Feijoada incompleta

Quinze graus. Clima de ponta do nariz sempre molhada, umidade de desconcertar o cabelo e subtrair a autoestima arrancada do espelho, ainda embaçado, com a força do secador. É sábado de procurar abrigo na feijoada e, ao repartir o pudim de clara em neve, saudar uma amiga que está de aniversário. Estamos todos lindamente descabelados, mas venceremos – desde que alguém consiga chegar cedo para nos tirar da espera. Uma vez dentro, porém, não demora para o sistema de autosserviço mostrar seu fervilhante caldeirão de hostilidade.

Minha primeira parada seria a couve que brilha, crocante. Só que o moço à frente não quer verdura, apenas bacon miudinho. Sozinho no mundo encantado da gordurinha tostada, desembaraça um a um, separando-os das tiras verdes e bem cortadas por alguém que acordou cedo. Éramos cinco, agora somos nove. Esperamos que todos os vazios de seu prato sejam preenchidos. Aperto os olhos para lembrar da melhor frase já estampada em para-choque do Facebook e que ajuda a evitar confrontos violentos no dia a dia ordinário: “Todo mundo que você encontrar, na vida, está por aí lutando uma batalha que você desconhece. Seja sempre gentil”.

Por esse triz é que não toco o braço do gladiador e indico a mesinha de aperitivos onde há um balde cheio de cubinhos fritos, sem couve nem fila. O luminoso da batalha desconhecida brilha na trama felpuda do seu blusão de veludo cotelê. Não faço nada. Seria eu mais gentil e boa e melhor se o arrancasse desse transe ridículo? Não sei. Se ao menos não demorasse tanto, eu teria deixado de perceber que alguma caspa lhe cai sobre os ombros. Parecem bonitos, porém, os ombros. Bem largos.

O aroma de feijão cozido e temperado é assim perturbador. Perfura poços de vazio interior, seca a paciência, cozinha ideias nem sempre edificantes. Pode-se apalpar a tensão do amontoado de gente pretensamente tranquila em dia não-útil. Voluntários em desafio social. Cada um por si. Há os que realmente não estão nem aí, os que fingem que não estão, os que trocam perdigoto por torresmo, falando sem parar, e os que se apavoram com tanto desprendimento.

Sobre perdigotos, aliás, dá para ouvir as reflexões desesperadas de uma das trinta e sete moças de preto, aquela entre aspas e interessante, meio que isolada de seu grupo, olhar perdido como se estivesse tentando resolver a fome do mundo. No fundo, está pensando o seguinte: “Alguém devia distribuir máscara na porta. Vai papear na fila do serve-serve? Tape a boca, por favor. Mas… espera! A mão! Ai, que nojo, vai segurar com ela o cabo da concha… Será que essa gente lavou a mão? Todos muito bonitinhos com cara de salvador da Cantareira. Duvido. Não. Estou ficando maluca”.

Assim a fila anda, devagar e divagando na ponta do pé para não quebrar ovos. Desejos suprimidos, satisfações adiadas, paranoias muito vivas.

Enquanto espero, vejo que no tráfego da feijoada incompleta misturam-se, portanto, quatro tipos:

1) Os que invariavelmente começam pelo arroz branco e em geral cumprem etapas no automático da superfície. Mastigam, porque precisam. Saboreiam, porque é o que se espera deles. Jamais empacam a fila em seus detalhes.

2) Os que desejam a feijoada lentamente preferem antes de mais nada cobrir o fundo com feijão. Costumam ser cordiais, sossegados. Distribuem a comida de um jeito particular. Aproveitam. O caldo é represado na calculada disposição das carnes e tangencia o relevo da farinha dourada, conduzindo-se por um vilarejo tranquilo. Eles não se deixam afetar. Suportam melhor a instabilidade alheia, fazem caber ainda que tudo pareça prestes a transbordar. À mesa, se demoram ao mastigar, não se afobam. Estão dispostos a arriscar a própria vida ao separar o bacon da couve, desafiando a lógica da paciência. Acima da média essa gente… Só por causa dela não nos pegamos ainda mais. Só nela encontramos algum equilíbrio.

3) Há, por fim, o tipo avoado, que também mastiga direitinho, mas, até chegar lá… está igualmente disposto a separar o bacon da couve e desafiar a lógica da paciência. Basta não haver sequência determinada nem regra definida para flanar até na fila do self-service como se estivesse em tarde de folga. Dentro dele, aliás, a tarde de folga é sempre Paris. Ele precisa de romance. Precisa da tal desordem no armário embutido do poeta, de paletó que enrosca no vestido e tudo bem. Protagoniza um vaivém entre as panelas, compõe o prato de um jeito espontâneo. Quase ao acaso. Ergue os ombros aqui, desculpa-se ali e dá uma licencinha, por favor, que esqueci a laranja. Leva quase tudo no improviso. Antes de começar a comer, larga um suspiro profundo.

4) Os outros.

A moça de preto, que oscila entre aspas, trombou com um sujeito de número três na saída do lavabo. Repito: na saída do lavabo. Lavou as mãos antes de comer.

Se apaixonou, está perdida para sempre.

Fim.

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