A descoberta do mundo

Era uma vez o dia em que consegui finalmente abrir a geladeira sozinha, sem ninguém maior por perto para proibir ou ajudar. Não sabia dar nome à euforia e não podia realizar que estava atordoada. Dez segundos elásticos e impressão de trinta até ouvir “não é televisão, fecha”. Talvez tenha sido minha primeira crise de labirinto emocional e profunda incapacidade de escolher. Medo, fome. É muita coisa para lidar, além de tudo na vida.

A origem dos cabelos em pé quando tenho em mãos cardápios quilométricos, páginas que não acabam nunca, pode estar naquele tempo em que comecei a pensar diante da geladeira, quando descobri que surpreender a comida é importante. Ela se interrompe quando a gente chega e liga a luz. De qualquer maneira, tantas portas abertas e fechadas depois (às vezes batidas na raiva), é no refrigerador que trato algumas questões ordinárias, domésticas e de fome – além de garganta travada, angústia, tédio, saudade e sapo engolido. Abrir, assustar uns legumes e sair de mão vazia, liberando um suspiro, tem sua utilidade. E há sempre um departamento pronto a guardar o não-resolvido. Pego um doce, talvez, e deixo em seu lugar um pedaço de dia ruim. Um afeto torto.

Somos, eu e a geladeira, cúmplices. Feito gente em condomínio, a comida ali dentro se amontoa bem (ou não), é separada e cheia de motivos – até o esquecimento é uma boa razão para estar lá. Certa vez, botei um amor doído na gaveta de hortaliça. Não adiantou. Quando trancado, ele ficava perto demais de uma conserva provençal, um equívoco guardado na porta. Consumiram um ao outro e fim.

Hoje, do lado de fora, a Sophia Loren que dá em banca de camelô garfa o espaguete e sorri sua beleza infinita enquanto segura umas fotos da gente. Perto, escrita à mão, a carta colorida daquele domingo. Tem quase um ano que chegou passando açúcar em dia solar e muito difícil. Junto dela, lembro bem, veio uma torta de maçã, um crumble manuscrito de comer. O destino do chá inglês foi a caneca de porcelana onde se vê estampada adorável kokeshi.

Respiro fundo e abro a porta e assusto um mamão meado, que relaxa ao lado de um bocado de bolo de morango: pão de ló, recheio de fruta, cobertura crespa de chantili e suspiro, do tipo que é melhor no dia seguinte. Avizinham-se queijo fresco (por que junta tanta soro?), lasanha, linguiça. Empilhadas, as travessas de vidro transparente denunciam: são vítimas da cozinheira temerosa que sempre frita mais lombo acebolado do que vai usar. Massa para tapioca, ovo caipira, leite, mostarda, geleia, suco de uva, presunto, requeijão, água com gás. Patê. Tanta coisa e nada. O chocolate em pó que sobrou do último brigadeiro ao lado da caixa do chocolate em pó que sobrou do penúltimo brigadeiro. Engavetados, laranja, limão, alho-poró e abóbora japonesa. Uma porção de farofa de biju, uva passa e abacaxi. O bife-bebê espera, em sal e pimenta, a hora de virar milanesa ao forno. Uma garrafa aprisiona o vinho crocante que faz espuma nos dias festivos e põe graça de pecadilho em todos os demais.

Fecho. Audrey Hepburn e Gregory Peck vieram de vespa para pedir: ao menos desta vez leva a lista de compras no mercado, por favor? Coador de papel, vela para o filtro de barro e sabão de coco. A boneca descabelada e desmilinguida de cabelo cor de laranja tem ímãs no lugar dos pés e das mãos e os usa para exibir o cardápio da escola da menina: as únicas três colunas avisam que estamos em semana abreviada por um feriado. São três dias úteis e os demais, os importantes.

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a descoberta do mundo

a descoberta do mundo

Pois chegou a vez da miúda, a herdeira dos meus substantivos, adjetivos e espantos, conseguir o que tentava há meses. Entendeu que se usasse o polegar ou o indicador para descolar a borrachinha poderia ver com os próprios olhos o estoque de iogurte. Dias depois o requeijão vencido aproveitaria o escuro para sussurrar no ouvido da geleia francesa que algo extraordinário aconteceu. A luz, disse a geleia, se sentindo na montanha russa (estavam próximos demais, os dois, e a compota havia jurado fidelidade ao pão de forma que por sua vez promete ser integral… e ela acredita). “Foram aqueles olhos grandes que piscavam lentamente, sabe? Um tecido verde acinzentado, brilhante. Fazia tempo que a gente não era enxergado por olhos de ‘primeira vez que abri a porta na vida’”. Pois a guria ficou por algum tempo observando. Prendeu ligeiramente a respiração até que sorriu e soltou uma risadinha gotejante. Fechou a porta e já se sabe que não é mais tudo como antes.

Tirar os sapatos antes de entrar em casa, sem ninguém pedir. Arrancar as meias e jogar para cima, liberdade. Subir a escada sozinha, entrar no carro sozinha, sair do berço sozinha. Brincar sozinha. Tudo isso ela faz bem há algum tempo. A geladeira, porém, página final do último capítulo da temporada, são outros quinhentos. Agora ela (acha que) pode pegar o presunto para alimentar o peixinho dourado residente na barriga. Tsc.

Abrir a geladeira para pensar, minha filha, é mais. Aliás, desconfie de quem não reflete diante de uns laticínios. Você descobriu a porta para o mundo, amor. São novos tempos muito loucos. A mudança mais imediata, aviso, é a seguinte: virão desde hoje e um após o outro, os dias lindos em que eu, deitada no sofá, poderei dizer sem largar o livro: “Filha…, pega por favor um Yakult pra mim? E fecha a porta da geladeira, tá? Não é televisão”. Vou também deixar uns bilhetes. Recados que serão promovidos a posições mais altas na medida em que você crescer. Bilhetes para que não esqueça que te amo tudo. Mas o que você vai guardar ou comer para lembrar ou esquecer, uél, é contigo.

(A propósito de manuscritos, ontem saiu um texto inspirado do veríssimo sobre. muito elegante. leia aqui).

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