Liberdade (ou mesa para um)

“todos os homens se dividem, em todos os tempos e também hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista, comerciante, funcionário ou erudito” (nietzsche)

A fumaça que saiu da panela parecia trazer o gênio da lâmpada. Desenrolei mental e instintivamente a lista de desejos. São muitos os plurais. Dias frios e molhados. Dias frios e azuis. Estradinha depois da chuva entre montanhas. Dinheiro para viajar e não perder nenhum outono. Livros. Noites estreladas no meio do mato. Um lugar para voltar. Papel, lápis e quietude. O ruído distante das louças se tocando, o farfalhar de árvores cabeludas, a risada de menininha dando graça. Barulho de vinho despejado no copo. Trabalho, saúde, tempo. Comer. As condições para tudo isso são desiguais e oscilam, disse o gênio tentando negociar. Além do mais, comer é vago.

Não é vago, gênio genioso. É inegociável. Com fome, prefiro ser invisível. Porém sou apenas uma pessoa pior. Se esqueço dessa vontade, porque perdida nas tarefas ordinárias, estrago. Nem ouço nem enxergo e às vezes vejo mais do que gostaria – suporto a leveza temporária do jejum diminutivo e calculado, além de sua verdade desconcertante, só para liquidá-lo lá na frente.

Dias de fazer refeições sozinha, senhor gênio, sublinhe aí, sem alheamentos ou interrupções. Nenhum problema nisso, diz ele. Pois então o senhor se espantaria em saber, devolvo entre parênteses, que ainda há muitos constrangidos e desconfortáveis diante da mesa para um. Uma. Parece que se aborrecem. Acalmem-se, tento demonstrar que é transitório, não vou morar ali. Houve um dia em que acompanhei atentamente o entusiasmo do garçom. Nós dois no meio de um velho salão refinado e constrangedoramente vazio. Um piano ao vivo melancólico. A brigada alinhadíssima e desocupada. Ele, meu garçom, saiu do modorrento “Vou procurar saber se aquela mesa está reservada…” e passou por “sozinha, é melhor a senhora pedir tal coisa”. No fim, todo exclamado e aliviado, entregou-me a conta: “Aqui está a malvada, doutora”.

Mas não era nada disso que eu ia contar. Não sou mesmo um ser social. Talvez o que mais me agrade em ficar só seja justamente estar só. Me sinto livre e como pode ver quase desaprendo a conviver e a me expressar com clareza. Há exceções, saudade, consequência, pedidos de desculpa e momentos muito bons, claro. As amizades bonitas, estofadas e quentinhas, mais ou menos atrevidas, mais ou menos cuidadosas, são sempre boas de ficar tempo sem fim à mesa a lembrar do que importa de verdade.

Na segunda-feira, no entanto, era eu comigo. Lá pelas duas da tarde cozinhei para mim e senti felicidade. Anoto para lembrar por muito mais tempo. Felicidade é este sim um termo vago na amplitude, perseguido e ao mesmo tempo afugentado. Aprisionado nos clichês, mas bastante potente se existir de fato. Basta-lhe um segundo. Se faz, também, em um prato de comida.

Quando destampei a panela, o gênio do bacon escapou e liberou aquele perfume maravilhoso. Determinada a adaptar o carbonara, pensei que o risco coronariano seria anistiado em um ou dois copos de vinho bom. Aos pedacinhos fritos na própria banha – que em breve estaria acomodada em meu corpo como quem ocupa o lugar marcado no trem –, juntei um punhado de macarrão muito quente e firme. Escolhi esse casereccia (número 66, da marca italiana Cavaliere Giuseppe Cocco), feito de farinha de grão duro, água e mais nada. Adoro a sonoridade da marcação no pacote: “acqua freda di sorgente”. Invento para me agradar que o formato é obra de um artífice prodigioso (desconheço a verdade. Quem sabe?). Sei que é simples e forte, não chora o molho derramado nem quebra facilmente. Estou na terceira embalagem: basta cozinhar em água salgada como o mar, sem ofender o ponto.

carbonara

“carbonara” adaptado ao modo meu; e no caso usei espaguete – foi outro dia daqueles

De volta ao piquenique de gostosa solitude, onde posso comer na sala, TV ligada, sem ninguém ver e quando não preciso sair correndo para levar criança pequena e fofinha e macia para fazer xixi bem ao preparar a primeira garfada. Achei conveniente juntar à mistura de bacon e pasta um pouquinho de manteiga e outro de azeite. Corrigir o sal, botar pimenta moída na hora, um punhado de parmesão ralado. Quebrei sobre isso tudo um ovo caipira que em contato com a massa quase cozinhou, igualzinho ao que me ensinaram. E mais queijo. Esse vaivém de pouco método e bastante apetite em vez de tombar a receita terminou em macarrão cremoso e acolhedor. Depois de uma dentada na gordura de porco, miúda e intensa, que derreteu na boca e desapareceu chamando a próxima, passou ligeiro uma reflexão realista. “Essa coisa maravilhosa se deita na carótida prometendo abreviar meus dias”. Paciência.

Sentei no chão. Prato sobre a mesa branca de fórmica, contornos de ameba. Ali, livre e contente, Revi o delicioso Conto de Outono (1998), um dos palavrosos filmes do cineasta francês Eric Rohmer. Parti o pão, fiz scarpetta, goles prolongados. Magali sai do vinhedo e lava as mãos e os braços até o cotovelo, enquanto conversa com Isabelle. Falam do parreiral orgânico, onde vivem os sonhos? No quintal sombreado, queijos, maçãs, amor e filhos que fogem com o tempo. Vou comendo devagar, porque não quero que acabe. Nostalgia do antigo Top Cine, na Paulista, quando não precisava riscar o chão para conseguir uma poltrona e onde conheci os Contos Morais e esses, os das Quatro Estações.

Aquele almoço comigo foi tão bom quanto comer direto da travessa e em pequenos bocados o pavê de bolacha champanhe feito pela minha irmã todo fim de ano. Quando ela oferece, nunca quero. Depois do café, porém, começo um sem fim de abrir e fechar a geladeira ao longo da tarde para meter a colher no doce. Sempre uma colher nova, que descarto na pia. E assim vai até não mais me erguer, cochilando com o livro sobre a/na barriga cheia.

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