Pipoca

jap

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Ir ao cinema, para mim, é um ato de estômago. Penso em três coisas:

1) pipoca (sim, eu sei. Mas como de boca fechada e nunca, jamais, esmago o pacote durante a exibição, além disso ele se esvazia antes dos primeiros cinco minutos, avisos e trailers),

2) bolinhas de chocolate recheadas de conhaque e

3) o que vou comer depois, porque quase sempre deixo a sala em estado de abismo.

O italiano A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, é um lindo filme incômodo e que, na medida da minha fome, é também enorme: Roma é de tirar o fôlego, sua gente é caricatura e pintura e a revoada dos pássaros ajuda. Pensei em A Noite, sobre a comunicação manca (o sinal também está sujeito a cair no meio da conversa analógica).

Como avisaram, faz lembrar até do que não temos certeza se já foi visto e há a alfinetada geral: ao completar 65 anos, o jornalista Jap Gambardella, cínico e triste, charmoso e difícil de resistir, sensível e quase sempre cáustico, acha que não lhe resta nada (…). Está com preguiça, angústia e medo (e você?). Gostei do texto, da fotografia, dos truques e muito dos encontros de Jap e sua editora, que geralmente o acolhe com pratos de comida.

Entrei na sala passados 25 minutos das nove da noite, cinco para começar. As poltronas são escolhidas na bilheteria. Instalada na H14, mandei amor para minha filha, desliguei o celular e abri a garrafa de água com gás, sacrificando as borbulhas para não atrapalhar os demais. Estava tudo em seu lugar, até que no apagar das luzes entraram três atrasados do tipo bem à vontade. Sentaram-se nas cadeiras erradas de propósito, muito divertidos entre si. O filme já tinha começado quando quem comprou G12 e G13 reclamou o que estava no ingresso. Ruidosos, os três patetas saltam então para a G14 e me encaram abobados: “oi! Agora somos seus vizinhos eeeee” (sério).

Perdi a sequência inicial até a entrada do coral e consegui não xingar. Eles conversaram por mais algum tempo, naquele clima de família misturada vendo filme no domingo à tarde na casa da mãe, com crianças que não têm sossego, cunhado que ronca e gente que pausa a fita toda hora para ir ao banheiro, pegar um docinho ou atender o telefone. Só que na sala de cinema eram duas mulheres e um homem sem vergonha alguma. O filme por fim os calou.

Quando na rua, me atirei no pastel de queijo, no carpaccio e no copo de vinho, uma melancolia bem gorda e gostosa. Em casa, procurei na internet a parte roubada pelos boçais, um trecho de Viagem ao Fim da Noite, de Louis-Ferdinand Céline. Quero ler agora, mas não vou.

“Viajar é útil, exercita a imaginação. Todo o resto é desapontamento e fadiga. Nossa jornada é totalmente imaginária, e essa é sua força. Vai da vida à morte. Pessoas, animais, cidades, coisas, tudo é imaginado. É um romance, uma narrativa fictícia. Littre diz isso e ele nunca está errado. E, apesar de tudo, e antes de mais nada, qualquer um pode fazer o mesmo. Só precisa fechar os olhos. Está do outro lado da vida.”

 

***

pais e filhos

pais e filhos

Também tira a respiração de esponjas como eu o japonês Pais e Filhos, em que duas famílias descobrem seis anos depois que seus meninos foram trocados na maternidade. A certa altura, quis comer sukiyaki e tempurá. Mas o resultado é que chorei até ficar com enxaqueca.

azul

azul

Azul é a cor mais quente assisti em casa e sem pipoca, a fim de ostra e vinho branco e, sobretudo, pedir para a Adèle fechar um pouco a boca. Emma me pareceu mais interessante. É a belle june! Filme longo de amores incertos onde a gente já esteve. Preferi uma seção clandestina a ter ao lado abobados rindo da história de duas garotas que namoram, coisa que talvez esteja acontecendo em uma poltrona perto de você.

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