Lugar incomum

arrietty

arrietty

Imagine se em algum ponto cego da casa, no batente oco da porta, embaixo do assoalho e acima do gesso, houvesse um mundo de gente miúda. Os pequeninos. Cada pessoa é menor do que um grilo e maior do que uma formiga. Tudo o que ela quer é viver em paz em um lugar seco e quentinho. Um teto todo seu. Na condição de existir, o pequenino adota um modo de ser completo e resistente, contido em seu tamanho e contornado à perfeição no esforço de ser invisível, porque quem é invisível não incomoda ninguém.

Um pequenino, se não é visto, não há nem está. Um pequenino não pede ajuda, não telefona nem escreve. Também não bate no vidro do carro para nos lembrar que a vida é transitória e surpreendente. Um pequenino não é para quem não o sabe, portanto jamais é ignorado, evitado ou esquecido. Assim zeloso de sua impossibilidade, sempre escondido, dá pouca oportunidade a qualquer focinho de fome que possa farejá-lo. E são menores (do que o pequenino) as chances de ser engolido, chutado, pisoteado de propósito ou escalado para um extraordinário número de circo.

Quando precisa de mantimentos, um pequenino não vai ao mercado, onde tudo lhe é demais. Sai para coletar à noite, ao apagar das luzes, na despensa de pacotes começados. Alguns poucos grãos, gotas de leite, farinha, folhas, papel higiênico. Objetos perdidos e esquecidos pelo caminho são reaproveitados. Um alfinete vira uma espada. Um retalho, cortina. Para os grandes, os “normais”, aquelas subtrações não significam nada.

O Mundo dos Pequeninos é uma adaptação do livro The Borrowers (1957) e tem roteiro de Hayao Miyazaki para o estúdio Ghibli. A história se passa em 2010. A menina Arrietty e seus pais acreditam ser os únicos sobreviventes do povo minúsculo que habita casinhas de boneca enfiadas nos cantos do mundo. Ela precisa aprender a se virar, porque logo estará completamente sozinha. Estará? Levam uma vida de desafios aumentados. Não podem jamais ser vistos, ou perdem seu lugar.

Um filme de animação muito bonito sobre o incomum que não tem morada. A vantagem de se proteger é conhecida. Os riscos e as possibilidades de se expor, imprevisíveis. Os pequeninos sabem da existência dos outros, claro. Os outros, grandes, dividem-se em três grupos. Além dos que atribuem aos miúdos o status de lenda (ou não pensam muito sobre isso), há os interessados desinteresseiros (curiosos) e os maldosos (interesseiros e oportunistas, em geral truculentos e intolerantes).

***

No meio do mês e em estado de abismo, vi O Mundo dos Pequeninos e comi duas fatias de pão de forma bastante macio, branco e perfumado. Sobre generosa camada de maionese, lâminas muito finas de queijo e presunto. Agarro com os dentes. Uma, duas, na terceira mordida sinto um grão de areia. Poeira do tempo. Não aflige nem dá medo de dente quebrado, mas arranha o suficiente para lembrar dos piqueniques na praia e daquele sanduíche embalado em papel laminado, para a escola. Em caso de tomate, por pouco não se desmanchava antes da hora do recreio. Agora é passado, comi as preocupações todas. Depois parti ao meio uma atemoia. Ela parecia me encarar, feito o vizinho Totoro.

Comi também. A vida miúda é mágica. A atemoia, doce. Superdoce.

totoro

totoro (ou atemoia)

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