A valsa do brigadeiro de colher

Encontraram-se no corredor. ‘Lembra quando você fez um doce maravilhoso? Era pretinho, de chocolate…’ Brigadeiro. ‘É. Eu quero, mamãe’. Bom dia, amor, mais tarde vamos comprar o leite condensado, tá bom? Um abraço de esmagar o corpo e quase quebrar ossinhos selava o acordo. Cabeça encaixada no ombro da menina, de olhos fechados em saudade, a mãe se arrependia de ter arranjado o compromisso. Não tinha a menor vontade de ir às compras. Não pretendia botar os pés pra fora. O dia seria de interiores, sem ter de lidar com os outros, pois nós, por dentro, já éramos muitos. A pequena inquieta no primeiro beijo apertado e aproveitador reclamou. A grande tinha cheiro de café, disse, e irrompeu pela sala descansada. Balançou os cachos, rebolou as ideias e esticou o corpinho pra cima das possibilidades.

brigadeiro de colher © viviane zandonadi

brigadeiro de colher

Começava assim aquela manhãzinha fresca, a primeira do ano bruto de 2014 que é, até anteontem, o do verão mais quente na história do preenchimento de vazios de conversa.

Ao acordar, a menina dava continuidade a algum enredo de sonho e trazia alegorias para novos começos. Se hoje foi o brigadeiro, de outras vezes amanheceu com aquarela, lago de lama e torre de castelo. E bruxas plurais. As bruxas sempre estão lá.

Acho que dava para sentir um ventinho frio. Aspirou a manhã menos quente e a claridade menos doída depois de uma noite de chuva. Suas tarefas a esperavam: banhar uma boneca cheia de carrapatos e que se recusa a entrar na banheira (!), maquiar a si mesma e a quem estiver por perto com cosméticos imaginários feitos de bastão de crayon, desenhar grupos de pessoas com a cabeça redonda e o corpo delgado, um traço só, firme, como se fosse uma longa cauda (a mãe acha que são espermatozoides, acreditando de verdade e não sem culpa pela falta de modéstia que aquilo ali é obviamente o gênio da casa). Toma leite, come tapioca e vê um sombrio conto de Natal na televisão. Depois, esconde-se dos anões de Willy Wonka. A palavra ‘fábrica’ em qualquer contexto a faz meter a cara na almofada, ainda que recortada por riachos de chocolate.

***

Perto da hora do almoço, a vizinha fritava linguiça muito fina – o aroma era tão nítido que dava para adivinhar, com todo o respeito, a espessura do embutido que certamente era do tipo que vai para a panela sem óleo e solta uma gordurinha generosa a fim de scarpetta e pão. O perfume desnorteou o romance que acompanhava a mãe desde cedo.

esta valsa é minha © viviane zandonadi

esta valsa é minha

“Dançando com David, ele cheirava a boas notícias (…). Alabama tinha ciúme de seu pálido alheamento. Quando o via deixar a pista de dança com outras garotas, o ressentimento que sentia não era contra qualquer fusão de sua personalidade com as delas, mas contra o fato de ele conduzir outras que não ela própria a essas regiões isoladas mais tranquilas que só ele habitava.”

A menina também saiu de si. Contornava um palhaço no papel e atordoada suspirou. ‘Hum, que cheiro bom, hein?’.

Enquanto lá fora ela cantava que é primavera e te amo meu amor, trago esta rosa (para te dar), hoje o céu está tão lindo (vai chuva), a mãe botava na mesa o feijão fresco perfumado com cubinhos de bacon, músculo na pressão, arroz branco e mandioquinha. ‘É mandioca, mãe, não é inha’. É inha, sim senhora, porque amarela. Pode chamar também de batata-baroa. ‘A mandioca começa clara e fica amarela, mãe, sabe? Então isso aqui é purê de mandioca’, insistiu a miúda, perdoando a ignorância da interlocutora. Até fechou os olhos para saborear o triunfo.

Recusou a sobremesa. ‘Pôxa, filha, o abacaxi está tão docinho’. Fica calma, mãe, já vai começar o desenho, tá bom? Mas dormiu no meio da batalha em que Mulan, vestida de homem, enfrentou os unos.

Hoje é mesmo um dia para dentro, pensou a mãe, na folha sessenta e dois.

“Era a maior cama que os dois, juntos, podiam imaginar. Mais larga do que comprida, e incluía todas as qualidades exageradas do desrespeito que ambos tinham por camas tradicionais (…). David rolou para o seu lado; Alabama escorregou montanha abaixo para o lugar quente sobre o volume de jornal de domingo.”

Foi para a cozinha tentar realizar o sonho da menina com o que tivesse no próprio guarda-comida. Sem leite condensado, despejou na panelinha um copo de leite integral de verdade, enfiado na garrafa, dizem, em ligação direta com a vaca que vive numa fazenda na Bahia. Quase orgânico e sem (tantos) intermediários. Duas colheres de sopa de manteiga (de verdade, também, e salgada), quatro colheres de chocolate em pó dos padres, um pecado particular. Três de açúcar. Quebrando os grumos com o fouet, empinava na outra mão o livro. Aventalzinho florido, barriga encostada no fogão, a perna formava o número quatro que desafia os embriagados. Deitou um pouco de coragem no líquido até então desacreditado. Fogo meio baixo. Lá pela página sessenta e sete, quase vinte minutos depois, Alabama descobriria a gravidez. Seriam três agora e os dois adultos estavam apavorados. O brigadeiro já soltava do fundo da panela, condensado, bem escuro um tanto amargo e com um brilho diferente. Ficou bom.

Deixa esfriar.

David e Alabama acham que em seu tempo todo mundo tem teorias sobre tudo, mas ninguém sabe nada realmente a respeito de ter uma criança.

“Havia filas de espera no Ritz naquele ano. Todo mundo estava lá. Pessoas encontravam conhecidos em saguões de hotéis que cheiravam a orquídeas, luxo e histórias de detetive, e perguntavam umas às outras onde tinham andado desde a última vez. As pessoas estavam cansadas do proletariado… todo mundo era famoso. Todos os outros que não eram tão conhecidos tinham morrido na guerra; não havia muito interesse pelas vidas pessoais.”

A mãe subtrai uma colherada de brigadeiro e parece ouvir o recado da filha: ‘Eu já volto, não coma todo o docinho, combinado?’ Ahã. Colher pendurada na boca, vira outra página.

Chuva, brigadeiro, temperatura amena e um romance de anos loucos que começa estranho – parece um punhado de metáforas um tanto macarrônicas, mais enroladas que os fios do telefone. Mas logo cresce, desembaraça e gruda no retrato da mulher que empunha lindamente a cigarrilha. Uma novela charmosa escrita por Zelda Fitzgerald no hospital psiquiátrico. Nos aparatos, Caio Fernando Abreu conta que ela escrevia para “orientar a si própria dentro daquele poço onde tinha caído e que, até hoje, por falta de outra palavra mais adequada, chamamos de ‘loucura’.” O hoje da anotação é 1986.

Lá fora, a vida era outra. Dentro, pé pra cima no sofá, Save me the Waltz e let’s misbehave.

(lá pelas três da tarde a menina desperta: ‘vou me lambuzar nesse chocolate’. Feito.)

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