A marmita certa e as linhas tortas

marmita de letras

marmita de letras

Decidiu cozinhar para ser amada. Mal dá para acreditar que a mulher linda, de olhar líquido e corpo forte, duvida do próprio encanto. Mas estamos num filme de desencontro e há essa indiana atormentada pela indiferença. O homem que dorme ao lado é praticante da ausência. Não vê o que a gente admira. Todos os dias vai embora sem perceber, volta sem motivo e come sem entender o que botou para dentro. No jantar, cara enfiada no prato ou, no caso dele, erguida na direção de algum programa ordinário. Vazio, mastigação e ruído de televisão. Às vezes mulher ou filha crava os olhos no sujeito enquanto mastiga: quem sabe hoje ele volta? Mas não há nada ali: deixou-as há tempos e esqueceu de levar a própria figura, reduzida a morto assalariado.

Intuo que a casa se enche de luz e cor quando estão sozinhas, livres daquele monte de nada. O desejo é farto e estão vivas. Desenham sonhos de lápis colorido. Butão? Só que hoje é dia de semana e tem de tomar cuidado com a chuva. A porta bate outra vez, fechando-se atrás da guria a caminho da escola. A bolsa carregada de um sem fim de cuidados. Na janela, só de olhar, a mulher empurra a menina para dentro da carona (…). Mete a angústia na máquina de lavar.

Cresce para cima das panelas e arranca delas barulho de molho, chiado de fritura e cheiro bom. Experimenta. Não está pronto ainda. Despertada dos afazeres pelo perfume da comida da sobrinha, a velha tia guardiã de um ventilador de teto e moradora do apartamento de cima adivinha o que falta e improvisa um gracioso elevador de condimentos na fachada o prédio. Uma pitada disso e está frito. Se o cara não se entregar, caso perdido.

Ding, dong. Chegou o dabbawala, o entregador de marmita em Mumbai. Vestido de branco, todos os dias o mensageiro pega a quentinha em casa, fresquinha, e leva ao escritório. Devolve mais tarde, para a cozinheira triunfar sobre o vazio e planejar o que dizer no prato de amanhã. O trajeto da lancheira é uma gincana muito louca que parece ficção, mas Harvard foi lá estudar a logística. Os dabbawala não erram e diz o romance que, se erram, acertam. Você, na poltrona, imagina em que condições aquele estojinho de comida caseira bem-intencionada vai chegar. E já está com fome. Quer espiar cada compartimento junto do senhor fernandes, o homem de olhar profundo e conversa contida.

Numa piscada, enquanto o carregador vence a confusão das ruas e os trilhos, só lhe resta procurar na bolsa bolinhas de chocolate com conhaque. Bombonière fraca que não tem bolinha. Pensa na viagem para a Índia que jamais fez. E essa poeira? Será que aqui perto tem um restaurante indiano? Será que vendem bebida alcoólica? Precisa beber alguma coisa depois do filme. Será que toda comida é condimentada? O que será que ela quer? Por que escolheu justamente esse filme? A barriga vai roncar agora. Ai.

Vejo daqui que você ameaça levantar, mas só se ajeita na cadeira, projeta pra frente, segura o queixo, e agora? Eu também. Sabe, li no jornal que o dabbawala entregará a marmita para outro homem e não o frouxo. Ainda leio algumas coisas no papel, quando ser antiga não é nenhum castigo. Espanto a melancolia e acho excitante o que já sei: a bela cozinheira, o homem errado (que é certo) e o contrabando de cartas manuscritas na marmita. Quis ver esse filme porque nunca te vi e sempre te amei.

Pesquise aí: se precisa de confiança na entrega, dabbawalas não se enganam. Só os dabbawalas artificiais dos emails que nunca chegam. E também erram ali na cozinha as formigas dabbawalas que decidiram usar minha casa de atalho e me converteram em exterminadora que à noite sonha com a vida de inseto e mal pode dormir de tanta culpa. É uma guerra. Elas ou eu.

A vida da minha musa é realidade fantástica de pontas soltas e sequências mal contadas. Dá um filme bom sobre expectativa, saudade e querência. Manhãs na cozinha arranjando coisas. Nas entranhas, rebuliço de criatividade. Não sei se Ila é capaz de imaginar seu cúmplice no refeitório a cheirar a comida, atordoado por dentro. Mostra quase nada por fora, exceto uma garfada atrás da outra e uma discreta lambidinha para limpar os dedos, botar os óculos, pegar o bilhete e erguer a sobrancelha para ouvi-la melhor.

A campainha arranca a mulher dos devaneios e dos panos por dobrar. A marmita trouxe um punhado de letras. O que dizem? Lá pelas três da tarde, despeja no copo café chá com leite temperado e desembrulha a carta. Dobra as pernas sob a mesa e lê. Sorriso bobo. Amanhã, outro farnel de confidências. O dabbawala nunca falha, foi gente de Harvard estudar a logística do impossível. Se erra, acerta.

The Lunchbox faz querer rever, porque alguma coisa nos escapa e a gente se pergunta tanto. Quero voltar. É gostosamente desigual. Não sei mais o que falar sem estragar sua refeição, então esqueça o que leu e faça um prato de comida. Pegue um papel e uma caneta macia e comece a carta assim: “E se…?”.

If I could make the world as pure and strange as what I see
I’d put you in the mirror I put in front of me
I put in front of me

2 pensamentos sobre “A marmita certa e as linhas tortas

  1. Pingback: Lunchbox: palavras na lancheira – Lembraria

  2. Pingback: De chuchar o pão e lamber o prato – do que eu falo quando eu falo de comida

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