A vertigem ou o melhor bolo de laranja do mundo

Queria outra vez que fosse anteontem para, debaixo de um ventilador de teto com a menina, vendo a história de amor entre o príncipe sapo falido e a plebeia cozinheira, escapar e num cochilo deixar desabar no peito o livro que ainda não li. Acordo. Engoli o coração outra vez. Queria que o ano recomeçasse com menos tudo e em outro lugar (…). Durmo novamente quando a Tiana, a heroína da Disney, começa a cantar. Imagina que está em seu futuro restaurante em New Orleans. “Quaaase lá…”. z z z…

funny face

funny face

Tenho o sonho quixotesco e megalomaníaco de ser dona de uma livraria. A dona do mundo. Que seja anormal. Mistura de Funny Face (com estantes mais possíveis e menos filosóficas), Mensagem pra Você e 84 Charing Cross Road, a mais profunda e viva, espanada a poeira. Quero prateleiras cheias, desarrumadas, mas compreensíveis. Vestígios de busca com ou sem propósito. E ninguém, no futuro do pretérito dessa loja, é obrigado a conversar. É proibido cochichar ruidosamente e usar imperativos em volume alto. Os que falam sabem fazê-lo sem perturbar.

Em minha livraria crianças não correm com espadas de sabre de luz imaginárias, berrando. Tenho medo que o façam e não sejam perseguidas e devidamente limitadas pelos pais, talvez orgulhosos de uma educação pretensamente moderna, ou expiação de culpa. Por sua vez, em solenidade lúdica, elas, as crianças da minha loja, leem à vontade sem rasgar, olham as figuras e ouvem histórias. As pessoas grandes frustram seus caprichos – os próprios e os das miúdas, se houver –, mas podem descobrir palavras. Se não estiverem dispostas, podem jamais vir.

No meu mundo com porta de vidro que bate e volta um sininho denuncia quem chega. Um lugar para ficar sozinho, sozinho com alguéns e, se preferir, junto.  Um lugar para escapar de calor e frio fora de contexto, das intrigas, das burocracias, das coisas práticas da vida do tipo dentista e renovação de documentos, dos julgamentos morais, imorais e amorais, dos sicofantas e dos inseguros patológicos e dos desmancha-prazeres. Ficam lá fora também papos furados, grosseiros, homens e mulheres que não se respeitam, os que não dão seta e não sabem esperar. E os mortos-vivos. Dentro, as incertezas, as (im)possibilidades, o passado imperfeito e o presente subjetivo.

Dezenove, vinte, vinte e um graus. Sombra fresca e luz natural para a gente ler sem transpirar nem ter ataque de fotofobia. Lâmpadas confortáveis amarelinhas quase âmbar, jamais halógenas, nas tardes escuras e amenas. Poltronas macias. Dave Brubeck ou todas aquelas trilhas de filmes de Woody Allen em tipografia Windsor. Há, em meu desejo quixotesco, um pequeno quintal debaixo e ao redor de um chapéu-de-sol alto e largo. Pode ser uma jabuticabeira, mas tenho pressa, não estou ficando mais jovem.

No banco para nossas ‘tardes com Margueritte’, a gente ficaria a ler um pouco por dia, esgotar um romance curto ou consultar o dicionário de sinônimos. Acolhem-se angústias, desfazem-se dúvidas, projetam-se perspectivas à espera do resultado do exame de laboratório, da ligação, do fim do expediente do outro. Aonde ir depois de uma consulta, de um empréstimo negado (ou concedido), de uma entrevista frustrada, um negócio fechado, um amor que acaba.

Na pequena cozinha aberta, ventilada e com boa exaustão, em dia de chuva fritaríamos bolinhos. No verão, picolé de fruta e água bem gelada. Haveria sempre uma seleção de ingredientes bons para fazer sanduíches em pão de casca crocante e miolo aconchegante. Os preços das bebidas não fariam se sentir otários os que as querem bem. Não faltaria nunca um copo de rosado provençal em tarde azul e quente como a de hoje. O café coado é dado. O primeiro copo de espumante, também.

***

Queria que fosse anteontem outra vez para imaginar o piso da loja em tábuas ou tacos de madeira, se haveria ou não algum tipo de tapete colorido embaixo dos nossos pés. Almofadas? Todos deixaríamos lá fora os sapatos, a sujeira pisada, o aperto. Sem salto a modelar a panturrilha ou alongar a figura, seríamos nós mesmos, soltos, na altura real, até onde dá para ser quem somos quando há alguém por perto. Não há jogo de cena nem marcação de palco. Corta por enquanto essa parte do sapato (…), ou não.

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bolo de laranja

bolo de laranja

Queria que o domingo começasse de novo agora, no bolo de laranja que a mãe fez como se fosse mágica quando pedi um docinho. E no chá frio de hortelã que nos refrescou por dentro. Ela me manda a receita, avisa para tomar cuidado e botar cada coisa de uma vez para não quebrar o liquidificador: um ovo, duas colheres de manteiga, um copo de óleo, dois de farinha, outro de suco e um de açúcar. Uma colher de sopa rasa de fermento. Bata aos poucos, acerte a textura e o doce, se precisar. Derrame na forma untada, leve ao forno. Acrescento, sem consultar a cozinheira, que é bom lamber o resto de massa crua direto no copo do liquidificador, com colher não muito grande, para demorar mais. Respeite o tempo do seu forno. Tire de lá, fure o bolo com garfo e jogue por cima o suco de duas laranjas. Coma.

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