque estou no meio de uma pesquisa de livros curtos. Minha editora recomendou “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, que não é romance, mas tem o tamanho do recorte: 150 páginas. No prefácio, decidi trocar corrida por comida. Mesmo se eu não gostar do livro, já me deu muito.

Você, por exemplo, que vem aqui de vez em quando forçado pela nossa amizade ou porque fez alguma pergunta estranha para o Google – capaz até de vir por gosto, pois aparece cada barbaridade nas buscas e prefiro acreditar que você, em especial, não procurou aquilo. Mas, então, sabe do que eu falo quando eu falo de comida?

Acho que falo da vida. Não sei.

Quando falo de comida falo do sujeito que ao adormecer lembra que no dia seguinte tem feira e essa perspectiva afasta as preocupações muitas por um instante e o leva a um sono bom, por causa do pastel com caldo de cana. Memória em seu lugar quentinho.

E memória de comida é a vida da gente, no que sobra e onde falta. No que é seco ou suculento. Às vezes é quebra-cabeça, em outras é caderno de receita. Colagem. É coxinha em tamanho coquetel que sua avó fazia. Tomate transparente de tão fino na salada de almeirão. Vinagre, sal e pimenta do reino (…). Torta de liquidificador. Macarrão no varal. Frango assado. A pele do frango assado sem culpa aos domingos. Churrasco, linguiça e maionese. Raspar o arroz grudado no fundo da panela (acho que aquilo tem um nome, lembra? Já escrevi sobre isso…). Pipoca e provolone na praça da matriz.

Mercado, peixe, açougue. Quem são essas pessoas que pescam, o que sabem as que vão buscar? Como preenchem as horas quando não estão na frente do freguês? E essa mulher, que limpa o peixe no mercado? O que pensa aquele homem que passa o dia todo entre paletas e músculos, filés e patinhos? Cinco da madrugada, na roça beberam o café e levaram uma marmita para a hora em que o sol estiver insuportável e a fome os empurrar para o almoço. Planta, irriga, espera, colhe. “Quando eu tinha nove anos, picava cebola para me distrair no sábado de manhã, só porque não tinha escola e me sentia livre. E lambia o prato de feijão”. Um carbonara no almoço de solidão miúda. Comer com quem gosta de comer. Afinidade gastronômica.

O infalível barulho do espremedor de laranja na casa do vizinho. Sempre na mesma hora, me lembra que também eu preciso parar. Suspiro. Glacê. Cocada. Sopa de café com leite e pão. Uma lata de leite condensado. Esvaziar a tigelinha de brigadeiro com a colher pequena, porque assim demora mais para acabar.

O filho que não limpa o prato e magoa a mãe. A mãe desapontada se sobrou comida. A mãe preocupada se o que fez não foi suficiente, se salgou demais, adoçou de menos. A água. A receita da qual a gente nunca lembra é o melhor pretexto para telefonar. Por que não fiz mais vezes aquele bolo de nada?

O que me tira do sério: a refeição em que a conversa é tão escassa, não por causa da cumplicidade que preenche todos os espaços, mas da pretensa falta do que dizer. O hábito do descuido, de ensimesmar, de não olhar. Há dias em que essa ausência faz ouvir no detalhe a mastigação. Até a onomatopeia (chomp, chomp) dá nos nervos. E reparo no modo como as pessoas mastigam. Mordidas fortes, mordidas molengas. Uma mordida por segundo e o barulho é parecido com o do ponteiro do relógio. Alguma coisa acontece, porém, quando os loucos do barulho tem filho: os guris podem mastigar à vontade até colados ao nosso ouvido. E não incomoda.

O que me envergonha: tenho o esquisito costume de prestar atenção demorada no prato do outro. O que pegou, não pegou e imagino os motivos. Reparo no modo como edita a comida. Se fica alagado de feijão. Se sobre ele amontoa o arroz. Se prefere separar. Posso lembrar dos amores da minha vida assim, no acomodar das coisas em prato de comida. Não é talento, só um tipo particular de catálogo emocional. Uma neurose, provavelmente.

Do que eu falo, afinal, quando falo de comida? Os não-dias estão fazendo crescer cobras em minha cabeça. Quero encontrar um lugar e escrever meu livro. O que eu vou dizer e que história vou contar? Não sei.

Um pensamento sobre “Do que eu falo quando eu falo de comida

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