Tente outra vez

…entre fevereiro e março de 2014, a Vida Simples saiu com uma reflexão sobre recomeços, que escrevi sob o título Tente outra vez. Quando vi a linda capa pela primeira vez (abaixo, uma síntese), lembrei do sangue que derramei para escrever (…). Começar de novo é foda. Para quem tiver tempo, interesse, paciência ou for doido o suficiente para ler, colo as palavras que usei aqui, com a sempre generosa força dada por minha editora. É o texto original, igual ao impresso, mas com uns dois parágrafos a mais (no fim, sobre esquecer da vida, quando comecei a divagar e, ufa, parei de castigar o teclado).

No tempo dela, a revista vai pendurar a versão final em seu site. Por ora, se ainda não viu, segue adiante. Imagino que só se não é meu amigo não viu, porque diante dos meus olhos aguados há um mês todos eles correram pra banca na tentativa de esgotar a tiragem. Não é? Estão certos. Sou rancorosa e poderia jamais perdoá-los. De todo modo, quem já pegou um desses exemplares na mão sabe que, no caso específico da Vida Simples, virar e ver as páginas de verdade é bem mais gostoso, principalmente se agarrado a uma lata de leite condensado com dois furinhos. Mas estou aumentando sua caminhada. Desculpe.

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Há alguns anos, meus cabelos eram muito longos e cortei-os bem curtinhos. Fiquei o tempo todo de costas para o espelho. A cabeleireira prendeu-os e num instante, com um único golpe, reduziu tudo a menos da metade. Gostei. Durante algum tempo, senti falta do volume ao ensaboar a cabeça, espantei-me com meu novo reflexo e tive de explicar mil vezes para os que estranhavam por que havia feito aquilo. “Deixei crescer, para poder cortar”. Desde então, e nunca mais com o mesmo impacto, é claro, as tesouradas pontuam meus novos começos na vida – voltei a estudar, o amor acabou, fui demitida, me demiti, mudei de casa, casei – ou marcam, simplesmente, o entusiasmo pela oportunidade que surgiu, seja de um jeito enviesado, porque não queria me separar ou ser assombrada pelo desemprego, seja por meio de uma iniciativa minha, o acordo interno: “Espero que dê certo, mas, se não der, tento outra vez”. Simbolicamente, a “tesoura do desejo” subtrai pontas que perderam o sentido. Na prática, a possibilidade de mudar alarga os horizontes e ganho perspectiva. “Posso recomeçar, logo estou bem viva”.

Aqui entre nós, já recomecei tantas vezes o texto que você lê agora, que aplicando literalmente essa lógica eu deveria estar careca. E, se cada página tivesse sido impressa, teria de compensar plantando árvore até o fim de uma vida bem longa. Foi difícil, porque recomeçar é uma batalha pessoal. Quando buscava inspiração, achei no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa: “Uns gastam a vida na busca de qualquer coisa que não querem; outros empregam-se na busca do que querem e não lhes serve; outros, ainda, se perdem.” Para desembaraçar meus parágrafos, me perdi por aí.

Recomeçar, verbo transitivo direto, significa começar de novo, retomar após interrupção. Se intransitivo, é começar a ser, a produzir-se novamente. Desejamos que nossos recomeços sejam substantivos, que nos ajudem a recuperar o significado perdido ou ainda não encontrado. E que ajudem também a dar sentido ao que já temos. É bom saber que, além dos recomeços do calendário (a virada do ano, a volta às aulas, o domingo e a segunda e a primavera), temos a chance de reinventar a própria história e encontrar satisfação fazendo um movimento em direção ao novo, em pleno voo. Aquela sensação de que algo precisa mudar, mas nada é feito enquanto somos assombrados pelo medo, é a deixa para alguém dizer: “Ânimo, Hardy”.

fotografia de Alex Silva, produção de objetos Andrea Silva, pintura Diego Sanches, tratamento de imagem Ruy Reis

fotografia de Alex Silva, produção de objetos Andrea Silva, pintura Diego Sanches, tratamento de imagem Ruy Reis

Chegam a mim cada vez mais relatos de gente que, com coragem, resolve mudar, fazer algo que nunca fez concretamente. E isso é bem bonito. “Voltei para a faculdade e estou estudando gastronomia”, “Voltei para a faculdade e estou estudando direito”, “Entrei no curso de moda e vou começar a desenhar”, “Pedi demissão e vou para casa, pensar no que realmente quero fazer”. A paulistana Maria Lucia Lima Soares foi médica radiologista em São Paulo por mais de vinte anos. Recebia um ótimo salário, trabalhava de doze a catorze horas por dia e tinha a vida urbana típica da capital paulista. Aos poucos, começou a cortar os fios que a ligavam diretamente ao exercício da medicina e à vida que ela adjetivava de materialista demais. Foi procurando formas alternativas de ajudar os outros que deu um jeito de inserir em sua rotina a acupuntura e a homeopatia. “Me diziam que eu estava enlouquecendo, mas aquilo tudo não tinha mais significado, me aprisionava e eu precisava fazer outra coisa.” Em 2006, Malu alugou seu apartamento em São Paulo, deixou o emprego no hospital Beneficência Portuguesa e mudou-se para Maceió, onde trabalhou como acupunturista voluntária. Agora dá aulas na Universidade Federal de Alagoas e hospeda em sua casa, numa vila de pescadores, estudantes estrangeiros que trabalham também com voluntariado. Aos 58 anos, continua investindo no processo de desprendimento. “Tenho cada vez menos medo de mudar.”

Minha amiga Claudia Grechi Steiner, jornalista, há mais de dez anos casou, mudou para a Suíça, onde teve uma filha, aprendeu alemão e deixou sua carreira suspensa pelas circunstâncias. Aqui ficaram outros amigos, família, sua casa e a zona de conforto. Escrever, por um bom tempo, foi um projeto adormecido. Há pouco mais de um ano, quando os dedos formigaram de inquietação, se deu conta que tinha mais autonomia sobre seu tempo e “começou a ser” escritora com os recursos que possuía no momento: vontade, talento e computador. Publica em temporadas o livro Só o Pó no Facebook (aqui e aqui) e tem um romance, O Caderno de Ana, entre os mais vendidos na loja brasileira da Amazon. Fácil? Não. Dinheiro praticamente não há, ainda, e nenhum dos trabalhos de Claudia é encontrado nas livrarias físicas. Ela teve originais ignorados por editoras. O jeito foi aprender a editar a si mesma, instigando pessoas a ler. E elas estão lendo. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo. E Claudia está lá no meio.

O projeto online Continuecurioso, que hospeda uma série de filmes sobre recomeços profissionais, atuais e reais, anunciava para fevereiro a segunda temporada de vídeos. Cada um perfila uma pessoa ou grupo que está tentando fazer algo, promovendo mudanças pessoais e coletivas e com isso está contente. Há a publicitária que era infeliz na agência, voltou para a escola e virou cozinheira, a família que deixou a cidade para trabalhar na roça e hoje tem um sítio de orgânicos onde produz entre outras coisas morangos suculentos, o casal que foi morar na ilha e de lá fabrica conteúdo para projetos online que eles mesmos criaram. Em algum momento de suas vidas todos deram ouvidos a uma vozinha interior que os fez comparecer ao guichê do recomeço. Um chamado de intuição misturada com propósito.

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“O dia fora memorável, pois causara grandes mudanças em mim. Mas, todas as vidas são iguais. Pense num dia qualquer, e o subtraia, e veja que, sem ele, sua vida teria um rumo inteiramente diferente. Faça uma pausa, você que lê estas palavras, e, por um momento, pense na imensa corrente de ferro ou de ouro, de espinhos ou de flores, que talvez jamais o tivesse encadeado, não fosse a formação do primeiro elo de um dia memorável.”
(Grandes Esperanças, de Charles Dickens)

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Ao recalcular a rota que nos leva ao novo, as mudanças não são imediatas muito menos perfeitas. Coisas dão errado, há desistências e perdas e, sobretudo, há a batalha que cada um tem de enfrentar para ser fiel a si mesmo. Muitos escapam dessa briga, mas tenho a impressão de que os que se movem não estão fugindo: acreditam que o recomeço é rico e mais profundo do que um corte de cabelo, principalmente quando conseguimos avançar em sua direção com alguma abertura para, quem sabe, dar sentido à vida quando o amor acaba ou preencher o buraco cavado no peito por um trabalho que, com o perdão de qualquer trocadilho, não nos representa.

A repórter, escritora e documentarista Eliane Brum, pediu demissão e começou uma vida sem carteira assinada, totalmente nova para ela. Em um texto intitulado “Desconhece-te a ti mesmo”, publicado originalmente em 2010 e reeditado em seu livro A Menina Quebrada, ela diz: “Naquele momento, quando escrevi sobre a minha escolha, disse que meu desejo era me reinventar. Hoje, passados quase cinco meses dessa mudança, descubro que para me reinventar é preciso, antes, me desconhecer (…). É preciso ser capaz de olhar para nós mesmos com estranhamento para que possamos enxergar possibilidades que um olhar viciado tornaria invisíveis. Este é o processo de se desconhecer como uma forma mais profunda de se conhecer. Para novamente se desconhecer e assim por diante. Exige muita coragem. Porque dá um medo danado.”

Quando visitei minha própria coleção de recomeços, percebi que às vezes tenho a tendência mercurial de encerrar questões com as quais não quero lidar na gaveta e subitamente despejá-las no lixo. Sinto um baita alívio e torno a ocupar o espaço liberado com novidade, oquei, mas de um jeito ou de outro a conta do que foi ignorado aparece. É a ilusão do controle. A primeira lição sobre recomeços que aprendi ao construir este texto é: dizer adeus ao que deixaremos para trás de um jeito profundo é um cuidado fundamental e ajuda a recomeçar.

Eu não tinha tanta clareza do significado dessa espécie de luto até conversar com o escritor e jornalista inglês David Baker. Ele é um dos fundadores da revista Wired, onde trabalhou, em Londres, até 2011. Agora dá aulas na The school of life, criada pelo filósofo suíço Alain de Botton. A instituição inglesa dedica-se a questões fundamentais do tipo “relacionamentos podem durar a vida inteira?” ou “como entender melhor o mundo?”, usando para isso filosofia, literatura, psicologia e arte.

Em seu trabalho, David nos ajuda a refletir sobre uma vida melhor, mais autêntica e, por que não, orgânica e analógica. Ironicamente, poucas semanas antes de nos falarmos, deparei-me com algumas de suas ideias no trânsito. Digamos que eu estava “presa” à internet pelo celular e, a cada sinal fechado, lia sobre viver mais off-line (!), trabalhar menos e de um jeito mais esperto mesmo que isso signifique enxugar o orçamento, sendo racional no uso do tempo e da tecnologia.

“O desejo de começar de novo é muito bonito, mas, a rigor, recomeçar do zero é impossível”, disse ele. “Estamos, aos 20, 25, 35 ou 50 anos, no meio do projeto de vida e seria uma pena jogar fora o que trazemos. O melhor é olhar para dentro e desfazer-se aos poucos e com cuidado daquilo que não precisamos, abrindo espaço para o novo de um jeito mais tranquilo e usando as experiências a nosso favor.” Ainda que o processo não seja exato nem instantâneo, David destaca três passos para organizar a movimentação.

O primeiro é identificar e despedir-se de objetos, hábitos, atividades e relações que não fazem mais sentido. Assim, arejada, a vida abre espaço para o novo – sabe aquela tarde chuvosa de domingo em que você para diante do armário, põe tudo abaixo e limpa, tira o que não serve, arruma? É por aí. David faz uma analogia com o que em inglês chamam de “spring cleaning”, a limpeza da primavera. “Para mim, a criatividade só flui quando há espaço em minha vida, interno e físico. Para conseguir esse espaço, é importante cumprir um ritual semelhante ao luto, fechar ciclos, assimilar o fim, a perda ou a separação do que já não nos serve. A seu tempo, uma saudade tranquila tomará o lugar da dor. É um sentimento muito suave e confortante. Muitas vezes as pessoas simplesmente esquecem dele.”
Feita a limpeza, interna, dentro da gente, e física também, em casa, nas gavetas ou onde mais for necessário mexer, David sugere identificar e atribuir valor ao que é importante.

É um exercício interessante de autoconhecimento perguntar a si mesmo: o que me faz sentir realmente vivo? A ideia é observar valores e hábitos e atividades que nos definem, como talvez para algumas pessoas seja escrever, ler, fazer ioga, brincar com o filho, escutar o outro. É pegar um papel e listar as sete experiências que façam você se sentir vivo. Depois, durante mais ou menos dez minutos, pensar em cada um dos tópicos que anotou e desenhar ao lado objetos, imagens ou situações que os representem. Em seguida mostrar os desenhos para quem estiver ao lado e buscar palavras para descrevê-los e explicá-los. Essa reflexão ajuda a enxergar o que é importante. A partir daí, é construir a nova rotina com disposição para absorver as novidades. “A coragem do recomeço é a coragem proveniente do autoconhecimento. Não é uma coragem louca e inconsequente. Nesse sentido, recomeçar, sendo honesto consigo, é bem menos desgastante do que ficar o tempo todo tentando ser quem esperam que a gente seja.”

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Ao percorrer histórias reais e fictícias de recomeços, acabei assistindo outra vez Mary & Max (2009), animação para adultos (mesmo) escrita, dirigida e desenhada por Adam Elliot. Para quem não conhece, deixo aqui a recomendação. O longa conta a história da menina Mary Daisy Dinkle, australiana de Melbourne, e do americano Max Jerry Horovitz, de 44 anos, que vive sozinho em Nova York. Um dia, Mary quis saber qual a origem dos bebês americanos. Seu avô lhe contou que na Austrália as crianças surgem no fundo do copo de cerveja. Será que nos Estados Unidos elas aparecem na lata de refrigerante? Aos oito anos de idade e cheia de expectativas do tipo crescer, livrar-se de uma mancha de nascença “cor de cocô”, que lhe assombra a testa e a autoestima, Mary sorteou um nome na lista telefônica de Nova York e escreveu para Max a pergunta dos bebês. No envelope, enfiou uma barra de chocolate e um autorretrato – Mary gosta de desenhar e confecciona os próprios brinquedos já que, por iniciativa dos pais, nunca ganhou nenhum.

“Espero que aceite ser meu amigo.” O metódico destinatário, diagnosticado com transtorno alimentar e Síndrome de Asperger, acha que a gente do mundo é de modo geral confusa e bagunçada. Contudo, depois de ler a carta quatro vezes e superar um ataque de ansiedade, sentou-se diante da máquina de escrever na tentativa de desfazer as dúvidas de Mary e, por que não, compartilhar com ela as próprias indagações. Afinal, seu único amigo até então era imaginário – e viciado em livros de autoajuda. “Você parece feliz”, anota Max. Os vinte anos de correspondência entre a menina e o homem pavimentam de sentido a calçada de sua existência, cheia de rachaduras e emendas, como é a minha e a sua.

Em uma sociedade habituada a valorizar ganhos materiais, boniteza e felicidade a qualquer custo, Mary e Max poderiam, em análise ligeira, ser considerados perdedores. Se vivessem em nosso tempo, talvez até fingissem no Facebook uma vida diferente, ideal, aceita, que não perturbasse e, às vezes, provocasse até certa invejinha. Mas não. Mary e Max tentam viver a própria verdade, que consiste em contornar os nãos que a vida lhes oferece em abundância, fazer perguntas sinceras, gostar de chocolate, leite condensado, barulho de chuva, desenho animado e cheiro de bicho de estimação molhado. Na aventura empreendida por todos nós entre o nascer e o morrer, que é a vida, temos a chance de ser de verdade, como a Mary e o Max. Também podemos, por outro lado, perseguir o pacote convencional casa, carro, emprego fixo e dinheiro, supermãe e superpai, fazendo um jogo que muitas vezes nem nos pertence, mas parece certo. Ainda que não tenhamos controle absoluto, é interessante notar que, em parte, somos livres para voltar atrás, recomeçar com o que temos, dar um passo, trabalhar com outra coisa e aceitar que, muitas vezes, simplesmente não sabemos. Isso tudo é possível desde que estejamos dispostos a não nos esquivar do que nos define.

Sobre um dos livros mais belos que já li, a reunião de contos O tempo envelhece depressa, do italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), o também escritor Bernardo Carvalho diz, na orelha, que há em determinado texto a “constatação de não se poder agarrar o presente nunca, pois este será sempre o lamento do que se perdeu e a promessa do que está por vir”. Como se conversasse com ele, Emily, personagem da peça Nossa Cidade, do americano Thornton Wilder (1897-1975), pergunta e responde: “Será que algum ser humano percebe a vida enquanto ele a vive? Só agora, depois que tudo passa é que se sabe que a gente vive, olha e vê – e não enxerga nada!”

Nesse diálogo somente possível no copiar e colar, somos convidados a prestar mais atenção em nossa vida. E a (re)vive-la de verdade, logo.

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