Hoje não fiz nada

A cama me empurrou. Li na madrugada, de modo que nunca chega a hora de levantar. Coei café, espiei jornal, e-mails, paguei contas e, igual ao mês passado, tentei adivinhar de que modo farei isso no mês que vem. Deixei as aflições na cozinha. Havia trazido do mercado, ontem, uma dúzia de botões de rosa. Surpreenderam-me agigantados, abertos em cor de pôr do sol (ou de aurora alaranjada).

Lavei louça, escutei notícias.Tirei a poeira, fiz a cama, mandei a máquina lavar roupa, botei para secar. Dobrei as outras. Guardei. Limpei os banheiros. Varri os cacos daquelas aflições para a gaveta dos recortes não lidos e que sempre sei aonde encontrar. Tirei o lixo. Em intervalo largo, descemos para brincar.

Arroz na panela, feijão na pressão. Sequei ao forno finas rodelas de abobrinha envolvidas por fios de azeite e não muito pó de sal grosso. A textura não é a mesma das imersas em óleo quente nem daquele campo de força de gostosura que se forma ao seu redor. Mas, quase al dente, bordas crocantes, disputei-as no tapa comigo – a miúda não sabe o que perdeu.

Ovo frito. Botei um pouco de água para a beiradinha não torrar. Não torrou, mas foi mais ou menos tolice. A gordura quente demais é explosiva – não é assim que se faz. Temperei a salada. Almoçamos. Reservei o que sobrou do arroz para um bolinho de amanhã. Parmesão, abobrinha, ovo. Tudo.

Louça, outra vez. Tomei banho e mais um café. Sentamos juntas com vista para o mar de prédios. Disfarçada, (dis)farsante, assisti o tráfego aéreo, que aumenta à medida que a tarde avança. Ela obrigava pôneis, fadas, bruxas, princesas e “princesos” a encenar folhetins dramáticos. Amor verdadeiro, melhores amigos, sequestros e resgates. Muita magia. Fizemos alguns jogos de adivinhar. Foi divertido. Então ela se cansou de mim, pois me entusiasmei demais para a paciência de seus três anos.

Mal pesquisei alguns assuntos para escrever e agora era hora do lanche da tarde. Piquenique de mexerica e biscoito coberto por geleia. As bonecas também comem e se lambuzam. Limpo depois.

Volto aos livros. Não frito nada, mas leio na teoria da fritura (A Fisiologia do Gosto) que

“Pelo seguinte método sabe-se que a fritura está quente no grau desejado: corte um pedaço de pão e o mergulhe na frigideira durante cinco a seis segundos; se ele estiver duro e tostado ao ser retirado, opere imediatamente a imersão; caso contrário, aumente o fogo e repita o teste.
Uma vez operada a surpresa, modere o fogo para que a cocção não seja muito precipitada, e para que os sucos contidos no alimento sofram, por meio de um calor prolongado, a transformação capaz de uni-los e realçar seu gosto.”
(…)
“Entretanto, não esqueça, quando receber umas daquelas trutas que mal chegam a duzentos gramas de peso, e que provêm dos regatos de água límpida que murmuram longe da capital, não esqueça, repito, de fritá-las com o mais fino azeite de oliva que tiver: essa iguaria simples, devidamente temperada e realçada com fatias de limão, é digna de ser oferecida a uma eminência.”
(…)
“Essas duas prescrições também têm por fundamento a natureza das coisas. A experiência ensinou que o azeite de oliva só deve ser usado em operações que se realizam empouco tempo ou que não exigem grande calor, porque a ebulição prolongada desenvolve nele umgosto empireumático e desagradável oriundo de algumas porções de parênquima, das quais é difícil desembaraça-lo e que se carbonizam.”

Tão logo pensei nas trutas delicadas e nos riachos cristalinos, veio o volume morto me atormentar – a água, o extrato bancário, um destino pragmático para as palavras fritas.

É hora de pensar o jantar.

No açougue, pedi para moer 500 gramas de patinho. Enquanto esperava, assim, como quem quer logo tudo de bom, peguei uma porção de bacon. Os bolinhos de carne ficaram delicados e suculentos, porque ao ovo de capoeira e à farofinha levemente salgada, de biju, misturei metade de uma cebola, dois dentes graúdos de alho e o punhado de bacon passado, presente e futuro, no processador.

Esse forno meio manco, algo torto, pedia para girar a assadeira de vez em quando, mas bronzeou direitinho. A gordura do porco molhou a carne magra e limpa. Um suco de verdade, saboroso, ainda que acanhado. Como boa fritura, sequinha por fora, a almôndega pode ser comida com as mãos. Beijada pela mostarda. Depois é só lamber os dedos.

Perto da meia-noite terminei o copo de vinho, resmunguei mais um pouco. O silêncio que diz tanto. Acho que vi na internet uma tartaruga furiosa jogando bola com um cachorro. Vi?

Hoje não fiz nada. Agora vou ler.

Um pensamento sobre “Hoje não fiz nada

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