Jabuticaba sem vergonha

Voltei da feira de braço com a parente da pitanga, algo adiantada. Tento adivinhar se já está tão boa que desconcerta o paladar. De todo modo, ela prometeu exuberância na alta temporada, no tempo da safra espontânea, dos troncos cobertos de bolinhas pretas. Disse que não faltará até meados de novembro. Carreguei, portanto, de um lado a caixa grande e gorda de jabuticaba e do outro o pastel da manhã e o suco de cana.

Ao vencer os vinte e um passos até o portão, ouvi seu cheiro eloquente, franco, animado, e antecipei minha ruína moral – logo menos, enroscada em esquemas domésticos, comeria uma atrás da outra sem parar e sem pensar nos ausentes, impedidos de defender sua parte. Comeria até acabar, logo de uma vez ou aos poucos, a pretexto de pegar qualquer coisa na pia. A culpa tangencia, mas escapa. Afinal, cada jabuticaba guarda dentro da casca negra e fina e firme, que espoca quando arrebenta, um quintal de sítio e um mundo deitado à sombra, barriga cheia, chapéu na cara, pernas cruzadas e cochilo. Nesse mundo o telefone não toca, ninguém grita nem entrega notícia ruim demais. O jeito é comê-lo, de tão gostoso.

jabuticaba sem vergonha

jabuticaba sem vergonha

Importante levarmos às próximas edições dos dicionários talvez um substantivo carnudo ou, ainda melhor, um verbo suculento definido por “comer uma jabuticaba atrás da outra voraz ou tranquilamente; comer jabuticaba sem parar, às escondidas ou às claras, como preferir e for conveniente; comer jabuticaba e não pensar em mais nada nem em ninguém”. Só me faltam as duas palavras que funcionarão de invólucro para a verdade.

Desconfio que a tecnologia da comida deveria investigar o ‘não sei o quê’ da jabuticaba. O sujeito que descobrir o que a faz ser tanto enriquecerá. Tem alguma coisa. Quiçá é o glutamato monossódico doce natural. Tudo o que tem esse ingrediente incita obsessão. O glutamato monossódico é uma espécie de photoshop do sabor ou sabor artificial de sabor natural. É largamente usado na indústria alimentícia que canta: ‘realce, realce, quanto mais purpurina melhor’, enquanto conta dinheiro e você tenta sarar da azia. Por causa dele, quando ainda na fila do caixa e atrás do moço atrapalhado para recarregar o celular, deixo o olhar cair sobre um daqueles malditos tubos de batata frita ou um potinho de amendoim japonês, que em geral como escondido para não dar exemplo.

Com a jabuticaba só não chego ao ponto do Farrapo Humano, que escondia a bebida atrás dos livros ou no lustre pendente no meio da sala. Mas já escondi de mim a batatinha, atrás do uísque. Daí toda vez no meio de uma maratona de Snoopy e Charlie Brown eu avisava que ia dar um pulinho na cozinha. Tinha de subir na escada para alcançar lá no alto…

Fruta predileta? Espantosamente, não. Minha seleção titular levaria figo, caqui, caqui-chocolate, banana-prata, mexerica, morango, abacate, pera, uva, kiwi e atemoia, que me faz comer pensando em teimosia, numa espécie de sinestesia semântica. Cajá-manga, trunfo para fazer suco, e caju, na reserva com a jabuticaba. Ainda assim, hoje comi quase um quilo. Sozinha. E não sei como explicar. É essa alguma coisa irresponsável que a jabuticaba tem. A jabuticaba é ao modo sem vergonha. Não adianta esconder. Nem dá tempo.

 

3 pensamentos sobre “Jabuticaba sem vergonha

  1. Pingback: Palavra de café (da manhã) | do que eu falo quando eu falo de comida

  2. Pingback: Questão de jabuticaba (e paciência) | do que eu falo quando eu falo de comida

  3. Pingback: Sensação de coisa mínima | Do que eu falo quando eu falo de comida

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s