Leite formidável como a chuva

Peço a gentileza de me acompanhar ao tempo da garoa insistente e da japona azul marinho de náilon comprada no Bom Retiro. Em São Paulo. Onde estava? O que fazia nessa época? Qual era sua japona e qual era sua garoa? Da janela pela qual eu enxergava o mundo, havia mais nebulosidade e menos evidência. Lá fora se prometia meio mágico, sabe? Era para onde ia quando crescesse. Havia muitas cortinas para abrir e foi assim por alguns anos.

Eu enfrentava os primeiros choques de realidade. Os primeiros tormentosos desafios de lidar com gente e também o cimento do quintal da pré-escola, que me rasgava o joelho e a alma à hora da entrada, em geralmente desastradas tentativas de fugir das freiras. Tenho marcas até hoje nas pernas, pois naquele tempo era normal molhar o algodão da água oxigenada para espumar a ferida. Ahã.

– Não quero ficar, pai. E se você morrer? E se quando eu voltar você e a mãe não estiverem lá?

Depois de tantos entretantos dramáticos e ataques de louca controladora, fui promovida. Chegar à primeira série era uma enormidade. Ia aprender a ler. Enfiar a cara no livro quentinho e passar mais tempo fazendo arranjos secretos de palavras dentro da minha cabeça. Ainda não eram segredos desejosos de porco preto perfumado, salame ou bacon. Em poucos anos estaria agarrada à coleção da Agatha Christie, por horas intermináveis na casa da avó Maria. Nos intervalos haveria macarrão mergulhado em caldo de feijão e o avô Otávio lamberia o prato sem olhar para os lados e voltaria ao seu lugar na sala como se nada fosse. Eu o imitava.

Naquele tempo, diante do espelho ou sentada na privada – sim, eu fabulava diálogos e histórias enquanto fingia que tomava banho, desculpe por essa imagem brutalmente verdadeira e pelo imperdoável desperdício de água -, fingiria que era apaixonada pelo detetive Hastings. Só por ele. Mas no fundo meu coração estava partido e a outra metade era do suspeito, amante da mulher do morto. Desejaria com força comer bolinhos e biscoitos e tomar chá com o Poirot e a miss Marple, mas eles desconfiariam das minhas ideias quebradas, pensamentos imperfeitos, inconsistências e contradições. Não conhecia nada, mas já sabia sem saber que há o inconfessável.

Antes de ler suspense, aos sábados e domingos e feriados de manhã não seria capaz de levantar da cama sem avançar na história dos pioneiros, a família de Laura Ingalss, que vivia em cabana de tronco e percorria o oeste americano. Wisconsin, Dakota, pradarias. Foi a primeira coisa que li todinha na cama depois das histórias de Hércules contadas por Monteiro Lobato e antes da trajetória da menina Heidi e seu avô, que na montanha comiam pão e queijo de cabra. Parava na página do lanche e ia para a cozinha chamuscar o queijo branco pregado no garfo. Metia-o no meio do pão francês e na primeira mordida, de volta à leitura, ouvia o chamado da mãe. “Viviane Maria…!”. Sim, tinha sujado a boca do fogão. Mordia outra vez, fingia que não estava lá e voltava a ler. Muito bom.

(é ridículo acordar hoje e esticar o braço para pegar o celular. Aquele que minha filha pensava até outro dia ser uma espécie de bicho de estimação (…). Finjo que vou conter as horas, para resgatar cinco minutos. A verdade é que faço uma ronda silenciosa atrás do que me foi dito ou ao mundo, entre a madrugada e a manhã. Melhor seria despertar a fim de ligar a luminária e ler, pena que geralmente nessa hora eu atribua ao tempo a culpa por me roubar a manhã. Feio.).

Na época em que aprendi a ler e a escrever a gente só saía de casa depois de tomar um copo de coragem. Era leite integral de saquinho – o plástico a mãe lavava e entregava para o hospital do fogo selvagem – batido com chocolate em pó e leite ninho. Quente, gostoso e encorpado. A receita que enchia de ânimo manhãs preguiçosas ajudava a atravessar tardes úmidas e que se pretendiam tristes. Ainda hoje sou capaz de pedir à mãe que me faça o leite, nas desmedidas dela, para inventar contentamento. Não preciso lhe dizer o que me angustia, só beber e esperar passar. Às vezes realmente passa.

Pois bem, ser promovida à aluna de primeira série me ajudaria a tomar distância das investidas de Claudio, o maior menino da turma, alto, cacheado e moreno. Por causa dele eu tinha cólicas e bocejava sem parar. Foram essas as primeiras manifestações de uma espécie de narcolepsia nervosa com dor de barriga emocional. Desde então sinto tudo no corpo. Senta aqui do meu lado, dizia o garoto na hora do lanche. Você sabe que é linda, largava ele em meu ouvido na hora da saída, sabendo onde tocar para que nunca mais o esquecesse. Conseguiu.

Com as mudanças, Claudio desapareceu da escola e parou de me empalidecer, de me deixar com frio na barriga desde o domingo à noite, na expectativa de vê-lo no dia seguinte. Até então, parecia estar para sempre ali, sem jamais chegar ou sair. Simplesmente estava. Não era ficção, pois sua morenice surge em algumas fotos daquele tempo – um quando, aliás, em que o leite não era um erro, mas alimento bonito, gostoso, gordo e rico.

 ***

Naqueles dias eu não pensava na intolerância à lactose. Não pensava também que mais de três décadas depois o ‘mundo melhor’ não teria sido descortinado diante dos meus olhos e que intolerância seria uma das palavras mais usadas em zilhões de situações diferentes. Para ficar só no campo na nutrição, agora encerra-se o assunto assim: unha encravada, falta de educação e mau humor? Intolerância à lactose. Minha dor de barriga por causa das investidas do moreno? Sem poesia. Intolerância à lactose.

A verdade é que quase ninguém tolera nada ou, pior, há adultos que nem amam nem toleram os próprios filhos. Há os que os matam em vida, de falta, e/ou de fato. O que diz da nossa realidade esse movimento que arranca-lhes a confiança, o sono largado, e as joga no desamparo, ou acaba com elas deliberadamente?

Não é de hoje, eu sei, mas faz falta justamente não saber que poderia ser tão ruim e real fora da literatura. Para conhecer o mundo em que vivemos, não basta só andar por ele. É preciso ouvir (e ler e sentir alguma coisa). Muito do que se vê não é bom.

As crianças precisam imaginar possibilidades tomando leite doce. Precisam poder inventar. O leite – ou qualquer outra bebida ou comida que lhes conforte a alma- não é um erro. Errado é dormir sem escovar os dentes, porque ninguém cuida de você. Ruim é não haver um amor que lhe lembre disso toda noite repetidas vezes e que lhe aponte os limites do mundo e as possibilidades de superar encalhes. Roubar das crianças a fantasia e a oportunidade de ser amadas é o que de pior pode acontecer. Muita gente convive com a brutalidade da violência, da doença e das perdas desde cedo, mas mesmo assim conhece a poesia. O que subtrai a chance de uma vida, por dentro e por fora, é a ausência. Ela é ruidosa. Tomar mais leite doce, portanto, no peito e no copo, com mais ou menos lactose, pode ajudar a gente a ser mais gente, a lidar com a dor e com a falta de amor. E a escapar.

Queria um tempo. Um tempo de histórias sem fim e um lugar para desconfiar menos. Desconfiar cansa. Estou com saudade de beber leite formidável como a chuva.

 

 

2 pensamentos sobre “Leite formidável como a chuva

  1. Vivi querida, hoje acordei duas vezes, esticando o braço pra pegar o celular. Na segunda vez, um pouco culpada pela adiantada hora, passei os olhos na caixa de email e vi tua mensagem. Sem resistência alguma vim saborear tuas palavras que me remeteram ao meu passado e ao nosso presente cotidiano. O que me faz crer que celular, mesmo com uma irrisória tela, me aplaca a ansiedade para ler textos teus que me fazem refletir sobre a minha relação de mãe com minhas duas meninas. Beijos em profusão.

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    • Mari, esta é uma mensagem maior e mais bonita que eu poderia ler neste momento.
      Às vezes, a gente (a gente humana) se acomoda mais facilmente do que as palavras, por isso é difícil escrever. Por isso também é tão bom saber que conseguir falar dessa forma com alguém que para mim é tão grande, você. Obrigada. Beijo e abraço apertados.

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